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Batismo do Senhor: a Teofania que nos faz filhos no Filho


ARTIGO - BATISMO DO SENHORCaminho de Fé
PODCAST - BATISMO DO SENHORCaminho de Fé

INTRODUÇÃO

A festa do Batismo do Senhor é como um grande portal entre o tempo do Natal e a vida pública de Jesus. Depois de contemplarmos o Menino em Belém, adorado pelos pastores e pelos Magos, a liturgia nos conduz às margens do Jordão, onde o mesmo Jesus, já adulto, entra silenciosamente na fila dos pecadores. Aquilo que começou escondido na noite de Natal agora se torna público: o Filho amado se manifesta, o céu se abre, o Espírito desce, o Pai fala. A Epifania que iluminou Belém alcança aqui um novo auge: já não é só o Rei recém-nascido que aparece; é a própria Trindade que se revela.

A cena é, ao mesmo tempo, desconcertante e luminosa. O Justo se mistura aos injustos, Aquele que não tem pecado se coloca no lugar dos pecadores. João Batista resiste, sabe que está diante do mais forte, mas o Senhor insiste: “Assim nos convém cumprir toda a justiça”. No gesto humilde de ser batizado por João, Jesus manifesta de antemão tudo o que viverá: descerá até o mais fundo da nossa miséria para nos elevar à intimidade com o Pai. O Jordão torna-se, assim, um anúncio silencioso da cruz e da ressurreição.

Este artigo quer ajudar o leitor a entrar mais profundamente nesse mistério. Não queremos apenas lembrar um episódio da vida de Cristo, mas compreender o que ele revela sobre Deus e sobre nós: o Batismo do Senhor como grande Teofania trinitária, como solidariedade extrema do Filho com os pecadores, como fonte e modelo do nosso próprio batismo cristão. Ao percorrer a narrativa, os fundamentos históricos e teológicos, os símbolos, as devoções e as consequências práticas para a vida, somos convidados a redescobrir a graça que um dia recebemos na pia batismal e a deixar que a voz do Pai, do alto dos céus abertos, ressoe de novo no mais íntimo do nosso coração.

Jesus em veste simples nas águas do Jordão, João Batista derrama água, o Espírito desce como pomba e um feixe de luz celeste revela a filiação divina.

2. O MISTÉRIO DO BATISMO DO SENHOR

2.1. Narrativa do Batismo do Senhor – Mt 3,13–17

Às margens do Jordão, a cena já está em curso. João Batista prega com voz forte, chamando Israel à conversão. Gente de toda parte desce até o vale: fariseus desconfiados, soldados inquietos, pecadores arrependidos, camponeses cansados. Um após outro, eles entram na água, confessam os pecados e são mergulhados pelo profeta do deserto, como sinal de um novo começo (cf. Mt 3,1-12).

É nesse contexto que Jesus entra em cena. Mateus narra de forma direta, mas solene:

“Então Jesus veio da Galileia ao Jordão, para junto de João, a fim de ser batizado por ele. João, porém, procurava impedi-lo, dizendo: ‘Sou eu que preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim?’ Mas Jesus lhe respondeu: ‘Deixa por agora; pois assim nos convém cumprir toda a justiça.’ Então João consentiu. Depois de batizado, Jesus logo saiu da água; e eis que se abriram os céus, e ele viu o Espírito de Deus descendo como pomba e vindo sobre ele. E do céu veio uma voz que dizia: ‘Este é o meu Filho amado, em quem ponho todo o meu agrado.’” (Mt 3,13-17)

Podemos imaginar Jesus caminhando desde a Galileia, numa estrada simples, sem comitiva, sem sinais exteriores de realeza. Aquele que é o Santo de Deus se põe na fila dos pecadores, misturado à multidão que busca conversão. Aos olhos humanos, é apenas mais um galileu anônimo à beira do Jordão.

Quando João o vê aproximar-se, algo muda. O Evangelho de Mateus não descreve todos os detalhes, mas deixa transparecer que o Batista reconhece n’Ele alguém infinitamente maior. A reação de João é espontânea e teológica ao mesmo tempo:

“Sou eu que preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim?” (Mt 3,14)

É o protesto da humildade verdadeira: João sabe que o seu batismo é de penitência, enquanto aquele que está diante dele é o Cordeiro de Deus, o Justo sem pecado. Por isso, ele resiste, tenta impedir, sente-se pequeno demais para impor as mãos sobre o Messias.

Mas Jesus insiste com uma frase que é chave para toda a cena:

“Deixa por agora; pois assim nos convém cumprir toda a justiça.” (Mt 3,15)

“Cumprir toda a justiça” significa realizar plenamente o plano de Deus, entrar de modo obediente no desígnio do Pai, assumir até o fim a condição dos pecadores que Ele veio salvar. Jesus não precisa de conversão, mas quer estar onde os pecadores estão; desce às águas não para ser purificado, mas para santificar a água, inaugurando o caminho dos sacramentos. Diante dessa vontade de Deus, João se cala, obedece e consente.

Então chega o momento decisivo. Jesus desce às águas do Jordão, mergulha na corrente turva onde tantos confessaram suas misérias e, ao emergir, algo totalmente novo acontece. Mateus sublinha a rapidez e a continuidade:

“Depois de batizado, Jesus logo saiu da água…” (Mt 3,16)

Enquanto a água ainda escorre de seu corpo, os céus se abrem. A barreira entre Deus e o homem, símbolo da separação causada pelo pecado, é como que rasgada. Aquilo que os profetas e os salmos pediam — “se rasgásseis os céus e descesses” (cf. Is 63,19) — agora se cumpre de modo visível.

Mateus prossegue:

“Ele viu o Espírito de Deus descendo como pomba e vindo sobre Ele.” (Mt 3,16)

O Espírito Santo se manifesta em forma de pomba, sinal de mansidão, de paz, de novo começo. Como a pomba que anunciava o fim do dilúvio nos dias de Noé, agora o Espírito marca o início de uma nova criação em Cristo. Não é apenas um sinal exterior: é a unção messiânica, a consagração pública daquele que é o Ungido do Senhor. O Espírito repousa sobre Jesus, confirmando que n’Ele se cumprem as promessas: “Porei o meu Espírito sobre Ele” (cf. Is 42,1).

Mas a cena não termina aí. Sobre as águas do Jordão ressoa uma voz que não é de homem nem de anjo — é a voz do próprio Pai:

“Este é o meu Filho amado, em quem ponho todo o meu agrado.” (Mt 3,17)

Por essas palavras, o Pai apresenta Jesus ao mundo: Ele é o Filho amado, não por adoção, mas por natureza; é o Obediente no qual o Pai encontra plena complacência. A fórmula retoma promessas antigas — o Servo de Javé em quem Deus se compraz (cf. Is 42,1) e o Filho real do Salmo 2 — e as concentra numa só pessoa: Jesus de Nazaré.

À beira do Jordão, portanto, temos uma verdadeira manifestação da Santíssima Trindade:

  • o Filho, Jesus, que se humilha e entra na fila dos pecadores;

  • o Espírito Santo, que desce como pomba e repousa sobre Ele;

  • o Pai, que fala do alto dos céus e O proclama seu Filho amado.

A multidão talvez não compreenda tudo o que acontece, mas algo daquela hora fica gravado para sempre na memória da Igreja. O batismo de Jesus é o ponto de partida público de sua missão: a partir dali Ele começará a pregar, curar, expulsar demônios, chamar discípulos, caminhar rumo à cruz.

Ao mesmo tempo, essa cena é como um resumo silencioso de toda a obra da redenção. Quando Jesus desce às águas, Ele prefigura a sua descida até a morte por nós; quando emerge, já se anuncia, em figura, a sua ressurreição. Ao receber o Espírito, indica que, um dia, o mesmo Espírito será derramado sobre aqueles que, pelo batismo cristão, forem mergulhados na sua morte e ressurreição.

Assim, a narrativa de Mateus não é apenas um relato antigo, mas a porta de entrada para um grande mistério: Aquele que não tinha pecado se solidariza com os pecadores, deixa-se contar entre eles, para que, um dia, os pecadores possam ser contados entre os filhos de Deus. E o Pai, abrindo os céus, nos faz ouvir já agora as palavras que deseja dizer a cada batizado unido a Cristo: “Tu és meu filho amado; em ti eu ponho o meu agrado.”

É essa cena — simples aos olhos do mundo, majestosa aos olhos da fé — que a liturgia nos faz contemplar na festa do Batismo do Senhor, prolongando e aprofundando o mistério da Epifania. A partir dela, nas próximas seções, podemos explorar com mais detalhe o sentido histórico, teológico e espiritual deste “mergulho” de Jesus no Jordão, que é também o início do caminho batismal da Igreja.

2.2. Fundamentos históricos e teológicos

2.2.1. O batismo de João e o seu contexto

Antes de contemplarmos o Batismo de Jesus como Teofania, é preciso compreender o cenário em que ele acontece. João Batista aparece no deserto da Judeia conclamando o povo à conversão: “Fazei penitência, porque o Reino dos Céus está próximo”. Seu batismo é um rito de penitência, ligado à confissão dos pecados e à decisão de mudar de vida. Não é ainda o sacramento cristão, mas um gesto preparatório, um sinal de arrependimento que dispõe o coração para acolher Aquele que vem.

Israel, ao longo de sua história, conhecia diversos ritos de purificação com água, especialmente para questões legais e cultuais. O batismo de João, porém, vai além de uma purificação ritual; ele aponta para algo novo: o Reino está às portas, é preciso preparar os caminhos do Senhor. João se sabe apenas “a voz” que clama no deserto, o amigo do Esposo, aquele que batiza com água para que o Cristo batize “no Espírito Santo e no fogo”. O seu batismo é, portanto, um grande “advento” para o Batismo de Jesus e, depois, para o Batismo que Ele confiará à Igreja.

2.2.2. Por que Jesus quis ser batizado?

Sendo sem pecado, por que Jesus entra na fila dos pecadores? A resposta é profundamente teológica e espiritual. Ele não desce às águas para ser purificado, mas para purificar; não porque precise de conversão, mas porque vem assumir plenamente a condição daqueles que devem ser convertidos. De certo modo, o Batismo no Jordão antecipa a cruz: Aquele que “não conheceu pecado” se deixa contar entre os pecadores, toma sobre si, misteriosamente, o peso do pecado do mundo.

Quando diz a João: “Assim nos convém cumprir toda a justiça”, Jesus manifesta a sua obediência total ao plano do Pai. A “justiça” aqui não é apenas “dar a cada um o que é seu”, mas realizar a vontade salvífica de Deus. O Filho se coloca ao lado dos pecadores, partilha com eles o gesto de descida às águas, para depois conduzi-los, em si mesmo, à verdadeira subida: a ressurreição. Os Padres da Igreja gostam de dizer que, ao entrar no Jordão, Jesus santifica todas as águas, preparando-as para se tornarem, no sacramento, instrumentos de nova criação.

2.2.3. O Batismo como Teofania trinitária

Outro elemento fundamental é que, no Jordão, não é só a identidade de Jesus que se manifesta, mas o próprio mistério de Deus Uno e Trino. O Batismo do Senhor é uma das páginas mais claras em que a Trindade se “deixa ver”: o Filho está nas águas, o Espírito desce em forma de pomba, o Pai fala do alto dos céus. Não temos três deuses, mas um único Deus em três Pessoas realmente distintas, que agem conjuntamente na obra da salvação.

O Pai proclama: “Este é o meu Filho amado, em quem ponho todo o meu agrado”. Nessa frase ecoam o Salmo real e as profecias do Servo. Jesus é apresentado como Filho eterno e, ao mesmo tempo, como Servo obediente, que realizará a redenção pela humildade e pelo sofrimento. O Espírito, descendo e permanecendo sobre Ele, mostra que Jesus é o Cristo, o Ungido, sobre quem repousa a plenitude dos dons divinos.

Dessa forma, o Batismo do Senhor não é só o início cronológico da vida pública de Jesus, mas o momento solenemente escolhido pelo Pai para manifestar Quem é o Filho e como a Trindade inteira está envolvida na obra de nossa salvação.

2.2.4. Fundamento do nosso Batismo cristão

Tudo o que acontece com Jesus no Jordão tem relação íntima com o sacramento que nós recebemos. Quando a Igreja batiza, mergulha a pessoa na morte e ressurreição de Cristo, aplicando-lhe, de modo sacramental, aquilo que se revelou e se consumou na vida do Senhor. No Batismo cristão, a água recebe eficácia não por si mesma, mas porque foi tocada, por assim dizer, pela obediência e pela santidade de Cristo, que em tudo “cumpriu a justiça”.

Pelo Batismo, não fazemos apenas um gesto de penitência exterior, como no rito de João; recebemos um selo interior: somos libertos do pecado original (e de todo pecado pessoal, se houver), incorporados a Cristo, tornados filhos adotivos do Pai, templos do Espírito Santo, membros vivos da Igreja. A voz do Pai, que ressoou sobre o Filho Único, estende-se, por pura misericórdia, a todos os que são mergulhados em Cristo: n’Ele, cada batizado é chamado a viver como “filho amado”, agrado do coração de Deus.

Além disso, o Batismo imprime um caráter indelével: marca a alma para sempre como pertencente a Cristo. Por isso é recebido uma só vez e nunca pode ser repetido. Ele é fundamento de toda a vida cristã, porta dos demais sacramentos, raiz da vocação à santidade e origem da missão. À luz do Batismo do Senhor, compreendemos que nosso Batismo não é formalidade social nem rito de passagem cultural: é participação real na Teofania do Jordão, pela qual o Pai nos acolhe em seu Filho e nos envia ao mundo como testemunhas da sua luz.

2.3. Análise da narrativa e seus símbolos

A cena do Batismo do Senhor é teologicamente tão rica que, se olharmos com atenção, cada elemento se torna uma janela para o mistério de Deus e da nossa própria vida batismal. Nada está ali por acaso: o rio, a água, os céus, a pomba, a voz… tudo fala.

2.3.1. O Jordão: fronteira, passagem e recomeço

O rio Jordão não é apenas um cenário geográfico neutro. Na história de Israel, ele é um lugar de passagem decisiva. Foi atravessando o Jordão que o povo, depois de quarenta anos de deserto, entrou na Terra Prometida sob a condução de Josué. De um lado do rio, o deserto; do outro, a herança prometida.

Quando Jesus se dirige ao Jordão, Ele se coloca exatamente nesse ponto simbólico de fronteira: entre o “antes” e o “depois”. Ali Ele inaugura a passagem definitiva, não apenas de uma região para outra, mas da antiga condição marcada pelo pecado para a nova vida na graça. Ao descer às águas do Jordão, Jesus se manifesta como o verdadeiro Josué (nome que, aliás, é o mesmo em hebraico), aquele que introduz o novo povo de Deus na promessa plena: a comunhão com o Pai.

2.3.2. A água: morte e vida ao mesmo tempo

A água, na Bíblia, é símbolo ambivalente. De um lado, ela representa o caos, o perigo, a morte (o dilúvio, o mar Vermelho, as águas profundas); de outro, é sinal de vida, fertilidade, purificação (a água que brota da rocha, os rios que fazem germinar a terra). No Batismo, Deus assume essa ambivalência e a transforma em sacramento.

Quando alguém é batizado, é simbolicamente mergulhado na morte: morre para o pecado, para a vida antiga, para o “homem velho”. Ao mesmo tempo, é levantado das águas como quem nasce de novo: criatura renovada, filho de Deus. No Jordão, Jesus antecipa isso: Ele, que não tem pecado, desce às águas carregadas de confissões e arrependimentos do povo, como que tomando sobre Si aquilo que pesa sobre os outros. A água que O cobre torna-se sinal da morte que Ele aceitará por nós; e o emergir anuncia já, em figura, a sua Páscoa gloriosa.

2.3.3. Os céus abertos: o fim de um silêncio

Mateus registra que, ao sair Jesus da água, “os céus se abriram”. A imagem dos céus fechados, na mentalidade bíblica, exprime certa distância entre Deus e o homem, consequência do pecado. Os profetas, em nome do povo, imploravam: “Se rasgásseis os céus e descesses…”.

No Batismo do Senhor, esse pedido é atendido. Os céus não estão mais trancados; rasgam-se para deixar passar a voz do Pai e a presença visível do Espírito. Isso é de uma beleza imensa: em Jesus, o céu se abre de uma vez por todas e permanece aberto. Não vivemos mais num mundo fechado sobre si mesmo, sob um céu mudo. A comunhão com o Pai foi restabelecida. Cada batizado, ao receber a água, entra nessa realidade: não está mais debaixo de um céu de bronze, mas sob um céu aberto, que se inclina sobre ele com benevolência.

2.3.4. A pomba: o Espírito e a nova criação

O Espírito Santo desce sobre Jesus “como pomba”. O símbolo não é arbitrário. A pomba, no Antigo Testamento, aparece no relato de Noé: depois do dilúvio, ela volta com um ramo de oliveira, sinal de que as águas se retiraram e a terra está novamente habitável. Ela anuncia o fim do juízo e o começo de um mundo novo.

No Jordão, a pomba sobre Jesus indica que, n’Ele, começa a verdadeira nova criação. Assim como, no princípio, o Espírito pairava sobre as águas do caos, agora o Espírito paira sobre Aquele que é o princípio da nova humanidade. Jesus é o “homem novo”, e o Espírito que repousa sobre Ele será derramado, depois, sobre todos os que Nele forem batizados. O símbolo da pomba evoca, portanto, paz, reconciliação, recondução do mundo à ordem querida por Deus.

2.3.5. A voz do Pai: identidade e missão do Filho

Por fim, a voz. Não é um sussurro interior, mas uma proclamação: “Este é o meu Filho amado, em quem ponho todo o meu agrado”. Aqui se cruzam diversas linhas da revelação: o Salmo que fala do Rei como filho de Deus; o cântico do Servo em quem o Senhor se compraz; a expectativa do Messias ungido pelo Espírito.

Deus Pai, diante de João Batista, da multidão e, misteriosamente, de toda a história, aponta para Jesus e diz: “É Ele”. Esse “é” é forte: não se trata de um profeta entre outros, de um justo entre muitos; Ele é o Filho por excelência, o objeto do amor eterno do Pai e o Servo que, na obediência, realizará a salvação. A voz revela tanto a identidade quanto a missão: Filho amado que, justamente por ser amado, é enviado para entregar a vida.

2.3.6. Os símbolos e a nossa vida batismal

Nada disso fica apenas no passado. No nosso batismo, o Jordão se torna presente: somos chamados a atravessar a fronteira entre vida segundo a carne e vida segundo o Espírito. A água que nos toca é, ao mesmo tempo, sepultura e parto: descemos com Cristo e ressuscitamos com Ele. Os céus se abrem também sobre nós, porque o Pai nos acolhe no seu Filho. O Espírito Santo desce e habita em nossa alma, como pomba que faz ninho em casa segura.

E, ainda que não tenhamos ouvido com os ouvidos físicos, pela fé sabemos que, sobre cada batizado, o Pai pronuncia uma palavra semelhante à que disse sobre Jesus: “Tu és meu filho amado”. Essa palavra é o fundamento da nossa dignidade e da nossa missão. Viver o Batismo é aprender, dia após dia, a reconhecer-se filho, a ouvir a voz do Pai, a deixar-se conduzir pelo Espírito e a seguir o Filho no caminho da obediência e da cruz, certo de que os céus permanecem abertos sobre nós.

2.4. Práticas devocionais e reflexões teológicas aprofundadas

O Batismo do Senhor, contemplado na liturgia, não é apenas recordação de um fato passado, mas convite a redescobrir, com gratidão, o nosso próprio batismo. Por isso, a vida da Igreja desenvolveu práticas concretas que nos ajudam a manter viva essa graça primeira.

Uma das mais significativas é a renovação das promessas batismais, sobretudo na Vigília Pascal, mas também em outras ocasiões solenes. Ao renunciar a Satanás, ao pecado e às suas seduções, e ao professar novamente a fé na Santíssima Trindade e na Igreja, o cristão “reentra” espiritualmente no Jordão, reafirmando livremente aquilo que um dia foi professado por ele ou por seus padrinhos. Não é um gesto simbólico vazio, mas um ato real de combate espiritual: renovar as promessas é dizer de novo “sim” a Deus e “não” ao espírito do mundo.

Outra prática muito simples e profunda é o uso da água benta. Sempre que o fiel entra na igreja e se benze conscientemente, traçando sobre si o sinal da cruz, ele faz um pequeno memorial do seu batismo. A água recorda o mergulho salvífico; o sinal da cruz recorda que fomos marcados em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Esse gesto, tantas vezes feito de maneira distraída, é, na verdade, uma poderosa profissão de fé: “Eu pertenço a Cristo; fui lavado em seu sangue; quero viver como batizado”.

Por fim, vale recordar a importância do nome de batismo e do santo padroeiro. Receber um nome cristão não é mero detalhe cultural; é sinal de vocação. O santo cujo nome trazemos não é apenas uma lembrança bonita, mas um intercessor e um modelo concreto de vida. Conhecer a vida desse santo, celebrar sua memória, invocá-lo nas tentações e dificuldades é uma forma muito concreta de viver a graça batismal. É como se a Igreja, ao dar-nos um nome, dissesse: “Aqui está um caminho comprovado de santidade. Caminha por ele, à tua maneira, sustentado pelo mesmo Espírito”.

Assim, a teologia do Batismo do Senhor encontra nas devoções simples do povo de Deus um eco vivo e eficaz, fazendo com que a Teofania do Jordão continue a ressoar na vida cotidiana dos fiéis batizados.

2.5. Vida batismal: filhos amados e enviados

Contemplar Jesus no Jordão seria pouco se não nos deixássemos alcançar pelo que ali se revela sobre nós. O Batismo do Senhor não é apenas algo que diz respeito a Ele; é o fundamento da nossa própria identidade. Em Cristo, o Pai não vê apenas o Filho único, mas também, misteriosamente, todos os que um dia seriam mergulhados na sua morte e ressurreição. Quando fomos batizados, a voz que se ouviu sobre o Jordão passou, por graça, a ressoar também sobre a nossa alma: “Tu és meu filho amado”. Viver a vida batismal é, antes de tudo, acreditar nesta palavra e deixar que ela molde o nosso modo de pensar, rezar, decidir. Não somos órfãos espirituais, nem servos contratados por medo; somos filhos, chamados a confiar filialmente no amor do Pai.

Essa filiação, porém, não é um título decorativo, mas um caminho concreto de santidade. O branco da veste batismal, entregue no dia do nosso batismo, é um programa de vida: “trazer sem mancha este sinal” até o encontro definitivo com o Senhor. Na prática, isso significa lutar contra o pecado, buscar a confissão quando caímos, alimentar-nos da Eucaristia, cultivar uma vida de oração sincera e perseverante. Significa também deixar que o Espírito Santo, recebido no Batismo e confirmado na Crisma, purifique nossos afetos, ilumine nossa inteligência, fortaleça nossa vontade. A vida batismal é uma vida segundo o Espírito, em oposição à lógica egoísta do mundo.

Por fim, o Batismo nos faz não só filhos, mas também enviados. Assim como o Batismo de Jesus marca o início visível de sua missão pública, o nosso batismo é o ponto de partida da nossa missão no mundo. Cada batizado é chamado a ser, à sua maneira, luz no meio das trevas: na família, no trabalho, na escola, na paróquia, na sociedade. Não se trata de fazer coisas extraordinárias, mas de viver de modo ordinariamente fiel: honestidade, caridade, pureza, paciência, perdão. Onde quer que um batizado viva consciente de ser filho amado e se deixe conduzir pelo Espírito, ali o Jordão se prolonga, e a voz do Pai continua a ecoar silenciosamente, atraindo outros à mesma água e à mesma graça.

 

CONCLUSÃO

Ao término desta caminhada às margens do Jordão, podemos contemplar com mais clareza aquilo que a liturgia nos coloca diante dos olhos: o Batismo do Senhor não é apenas o “início biográfico” da vida pública de Jesus, mas um grande ícone de toda a economia da salvação. Nele, vemos o Filho eterno que, por amor, desce até as águas marcadas pelo pecado do povo; vemos o Espírito que repousa sobre Ele como pomba, inaugurando a nova criação; ouvimos o Pai que O proclama Filho amado em quem encontra todo o seu agrado. A Trindade se manifesta para que aprendamos quem é Deus, mas também para que descubramos, n’Ele, quem somos chamados a ser.

À luz desse mistério, nosso próprio batismo adquire um brilho novo. Aquilo que recebemos muitas vezes na infância, sem plena consciência, revela-se agora como graça imensa: fomos mergulhados em Cristo, lavados de todo pecado, feitos filhos adotivos do Pai, templos do Espírito Santo, membros vivos da Igreja. Sobre nós também se abriram os céus; sobre nós também o Pai pronunciou uma palavra de amor; sobre nós também desceu o Espírito. A festa do Batismo do Senhor é, por isso, um convite insistente a agradecer, a renovar as promessas batismais, a viver com seriedade o “branco” que nos foi confiado.

Mas há ainda uma última consequência: assim como o Batismo de Jesus é imediatamente seguido pelo deserto e pela missão, também o nosso batismo nos envia. Não fomos marcados apenas para “ter um lugar” na Igreja, mas para ser, no meio do mundo, sinais vivos da filiação e da luz de Cristo. Cada gesto de fidelidade, de pureza, de caridade, cada testemunho humilde da fé, prolonga a Teofania do Jordão na história. Que, ao deixar esta contemplação, possamos escutar de novo, com fé, a voz do Pai e responder com toda a nossa vida: “Eis-me aqui, sou teu filho; faz de mim o que quiseres”.

 

ORAÇÃO DE ENCERRAMENTO

Senhor Jesus, Filho amado do Pai, nós Te adoramos contemplando-Te nas águas do Jordão. Tu, que não tinhas pecado, quiseste entrar na fila dos pecadores por amor a nós. Obrigado por assumires a nossa condição para nos dardes a Tua própria vida.

Pai santo, que abriste os céus sobre o Teu Filho e manifestaste o Teu agrado, nós Te bendizemos pelo dia do nosso batismo. Renova em nós a graça daquela hora: fortalece a nossa fé, purifica o nosso coração, faze-nos viver como verdadeiros filhos, livres do medo e da escravidão do pecado.

Espírito Santo, que desceste como pomba sobre Jesus, desce de novo sobre nós, inflama-nos com o Teu amor, conduz-nos no caminho da santidade e da missão.

Ó Maria, Mãe do Filho amado e Mãe da Igreja, guarda em Teu coração o dom do nosso batismo e ensina-nos a permanecer fiéis à graça recebida. Amém.

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