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Depois da Comunhão: a Ação de Graças como morada de Cristo (à luz da Anima Christi)


ARTIGO - ANIMA CHRISTICaminho de Fé

PODCAST - ANIMA CHRISTICaminho de Fé

 

INTRODUÇÃO

Em Corpus Christi, a Igreja faz aquilo que o coração crente sempre desejou: levar Jesus pelas ruas, confessá-Lo diante do mundo, adorá-Lo com cânticos e silêncio, incenso e joelhos dobrados. O ostensório elevado parece dizer que Deus não se envergonha de permanecer entre nós. E, no entanto, o mistério mais decisivo não acontece apenas fora, sob o céu aberto: acontece dentro, no segredo da alma, quando o fiel se aproxima do altar e recebe o Senhor na Comunhão. Há um instante em que a fé deixa de ser apenas contemplação de longe e torna-se hospedagem: Cristo entra, habita, e a vida inteira é visitada.

É precisamente aí que nasce uma pergunta simples e exigente: o que acontece depois? Depois do “Amém”, depois do retorno ao banco, depois do gesto que parece concluir, mas que na verdade inaugura. Muitos — mesmo católicos praticantes — vivem esse momento como passagem rápida: a Missa continua, a rotina chama, o pensamento se espalha. Mas se é verdade que recebemos o próprio Cristo, então não existe “depois” indiferente. Há um tempo de permanência que não é acessório, mas essencial: a ação de graças pós-Comunhão, esse recolhimento humilde em que a alma reconhece a Presença e aprende a corresponder ao dom.

A tradição espiritual da Igreja nunca tratou esse tempo como detalhe devocional. Ao contrário: viu nele uma espécie de santuário interior, onde o Senhor, ainda presente, imprime seus traços no coração que O acolhe. É uma hora discreta, mas cheia; uma hora sem espetáculo, mas cheia de verdade. E, para entrar nessa verdade, poucas palavras são tão seguras quanto a antiga oração Anima Christi. Ela não é apenas bela: é uma escola. Suas invocações traçam um caminho completo — da santificação à salvação, da purificação ao consolo na Paixão, do refúgio nas chagas à perseverança no combate, da esperança da boa morte ao louvor com os santos. Como se, após a Comunhão, a própria Igreja nos colocasse nos lábios um roteiro para permanecer com Jesus do modo certo: com fé, reverência, amor e desejo de conversão.

É sob essa luz que este texto se desenvolve. Não para oferecer técnica, mas para conduzir a alma a um centro. Pois a ação de graças, quando vivida como morada, não é apenas um “momento bonito”: é o lugar onde a Eucaristia começa a tornar-se vida. E o primeiro passo desse caminho é tão simples quanto profundo: “Alma de Cristo, santificai-me.”
Sacerdote distribui a Sagrada Comunhão em catedral gótica, fiéis ajoelhados em adoração, luz dos vitrais e incenso criam atmosfera sagrada e reverente.

2. ANIMA CHRISTI: O CAMINHO DA AÇÃO DE GRAÇAS

1) “Alma de Cristo, santificai-me” — a Comunhão como princípio de transformação

A ação de graças começa antes de qualquer palavra: começa quando a alma se dá conta de que não está sozinha. Depois da Comunhão, não carregamos uma lembrança piedosa nem um símbolo consolador; carregamos uma Presença. Por isso a primeira invocação da Anima Christi toca o centro do mistério com uma simplicidade desarmante: “Alma de Cristo, santificai-me.” Ela nos faz lembrar que o Verbo eterno assumiu uma humanidade verdadeira e inteira — e que essa humanidade, unida inseparavelmente à sua divindade, é instrumento vivo da nossa santificação. Não é uma ideia que nos visita; é Cristo, com tudo o que Ele é, que vem habitar em nós.

Santificar, aqui, não significa apenas “melhorar”, nem muito menos adquirir uma aparência religiosa. Santificar é ser separado para Deus, reordenado para Deus, curado para Deus. É a graça entrando nos lugares onde normalmente nós mesmos tentamos “dar conta”: nas intenções confusas, nos pensamentos repetitivos, nos afetos desgovernados, nas feridas antigas que deformam o modo de amar. A ação de graças é o instante em que o coração, sem teatralidade, pode dizer: “Senhor, eu me entrego ao Vosso trabalho em mim.” E isso não se reduz a um momento agradável; é um acontecimento real, silencioso, por vezes discreto, no qual Deus vai gravando, como um selo, a forma de Cristo na nossa alma.

Por isso a Igreja sempre tratou o pós-Comunhão como tempo precioso: é o tempo da morada. Há um modo de permanecer que não é inércia; é fé. Permanecer é reconhecer que, se Cristo está em mim, tudo pode ser tocado por Ele — minhas palavras, meus impulsos, meu modo de olhar, minhas escolhas escondidas. O recolhimento, então, não é “fazer silêncio porque é bonito”; é fazer silêncio porque Ele está aqui. E diante d’Ele as palavras se purificam: tornam-se menos explicação e mais entrega; menos barulho e mais consentimento.

A santificação que pedimos à “Alma de Cristo” também nos protege de um erro comum: pensar a vida espiritual como puro esforço moral. O esforço existe, mas ele vem depois, como resposta. Primeiro vem o dom, depois vem a correspondência. A ação de graças é justamente o lugar onde essa ordem se reestabelece: não começo por mim, começo por Cristo; não começo por planos, começo pela Presença; não começo por ansiedade, começo por adoração interior. E quando o coração se ajoelha por dentro, ainda que por poucos minutos, a alma aprende que a santidade não é um ideal distante, mas um caminho de configuração: pouco a pouco, Cristo se torna mais “meu centro”, e eu me torno mais “d’Ele”.

Assim, a primeira invocação da Anima Christi não é uma frase bonita para repetir; é uma porta para viver a Eucaristia como realidade transformadora. A ação de graças, então, deixa de ser um apêndice da Missa e se torna o início daquilo que a Comunhão quer produzir: um homem novo, uma mulher nova, com o coração mais simples, mais dócil, mais unido ao Senhor. E quando a alma começa por aí, ela é levada naturalmente ao próximo passo da oração: reconhecer que essa santificação tem um preço e uma fonte — o Corpo e o Sangue entregues.

2) “Corpo de Cristo, salvai-me / Sangue de Cristo, inebriai-me” — o dom total e a alegria sóbria

A Anima Christi passa do íntimo para o concreto: “Corpo de Cristo, salvai-me.” Não há cristianismo sem esta materialidade santa. Deus nos salva não apenas ensinando, mas entregando-Se; não apenas iluminando a mente, mas oferecendo um Corpo na cruz. Na ação de graças pós-Comunhão, essa verdade deixa de ser noção e se torna encontro: o mesmo Cristo que se deu por nós está agora em nós. O fiel não contempla um acontecimento distante; contempla a proximidade do Redentor. E isso muda a forma de olhar a própria vida: se fui salvo por um amor tão real, não posso viver como se tudo fosse trivial.

Dizer “salvai-me” é reconhecer duas coisas ao mesmo tempo: a grandeza do dom e a fragilidade do recipiente. A Eucaristia não é apenas conforto; é resgate. Ela nos lembra que há um drama verdadeiro em nossa história — o pecado, a ruptura, a necessidade de misericórdia — e que a salvação não é autoafirmação, mas graça recebida. A ação de graças, então, assume um tom de humildade: “Senhor, Vós me salvais não porque eu sou forte, mas porque Vós sois fiel.” E essa humildade não diminui; ela liberta. Quem se sabe salvo aprende a parar de negociar com o pecado e a desejar, com mais sinceridade, a vida nova.

Logo a oração aprofunda: “Sangue de Cristo, inebriai-me.” A palavra surpreende, porque a embriaguez, na experiência comum, costuma significar perda de controle. Aqui, porém, trata-se do contrário: é ser tomado por uma plenitude que ordena. É a “embriaguez” do amor santo — não a excitação de um instante, mas a inundação da caridade que dilata o coração e lhe devolve um gosto novo pelas coisas de Deus. Ser “inebriado” pelo Sangue de Cristo é ser cheio de vida pascal: uma alegria sóbria, que não precisa de barulho; uma paz que não depende de facilidades; uma força que nasce da Cruz e, por isso, não se quebra com as contrariedades.

Na ação de graças, esse pedido ganha densidade: não se trata de buscar sensações, mas de pedir transformação dos afetos. O Sangue do Senhor, recebido como bebida verdadeira, ensina a alma a desejar de outro modo: a desejar pureza com esperança, a desejar caridade com perseverança, a desejar humildade sem desânimo. E quando essa plenitude começa a operar, mesmo discretamente, ela prepara o passo seguinte da oração: a alma, tocada pelo dom, percebe o quanto precisa ser lavada, e volta-se para a fonte que brota do lado aberto do Crucificado — a água que purifica.

3) “Água do lado de Cristo, lavai-me” — do Coração aberto nascem vida e pureza

A oração avança e, como quem se aproxima de uma fonte, chega ao lugar onde o amor se deixa ver em sinais: “Água do lado de Cristo, lavai-me.” Aqui o coração do fiel é conduzido ao Calvário, ao instante em que o lado do Crucificado é aberto e dele jorram sangue e água. Não é um detalhe devocional; é uma revelação. A Igreja sempre contemplou nesse jorro o anúncio silencioso dos sacramentos, como se o Senhor dissesse com o próprio corpo: “Eis de onde nasce a vida nova; eis de onde brota a purificação.” O Cristo que recebemos na Eucaristia não é apenas Aquele que perdoa; é Aquele que refaz, que lava, que recria.

Na ação de graças pós-Comunhão, este verso ganha uma delicadeza particular. A alma está diante de Cristo por dentro; e, justamente por isso, as impurezas aparecem com mais clareza — não para acusar, mas para curar. Há manchas que não são escandalosas aos olhos do mundo, mas pesam no olhar de Deus: pequenas duplicidades, vaidades discretas, durezas guardadas, negligências repetidas, uma rotina espiritual sem amor. A água do lado de Cristo não é um símbolo para embelezar a oração; é uma súplica para que a graça desça até esses cantos escondidos e os lave com uma pureza que não humilha, mas restaura.

Este pedido também revela uma harmonia profunda entre a Eucaristia e a Penitência. Quem comunga com fé percebe, no silêncio, que o Senhor o quer inteiro; e, ao mesmo tempo, percebe o quanto ainda não está inteiro. A ação de graças, quando vivida com sinceridade, não deixa a alma acomodar-se: ela desperta a contrição serena, aquela dor que não desespera, porque nasce diante da misericórdia. A água que lava não é a água do orgulho moral, como se o fiel pudesse purificar-se sozinho; é a água que procede do Cristo ferido por amor. Por isso, mesmo quando não há culpa grave, há sempre espaço para purificação: mais humildade, mais verdade, mais docilidade, mais caridade.

E há ainda um sentido mais profundo: essa água não lava apenas “coisas”; ela lava o próprio modo de existir. Lava a imaginação, para que não seja cativeiro. Lava a memória, para que não seja prisão. Lava o coração, para que não seja pedra. Quando a alma repete “lavai-me”, ela pede que o Senhor faça nela o que fez com tantos no Evangelho: tocar o impuro sem contaminar-se, e devolver ao impuro a alegria de ser limpo. Assim, a ação de graças se torna lugar de renascimento contínuo: Cristo em nós, lavando-nos para que possamos amá-Lo com mais inteireza. E então, inevitavelmente, a oração nos conduz ao que torna essa fonte possível: a Paixão do Senhor, de onde brota toda purificação.

4) “Paixão de Cristo, confortai-me / Dentro de vossas chagas, escondei-me” — a ação de graças como refúgio no Mistério Pascal

Quando a Anima Christi chega à Paixão, ela não muda apenas de tema; muda de profundidade. “Paixão de Cristo, confortai-me.” Aqui o coração é levado a entender que o amor que recebemos na Comunhão tem a forma da Cruz. E, por isso mesmo, o consolo que pedimos não é um consolo superficial, como quem deseja esquecer a dor; é um consolo forte, como quem deseja atravessá-la com sentido. A ação de graças pós-Comunhão se torna então uma escola de fortaleza: não a fortaleza que endurece, mas a que sustenta; não a que nega lágrimas, mas a que impede o desespero.

É nesse ponto que muitos descobrem algo decisivo: a Eucaristia não é apenas alimento para “momentos bons”; ela é alimento para a hora em que a vida pesa. A Paixão de Cristo, contemplada enquanto Ele ainda habita em nós, dá outra forma às provações. Diante do Crucificado presente, a alma pode oferecer suas cruzes sem teatro e sem revolta: a doença, a solidão, o cansaço, as contradições, as tentações persistentes, as feridas que não cicatrizaram como gostaríamos. Não porque tudo se torne fácil, mas porque tudo encontra um lugar. O sofrimento, unido a Cristo, deixa de ser absurdo: torna-se participação; torna-se intercessão; torna-se caminho de purificação e de amor.

A segunda invocação aprofunda ainda mais este movimento: “Dentro de vossas chagas, escondei-me.” O fiel pede refúgio. Não é uma fuga covarde; é a escolha do abrigo verdadeiro. As chagas do Senhor são o lugar onde o pecado foi vencido e onde a misericórdia se tornou visível. Esconder-se nelas é confessar que a alma não se sustenta por si, que o coração precisa de proteção, que o amor próprio é frágil, que a tentação sabe encontrar frestas. É dizer: “Senhor, guardai-me no lugar em que Vós me amastes até o fim.” E há algo de profundamente terapêutico nisso: quando a consciência acusa, quando a lembrança fere, quando o inimigo insinua desespero, as chagas lembram que a última palavra não é a acusação, mas o amor.

Na ação de graças, este refúgio não é imaginação; é realidade espiritual. Cristo está em nós, e nós somos convidados a entrar n’Ele. A interioridade cristã não é um labirinto psicológico; é uma morada em Cristo. E essa morada tem um centro: o Coração trespassado. Ali a alma aprende a descansar sem se justificar, a arrepender-se sem se destruir, a recomeçar sem cinismo. É um esconderijo luminoso, onde a verdade e a ternura se encontram: verdade, porque o pecado é levado a sério; ternura, porque o pecador é amado com seriedade ainda maior.

Reparação e desagravo — amar “em resposta” no coração de Corpus Christi

Há, porém, um movimento que brota espontaneamente quando a alma permanece com Jesus depois da Comunhão: a reparação. Não como culpa estéril, mas como delicadeza do amor. Quem adora o Senhor presente começa a perceber, com dor serena, quantas vezes esse Amor é ignorado, profanado, tratado com indiferença — no mundo e também no interior dos próprios fiéis, quando a rotina engole a reverência e quando o coração se dispersa sem combate. Em Corpus Christi, esta percepção ganha um tom próprio: a Igreja leva o Santíssimo pelas ruas como quem proclama publicamente a fé e, ao mesmo tempo, como quem pede perdão pelas ingratidões da humanidade.

Reparar é amar em resposta. É querer consolar o Coração de Cristo não por imaginar um Deus frágil, mas por reconhecer que o amor verdadeiro sofre com a recusa do amado. O desagravo eucarístico nasce quando a alma entende que a Eucaristia é a permanência do dom da Cruz: Cristo continua oferecendo-se, e muitos continuam passando sem olhar. A ação de graças, então, torna-se também um ato de fidelidade: permanecer um pouco mais, adorar com mais verdade, receber com mais pureza, para que, ao menos naquele coração, o Senhor encontre acolhida. E é desse segredo interior que nasce a procissão exterior: quem aprendeu a adorar “dentro” pode adorar “fora” sem exibicionismo, apenas como testemunho do amor que encontrou morada.

Ao terminar este trecho da oração, a alma já não está apenas comovida; está mais lúcida. Ela compreende que permanecer nas chagas é pedir proteção e perseverança. Por isso, a Anima Christi conduz naturalmente ao pedido seguinte: que não nos separemos d’Ele, e que sejamos defendidos do inimigo — porque quem foi acolhido por Cristo deseja, acima de tudo, não perdê-Lo.

5) “Não permitais que eu me separe de vós / Do inimigo maligno, defendei-me” — perseverança, combate e sobriedade

Depois de pedir refúgio nas chagas, a Anima Christi faz a súplica que revela o coração de todo verdadeiro discípulo: “Não permitais que eu me separe de vós.” É uma frase curta, mas carregada de realismo espiritual. Ela não presume de si, não confia no próprio temperamento, não se apoia em entusiasmos passageiros. Quem acabou de comungar sabe, com uma clareza quase dolorosa, que estar perto de Jesus é o bem maior — e que nada é mais trágico do que afastar-se d’Ele. A ação de graças, então, torna-se uma oração de permanência: não apenas “falar com Deus”, mas pedir o dom de permanecer em Deus.

Separar-se de Cristo nem sempre começa com grandes rupturas; muitas vezes começa com pequenas distrações consentidas, com um coração que vai se deixando ocupar por outras coisas até que o Senhor, ainda presente, seja tratado como detalhe. Por isso esta súplica é tão adequada ao pós-Comunhão: ela combate a rotina. Quando a alma está cheia de Cristo, percebe quão facilmente pode voltar a um modo de viver “sem centro”. E, em vez de confiar na própria disciplina como garantia, ela pede uma graça: a graça de fidelidade, de vigilância, de amor que não esfria. A perseverança, no cristianismo, não é obstinação humana; é dom acolhido e guardado.

Em seguida, a oração nomeia o contexto dessa luta: “Do inimigo maligno, defendei-me.” A vida espiritual não é um passeio; é um combate. Há tentações que se repetem, enganos que seduzem, acusações que pesam, desânimos que querem apagar a esperança. E o inimigo trabalha sobretudo com a dispersão: se não consegue derrubar por choque, tenta enfraquecer por cansaço, por negligência, por familiaridade com o pecado. A ação de graças é, por isso, uma fortaleza interior: permanecer com Jesus depois da Comunhão é declarar, sem palavras, que não queremos negociar com aquilo que nos separa d’Ele. É escolher a sobriedade do coração, que prefere a presença de Cristo a qualquer brilho passageiro.

Defender-nos, porém, não significa eliminar toda luta; significa sustentar-nos dentro da luta, para que não sejamos arrancados da amizade do Senhor. E aqui está um segredo do pós-Comunhão: esse tempo não é apenas consolação, é formação. A alma aprende a resistir não por violência interior, mas por adesão: colada a Cristo, ela se torna menos disponível às seduções e menos vulnerável às acusações. Quem permanece adora; e quem adora, sem perceber, vai sendo guardado. E assim a oração, depois de pedir refúgio e defesa, abre naturalmente o horizonte final: permanecer até o último instante — até a hora da morte.

6) “Na hora da minha morte, chamai-me… Para que com os vossos santos vos louve” — a ação de graças como ensaio do Céu

A Anima Christi termina com uma serenidade que só a fé pode dar: “Na hora da minha morte, chamai-me.” Não é morbidez; é lucidez. A ação de graças pós-Comunhão, quando é verdadeira, alarga o coração para além do momento presente e o coloca diante do fim para o qual fomos criados. Se acabamos de receber o Senhor, então a vida inteira encontra seu eixo: não vivemos para acumular experiências, nem para defender uma imagem, nem para prolongar indefinidamente o provisório. Vivemos para responder a um chamado — e o último chamado será o mais definitivo. Por isso a alma pede, com humildade: “Senhor, quando tudo se apagar, não me deixeis sozinho. Chamai-me.”

A oração continua: “E mandai-me ir para vós.” É um abandono que corrige tanto o medo quanto a presunção. Não é o medo de quem imagina Deus como inimigo; é o temor filial de quem sabe que a vida tem peso e que o coração precisa ser conduzido. E não é a presunção de quem se julga garantido; é a confiança de quem se apoia na misericórdia de Cristo. Na ação de graças, essa confiança ganha calor: o mesmo Jesus que veio a nós no sacramento é o Jesus que, um dia, nos levará a Ele. A Comunhão, então, aparece como penhor: sinal de que o Céu já começou a tocar a terra, e de que nossa peregrinação tem destino.

Por fim, o horizonte se abre para a comunhão eterna: “Para que com os vossos santos vos louve por todos os séculos dos séculos. Amém.” A ação de graças pós-Comunhão se torna um ensaio do Céu, porque o Céu é isso: Deus possuído e louvado, em comunhão com todos os que O amaram. Quem permanece com Jesus aprende a desejar essa liturgia sem fim. E esse desejo não aliena; purifica. Ele devolve proporção às dores, desinfla vaidades, fortalece escolhas pequenas e fiéis. Ao terminar com o Amém, a alma não encerra um rito; sela uma pertença. E, selando essa pertença, começa a compreender algo decisivo: quando a ação de graças é morada, a Eucaristia não fica presa ao templo — ela começa a frutificar na vida.

7) Frutos eucarísticos: quando a ação de graças vira vida

Quando a ação de graças se torna morada, a Eucaristia deixa de ser um instante isolado e começa a imprimir uma forma no cotidiano. Não é um efeito mágico, nem um prêmio por sensibilidade; é o fruto silencioso de uma presença acolhida. A alma que permanece com Jesus depois da Comunhão vai sendo dilatada por dentro: o coração se alarga, e a caridade deixa de ser apenas dever para tornar-se inclinação. Aos poucos, o olhar se torna menos áspero, a palavra mais contida, a pressa menos tirânica. Não porque a vida fique mais leve, mas porque o centro se desloca: já não é o “eu” que exige, é Cristo que habita e ordena.

Dessa permanência nasce também uma unidade interior rara. A dispersão — esse ruído que fragmenta a alma — começa a perder força, e o homem passa a querer uma coisa só. As escolhas ganham eixo, e muitas inquietações se revelam como excesso de controle, não como zelo verdadeiro. Então aparece uma paz firme: não a paz de quem foge do real, mas a paz de quem, mesmo carregando cruzes, encontra sentido no Crucificado presente. E, com essa paz, vem uma sobriedade alegre. O “inebriamento” pedido à Anima Christi mostra seu significado: não excitação, mas plenitude; não fuga, mas liberdade. Certos desejos desordenados se enfraquecem porque o coração encontra um sabor mais alto.

Há ainda um fruto delicado, especialmente próprio de Corpus Christi: o espírito de reparação. Quem ficou com o Senhor aprende a sofrer pelo amor recusado, e essa dor não pesa como culpa; ela arde como fidelidade. A adoração se torna mais pura, o respeito mais vivo, a fé mais simples. E, sem perceber, a alma se torna mais eclesial: sente-se corpo, pertence, intercede, carrega outros no coração. Assim, os frutos não aparecem como troféus, mas como sinais de que a Comunhão encontrou casa — e de que o “Amém” continua.

 

CONCLUSÃO

No fim da Anima Christi, tudo converge para uma palavra pequena e decisiva: Amém. Não é apenas o fecho de uma oração; é o consentimento de uma vida. É como se a alma dissesse: “Sim, Senhor, eu aceito o Vosso dom; sim, eu quero permanecer; sim, eu quero ser de Vós.” E é esse “Amém” que revela o sentido mais íntimo da ação de graças pós-Comunhão: ela não é o epílogo de um rito, mas a continuidade do encontro. O Senhor entrou; a alma responde. O Doador Se entregou; o coração faz morada.

Ao longo do caminho, a oração ensinou o essencial: a Comunhão é santificação e salvação, água que lava e sangue que enche, Paixão que conforta e chagas que abrigam, perseverança pedida com humildade, combate enfrentado com sobriedade, esperança lançada para a glória, louvor desejado em comunhão com os santos. E, quando essas realidades são acolhidas no silêncio adorante do pós-Comunhão, os frutos aparecem sem ruído: a caridade amadurece, a alma se unifica, a paz se torna firme, os desejos se purificam, a reparação se torna delicadeza, e a fé adquire um rosto mais eclesial.

Por isso Corpus Christi não é apenas a solenidade do Santíssimo “fora”: é a confirmação do Santíssimo “dentro”. A procissão proclama publicamente aquilo que a ação de graças guarda em segredo: Cristo quis permanecer, e deseja permanecer também em nós. Se aprendemos a ficar com Ele depois da Comunhão, toda a vida começa a tornar-se resposta — e o mundo, pouco a pouco, percebe que houve uma Presença que não passou. Ela ficou. E quem verdadeiramente agradece, aprende, enfim, a viver eucaristicamente.

 

ORAÇÃO DE ENCERRAMENTO

Senhor Jesus, que viestes a mim no Santíssimo Sacramento, eu Vos adoro e Vos agradeço. Ficai comigo neste silêncio, purificai meu coração e santificai meus pensamentos. Que a Vossa presença seja luz em minhas trevas e descanso em minhas fadigas. Não permitais que eu me afaste de Vós hoje sempre.

Escondei-me em Vossas chagas, defendei-me do inimigo e guardai-me na graça. Recebei, por reparação, meu amor pobre e minha fidelidade. Dai-me um coração eucarístico, paciente e misericordioso, para servir aos irmãos sem vaidade, suportar a cruz sem murmurar e buscar a pureza com alegria fazei de mim louvor para sempre.

E quando chegar a hora da minha morte, chamai-me e conduzi-me para junto de Vós. Que eu viva cada dia como ação de graças, unido à Igreja e aos santos. Maria, Mãe da Eucaristia, ajudai-me a perseverar. Jesus, eu confio em Vós, agora e para sempre, pelos séculos eternos. Amém.

Texto da oração – Anima Christi


Texto em Latim (forma clássica)

Anima Christi, sanctifica me.

Corpus Christi, salva me.

Sanguis Christi, inebria me.

Aqua lateris Christi, lava me.

Passio Christi, conforta me.

O bone Iesu, exaudi me.

Intra tua vulnera absconde me.

Ne permittas me separari a te.

Ab hoste maligno defende me.

In hora mortis meae voca me.

Et iube me venire ad te,

Ut cum Sanctis tuis laudem te

In saecula saeculorum. Amen.


Tradução ao português (fiel ao latim)

Alma de Cristo, santificai-me.

Corpo de Cristo, salvai-me.

Sangue de Cristo, inebriai-me.

Água do lado de Cristo, lavai-me.

Paixão de Cristo, confortai-me.

Ó bom Jesus, ouvi-me.

Dentro de vossas chagas, escondei-me.

Não permitais que eu me separe de vós.

Do inimigo maligno, defendei-me.

Na hora da minha morte, chamai-me.

E mandai-me ir para vós,

Para que com os vossos Santos vos louve

Por todos os séculos dos séculos. Amém.

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