Perdoar como Fomos Perdoados
- escritorhoa
- há 16 horas
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Liturgia Diária:
Dia 10/03/2026 - Terça-feira
Evangelho: Mateus 18,21-35
Naquele tempo, Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou: “Senhor, quantas vezes devo perdoar meu irmão, se ele pecar contra mim? Até sete vezes?” Jesus respondeu: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete.” E contou-lhes esta parábola: “O Reino dos Céus é como um rei que quis ajustar contas com seus servos. Trouxeram-lhe um que lhe devia uma enorme quantia. Como não tinha com que pagar, o senhor ordenou que fosse vendido, com sua mulher e filhos, para pagar a dívida. O servo prostrou-se e suplicou: ‘Tem paciência comigo, e eu te pagarei tudo.’ Movido de compaixão, o senhor perdoou-lhe a dívida. Ao sair, esse servo encontrou um companheiro que lhe devia pequena quantia; agarrou-o e sufocava-o, dizendo: ‘Paga o que me deves.’ O companheiro suplicou: ‘Tem paciência comigo.’ Mas ele não quis e mandou-o prender até que pagasse. Ao saber disso, o senhor chamou o servo e disse: ‘Servo mau! Eu te perdoei toda a dívida porque me suplicaste. Não devias tu também ter compaixão do teu companheiro?’ E, indignado, entregou-o aos torturadores até que pagasse tudo. Assim também meu Pai celeste fará convosco, se cada um não perdoar de coração ao seu irmão.”

Reflexão:
Pedro pensa generosamente ao propor perdoar até sete vezes, número simbólico de plenitude. Contudo, Jesus amplia a medida: “setenta vezes sete”, indicando um perdão sem limites. No sentido literal, a parábola mostra o contraste entre a imensa dívida perdoada e a pequena dívida recusada. A desproporção revela a incoerência do servo.
No sentido alegórico, o rei representa Deus, e a grande dívida simboliza o pecado humano. O Catecismo ensina que não há falta que a misericórdia divina não possa perdoar, se houver arrependimento sincero (CIC, 982). A compaixão do rei manifesta a infinita bondade do Pai. O homem, porém, chamado a imitar essa misericórdia, pode endurecer o coração.
No sentido moral, o Evangelho exige o perdão “de coração”. Santo Agostinho afirma: “Perdoa para que sejas perdoado” (Sermão 83). Não basta uma palavra externa; é necessária a transformação interior. Guardar ressentimento contradiz a graça recebida. O servo mau esquece rapidamente o dom que lhe foi concedido. Assim também podemos esquecer o quanto fomos perdoados por Deus.
No sentido anagógico, o juízo final aparece na entrega aos torturadores. A salvação não é automática; supõe correspondência à graça. São Tomás de Aquino ensina que a caridade é condição para permanecer na amizade divina (Suma Teológica II-II, q.23, a.1). Quem recusa perdoar fecha-se à comunhão com Deus.
A oração do Pai-Nosso confirma esta verdade: “Perdoai-nos, assim como nós perdoamos.” A medida que usamos com os outros será usada conosco. São João Crisóstomo comenta: “Nada nos torna tão semelhantes a Deus quanto perdoar as ofensas” (Homilia sobre Mateus 61).
O perdão cristão não ignora a justiça, mas supera-a pela caridade. Não significa esquecer o mal, mas libertar-se do ódio. É participação na cruz de Cristo, que rezou: “Pai, perdoa-lhes.”
Este Evangelho convida-nos a recordar a grande dívida cancelada por Deus. Se recebemos misericórdia infinita, não podemos negar misericórdia limitada.
Pensamentos para Reflexão Pessoal:
1. Tenho guardado ressentimentos em meu coração?
2. Reconheço a grande dívida que Deus me perdoou?
3. Estou disposto a perdoar “de coração”, como Cristo ensina?
Mensagem Final:
Fomos perdoados por uma dívida imensa. Não neguemos perdão aos irmãos. A misericórdia recebida deve tornar-se misericórdia oferecida. Perdoar é libertar-se e permanecer na amizade de Deus. Peçamos a graça de um coração reconciliado, capaz de amar como Cristo amou. Assim viveremos na paz e caminharemos para a vida eterna.
Leitura Complementar
Para um aprofundamento sobre a "Oração do Pai nosso", leia nosso artigo: O Coração da Oração Cristã: Um Estudo do "Pai Nosso" segundo Santo Tomás de Aquino




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