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“Recebei o Espírito Santo”: o dom pascal do Ressuscitado (Jo 20,19-23; At 2,1-13)


ARTIGO - RECEBEI O ESPÍRITO SANTOCaminho de Fé

INTRODUÇÃO

Ao cair da tarde do primeiro dia da semana, os discípulos permaneciam reunidos no Cenáculo com as portas fechadas. O medo, a insegurança e a tristeza dominavam seus corações após os acontecimentos da Paixão. Embora já tivessem ouvido o anúncio da Ressurreição, ainda não compreendiam plenamente a vitória de Cristo nem a profundidade das promessas que lhes haviam sido feitas. É nesse cenário de fragilidade humana que o Senhor Ressuscitado se manifesta no meio deles e pronuncia palavras que atravessariam os séculos: “A paz esteja convosco” (Jo 20,19).

O Evangelho de São João apresenta esse encontro como um momento decisivo da história da salvação. Cristo não apenas consola Seus discípulos abatidos, mas comunica-lhes o grande dom conquistado por Sua Paixão, Morte e Ressurreição: o Espírito Santo. Ao soprar sobre eles e dizer “Recebei o Espírito Santo” (Jo 20,22), o Senhor inaugura a nova criação e estabelece os fundamentos espirituais da Igreja.

Algumas semanas depois, aquilo que fora comunicado no silêncio do Cenáculo manifesta-se publicamente no dia de Pentecostes. O Espírito Santo desce sobre os Apóstolos sob os sinais do vento impetuoso e das línguas de fogo, transformando homens tímidos em testemunhas ardorosas do Evangelho. O medo dá lugar à coragem; o fechamento torna-se missão; o Cenáculo transforma-se no berço da Igreja missionária.

Existe, portanto, uma profunda unidade entre a Páscoa e Pentecostes. O Cristo Ressuscitado derrama Seu Espírito para comunicar aos homens Sua própria vida divina. Assim como Deus insuflou o sopro da vida em Adão no princípio da criação, agora o novo Adão, vencedor da morte, comunica à humanidade a vida sobrenatural da graça.

Também hoje muitos vivem como os discípulos antes de Pentecostes: fechados interiormente, dominados pelo medo, pela tibieza espiritual e pela falta de esperança. Contudo, o Ressuscitado continua entrando nos cenáculos da alma humana para repetir Suas palavras de vida: “Recebei o Espírito Santo”. Preparar-se para Pentecostes significa abrir novamente o coração à ação transformadora de Deus e permitir que o fogo do Espírito renove profundamente toda a vida cristã.

Jesus Ressuscitado sopra o Espírito Santo sobre os Apóstolos no Cenáculo, arte sacra renascentista hiper-realista inspirada em Jo 20,19-23.

2. O ESPÍRITO SANTO E A NOVA CRIAÇÃO EM CRISTO

2.1 O Cenáculo fechado e a humanidade ferida

Ao cair da tarde daquele primeiro dia da semana, os discípulos permaneciam reunidos no Cenáculo com as portas fechadas. O Evangelho afirma claramente o motivo: “por medo dos judeus” (Jo 20,19). Aquele ambiente marcado pelo silêncio, pela insegurança e pela tristeza torna-se uma imagem profunda da condição espiritual da humanidade ferida pelo pecado. Os discípulos haviam caminhado com Cristo, testemunhado Seus milagres e ouvido Suas promessas, mas ainda estavam aprisionados pelo medo. A Cruz abalara suas esperanças humanas, e a ausência da plenitude do Espírito Santo ainda os mantinha espiritualmente enfraquecidos.

Desde o pecado original, o homem experimenta essa mesma realidade interior. Após desobedecer a Deus, Adão escondeu-se entre as árvores do jardim, tomado pelo temor (Gn 3,8-10). O pecado gera fechamento, ruptura e fuga da presença divina. O coração humano torna-se um “cenáculo fechado”, incapaz de encontrar sozinho a verdadeira paz. Mesmo cercado de progresso material, o homem continua carregando angústias profundas: medo da morte, vazio espiritual, ansiedade diante do futuro e incapacidade de amar plenamente.

É precisamente nesse cenário que Cristo Ressuscitado manifesta Sua vitória. O Evangelho diz que Jesus veio e colocou-Se no meio deles. As portas fechadas não impediram Sua presença gloriosa. O Ressuscitado não está submetido às limitações da condição terrena. Seu corpo glorificado conserva as marcas da Paixão, mas já participa da glória divina. Nele, a morte foi vencida definitivamente.

A primeira palavra de Cristo aos discípulos não é uma repreensão, mas um dom: “A paz esteja convosco”. Não se trata de uma paz meramente emocional ou psicológica, mas da reconciliação entre Deus e os homens realizada pela Cruz. O profeta Isaías já anunciara o Messias como o “Príncipe da Paz” (Is 9,5), e agora essa promessa alcança sua plenitude no Ressuscitado. A paz de Cristo nasce do sacrifício redentor e da vitória sobre o pecado.

Em seguida, Jesus mostra-lhes as mãos e o lado. As chagas gloriosas revelam que a Ressurreição não elimina a Cruz, mas a transforma em sinal eterno de amor. O mesmo Senhor que foi crucificado está agora vivo no meio deles. As feridas que antes escandalizavam tornam-se fonte de fé e esperança.

Também hoje Cristo entra nos cenáculos fechados da alma humana. Ele atravessa as barreiras do medo, da culpa, da tibieza e do desespero. Muitas vezes, o homem contemporâneo vive aprisionado em um cristianismo superficial, sem verdadeira confiança na ação de Deus. Contudo, o Ressuscitado continua aproximando-Se de cada coração para oferecer a paz que o mundo não pode dar. Onde o pecado produziu fechamento, Cristo inaugura novamente a comunhão, a esperança e a vida.

2.2 “SOPROU SOBRE ELES”: A nova criação em Cristo

Após conceder Sua paz aos discípulos, Jesus realiza um gesto profundamente solene e carregado de significado espiritual. O Evangelho afirma: “Tendo dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: ‘Recebei o Espírito Santo’” (Jo 20,22). Esse gesto não é apenas simbólico. São João utiliza deliberadamente uma linguagem que remete ao início da criação, quando Deus formou o homem do pó da terra e “insuflou em suas narinas um sopro de vida” (Gn 2,7). Agora, porém, não se trata da criação natural, mas da nova criação realizada em Cristo Ressuscitado.

O primeiro Adão recebeu a vida terrena; o novo Adão comunica a vida sobrenatural. Cristo, vencedor da morte, sopra sobre Seus discípulos para transmitir-lhes o Espírito vivificante que restaura interiormente a humanidade decaída. O pecado havia obscurecido no homem a imagem divina, enfraquecendo sua inteligência, sua vontade e sua capacidade de amar a Deus. Por isso, a obra da Redenção não consistia apenas em perdoar exteriormente os pecados, mas em recriar o homem desde o interior, comunicando-lhe novamente a graça santificante.

Esse dom do Espírito Santo é fruto direto da Paixão e da Ressurreição. Durante Sua vida pública, Jesus anunciara que o Espírito seria dado em plenitude após Sua glorificação: “Ainda não tinha sido dado o Espírito, porque Jesus ainda não havia sido glorificado” (Jo 7,39). A Cruz abriu as fontes da graça, e a Ressurreição inaugura a nova humanidade reconciliada com Deus. O sopro do Ressuscitado marca, portanto, o início da vida nova da Igreja.

O gesto de Cristo também possui uma dimensão sacramental profundamente importante. Logo após dizer “Recebei o Espírito Santo”, Jesus acrescenta: “Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos” (Jo 20,23). Aqui encontra-se o fundamento do sacramento da Reconciliação. O Espírito Santo é dado aos Apóstolos para que a obra redentora de Cristo continue atuando na Igreja através do perdão dos pecados.

Essa autoridade não nasce de capacidade humana, mas da ação divina. O sacerdote, no confessionário, não age em nome próprio, mas como instrumento de Cristo. O mesmo Espírito que foi comunicado aos Apóstolos continua sendo derramado sobre a Igreja para restaurar as almas feridas pelo pecado. Cada absolvição sacramental manifesta concretamente a misericórdia do Ressuscitado.

Os Padres da Igreja contemplaram profundamente esse mistério. Santo Agostinho via no lado aberto de Cristo a origem sacramental da Igreja, assim como Eva foi formada do lado de Adão adormecido. São João Crisóstomo admirava a transformação operada pelo Espírito: homens simples e temerosos tornam-se anunciadores corajosos do Evangelho. São Tomás de Aquino ensina que o Espírito Santo é como a alma da Igreja, princípio invisível de sua vida e unidade.

Sem o Espírito Santo, a vida cristã reduz-se facilmente a um conjunto de práticas externas. Pode haver religiosidade, mas sem verdadeira transformação interior. O Espírito, porém, renova o coração, ilumina a inteligência, fortalece a vontade e conduz a alma à comunhão com Deus. É Ele quem faz nascer os santos, sustenta os mártires e inflama os corações de amor divino.

Também hoje Cristo continua soprando Seu Espírito sobre a Igreja. Em cada Batismo, a alma renasce para a vida sobrenatural; na Crisma, recebe fortaleza espiritual; na Eucaristia, é alimentada pela própria vida divina; na Confissão, é restaurada pela misericórdia. A nova criação inaugurada no Cenáculo permanece viva na vida sacramental da Igreja até o fim dos tempos.

2.3 PENTECOSTES: O Espírito Santo e o nascimento missionário da Igreja

Cinquenta dias após a Ressurreição do Senhor, a promessa de Cristo alcança sua manifestação pública e gloriosa. Os discípulos estavam reunidos no mesmo lugar, perseverando em oração com a Virgem Maria, quando “veio do céu um ruído, como de um vento impetuoso, e encheu toda a casa” (At 2,2). O que havia sido comunicado de modo íntimo no Cenáculo, na tarde da Páscoa, agora manifesta-se de maneira visível diante do mundo. Pentecostes não é um acontecimento separado da Ressurreição, mas seu pleno desdobramento. O Cristo glorificado derrama abundantemente o Espírito Santo sobre Sua Igreja nascente.

São Lucas descreve esse momento utilizando sinais profundamente bíblicos. O primeiro deles é o vento impetuoso. Na Sagrada Escritura, o vento frequentemente simboliza a ação invisível e poderosa de Deus. A palavra hebraica ruah significa ao mesmo tempo vento, sopro e espírito. Assim como o Espírito pairava sobre as águas no princípio da criação (Gn 1,2), agora Ele desce para inaugurar a nova criação em Cristo. O Espírito Santo não é uma força impessoal, mas a terceira Pessoa da Santíssima Trindade, que age soberanamente na história da salvação.

O segundo sinal são as línguas como de fogo que pousam sobre cada discípulo. O fogo representa a presença divina que purifica, ilumina e consome. Deus manifestou-Se a Moisés na sarça ardente; conduziu Israel no deserto por uma coluna de fogo; agora, em Pentecostes, o fogo divino repousa sobre os membros da Igreja. O Espírito Santo vem purificar os corações do medo, inflamar as almas de caridade e iluminar as inteligências para a compreensão das verdades divinas.

Logo após a descida do Espírito, os Apóstolos começam a falar em diversas línguas, e homens de muitas nações os compreendem perfeitamente. Esse milagre possui um significado espiritual profundo. Em Babel, o orgulho humano produziu divisão e confusão das línguas (Gn 11,1-9). Em Pentecostes, o Espírito Santo restaura a unidade dos homens sem destruir a diversidade dos povos. A Igreja nasce universal, destinada a anunciar o Evangelho a todas as nações até o fim dos tempos.

A transformação dos Apóstolos torna-se imediatamente visível. Aqueles mesmos homens que antes permaneciam escondidos por medo agora anunciam publicamente Jesus Cristo diante das multidões. Pedro, que negara o Senhor durante a Paixão, ergue a voz com coragem admirável. O Espírito Santo transforma pescadores simples em colunas da Igreja. A força que agora os sustenta não é humana, mas divina.

Pentecostes revela também a natureza missionária da Igreja. Desde o início, a comunidade cristã nasce voltada para a evangelização. O Espírito Santo não é dado para uma experiência religiosa fechada em si mesma, mas para impulsionar os discípulos ao testemunho. Toda a história da Igreja confirma essa verdade: os mártires, missionários, confessores e santos foram homens e mulheres conduzidos pela força do Espírito.

Ainda hoje, a missão evangelizadora depende inteiramente da ação do Espírito Santo. Técnicas humanas podem organizar atividades, mas somente o Espírito converte os corações. Quando a Igreja perde o ardor espiritual, corre o risco de reduzir-se a uma instituição meramente humana. Pentecostes recorda constantemente que a fecundidade da evangelização nasce da união profunda com Deus.

Também o cristão de hoje é chamado a viver seu próprio Pentecostes interior. O mundo necessita de testemunhas inflamadas pela graça, capazes de anunciar Cristo não apenas com palavras, mas com a própria vida. O Espírito Santo continua sendo derramado sobre a Igreja para renovar a face da terra e conduzir os homens à verdade plena do Evangelho.

2.4 O Espírito Santo na vida da Igreja e dos fiéis

O Pentecostes não foi apenas um acontecimento extraordinário do passado. A descida do Espírito Santo permanece viva e operante na Igreja ao longo dos séculos. O mesmo Espírito que encheu o Cenáculo continua sustentando, santificando e conduzindo o Corpo de Cristo até a consumação dos tempos. Sem o Espírito Santo, a Igreja seria apenas uma organização humana; com Ele, torna-se sacramento universal de salvação.

Os santos Padres frequentemente chamavam o Espírito Santo de “alma da Igreja”. Assim como a alma dá vida ao corpo, o Espírito vivifica toda a realidade eclesial. É Ele quem preserva a integridade da fé, conduz o Magistério na verdade, inspira a santidade e torna fecunda a missão evangelizadora. Em meio às crises da história, perseguições e fraquezas humanas, a Igreja permanece sustentada pela presença invisível, mas real, do Espírito prometido por Cristo.

A ação do Espírito manifesta-se de modo especial nos sacramentos. No Batismo, Ele realiza o novo nascimento espiritual, libertando a alma do pecado original e tornando-a filha de Deus. Na Crisma, fortalece o cristão para o combate espiritual e para o testemunho da fé. Na Eucaristia, pela ação do Espírito invocado na epiclese, o pão e o vinho tornam-se verdadeiramente o Corpo e o Sangue de Cristo. Na Confissão, o Espírito restaura a graça perdida pelo pecado e reconcilia o pecador com Deus.

Toda a vida sobrenatural depende dessa ação contínua do Espírito Santo. É Ele quem ilumina a inteligência para compreender as verdades divinas, fortalece a vontade para praticar o bem e inflama o coração no amor de Deus. Sem Sua graça, o homem permanece incapaz de atingir a plenitude da vida cristã.

A tradição da Igreja ensina ainda os sete dons do Espírito Santo: sabedoria, entendimento, conselho, fortaleza, ciência, piedade e temor de Deus. Esses dons tornam a alma dócil às inspirações divinas e conduzem o cristão à maturidade espiritual. Por meio deles, o Espírito forma pouco a pouco a imagem de Cristo na alma dos fiéis.

Além dos dons, o Espírito produz frutos visíveis na vida daqueles que vivem na graça. São Paulo enumera esses frutos: caridade, alegria, paz, paciência, bondade, fidelidade, mansidão e domínio de si (Gl 5,22-23). Onde o Espírito atua verdadeiramente, nasce uma transformação concreta da vida.

Entretanto, a ação do Espírito Santo pode ser resistida. O pecado habitual, a tibieza espiritual, o apego desordenado ao mundo e a negligência na oração sufocam Sua ação na alma. Muitos cristãos vivem como se o Espírito Santo fosse uma realidade distante, esquecendo-se de que Ele habita no coração dos batizados em estado de graça.

Por isso, Pentecostes deve tornar-se uma realidade cotidiana. O fiel é chamado a cultivar profunda docilidade interior, alimentando-se da oração, da meditação da Palavra de Deus e da vida sacramental. A santidade não é fruto de mero esforço humano, mas obra da graça divina acolhida com humildade e perseverança.

O Espírito Santo continua formando santos em cada geração. Em meio à confusão do mundo moderno, Ele permanece conduzindo as almas à verdade, fortalecendo os fracos e inflamando os corações com o amor de Cristo. Onde o Espírito encontra abertura, nasce uma vida nova, capaz de irradiar a luz do Evangelho no mundo.

2.5 “RECEBEI O ESPÍRITO SANTO”: Pentecostes como chamado à Santidade

As palavras de Cristo no Cenáculo — “Recebei o Espírito Santo” — não pertencem apenas ao passado. Elas ecoam continuamente na vida da Igreja e dirigem-se a cada cristão de todos os tempos. O Espírito Santo não é uma realidade abstrata, uma simples força espiritual ou um símbolo religioso. Ele é a terceira Pessoa da Santíssima Trindade, Senhor que dá a vida, enviado pelo Pai e pelo Filho para santificar as almas e conduzir a Igreja à plenitude da verdade.

Muitas vezes, porém, os cristãos vivem como se Pentecostes nunca tivesse acontecido. Conservam externamente a fé, mas permanecem interiormente frios, desanimados e espiritualmente enfraquecidos. O mundo moderno favorece essa condição ao estimular o ativismo constante, a distração permanente e uma vida voltada apenas para as preocupações materiais. Pouco a pouco, instala-se uma fé superficial, sem verdadeira intimidade com Deus, incapaz de sustentar a alma nas provações e tentações.

Além disso, muitos reduzem a vida cristã a um conjunto de obrigações exteriores ou a uma moral sem fervor interior. Entretanto, o Espírito Santo não foi dado apenas para ornamentar a existência cristã, mas para transformá-la radicalmente. Onde Ele age, nasce um homem novo. O Espírito ilumina a inteligência para amar a verdade, fortalece a vontade para combater o pecado e inflama o coração com a caridade divina.

Por isso, a Igreja continuamente pede uma renovação espiritual dos fiéis. Não se trata de buscar novidades doutrinais ou experiências extraordinárias desligadas da Tradição, mas de reavivar a graça recebida no Batismo e fortalecida na Crisma. Muitos tesouros espirituais permanecem como sementes adormecidas na alma porque falta docilidade à ação do Espírito Santo.

Nesse caminho, a presença de Nossa Senhora possui importância singular. Maria estava no Cenáculo com os Apóstolos quando o Espírito Santo desceu em Pentecostes (At 1,14). Aquela que fora coberta pela sombra do Altíssimo na Encarnação permanece no coração da Igreja nascente como modelo perfeito de abertura à graça divina. Em Maria não houve resistência ao Espírito, mas total abandono à vontade de Deus. Por isso, ela se torna também modelo para todos os cristãos que desejam viver autenticamente a vida espiritual.

Pentecostes recorda à Igreja que a santidade não é privilégio de poucos, mas vocação universal. Cada fiel é chamado a tornar-se templo vivo do Espírito Santo e testemunha do Ressuscitado no mundo. O Senhor continua entrando nos cenáculos fechados da alma humana para conceder Sua paz e comunicar Sua vida divina.

Diante dessa verdade, cada cristão deve perguntar-se sinceramente: as portas do meu coração estão abertas ao Espírito Santo? Há espaço para a oração, para a escuta da Palavra, para a vida sacramental e para a conversão sincera? O Espírito não força a entrada; Ele deseja ser acolhido livremente.

Preparar-se para Pentecostes significa permitir que Deus renove interiormente a alma. Pela oração perseverante, pela Confissão frequente, pela Eucaristia e pela meditação das Escrituras, o coração torna-se novamente inflamado pela presença divina. Então, o cristão deixa de viver uma fé tímida e estéril para tornar-se verdadeira testemunha de Cristo no mundo, conduzido pela força do Espírito Santo.

 

CONCLUSÃO

Ao contemplarmos o sopro do Ressuscitado no Cenáculo e a descida gloriosa do Espírito Santo em Pentecostes, compreendemos que a Páscoa de Cristo não terminou no túmulo vazio. A Ressurreição alcança sua plenitude na comunicação da vida divina à Igreja. O Senhor venceu a morte não apenas para manifestar Seu poder, mas para restaurar o homem interiormente e fazê-lo participar da própria vida de Deus.

O Espírito Santo é o grande dom pascal do Ressuscitado. Sem Ele, os Apóstolos permaneceriam fechados no medo; sem Ele, a Igreja não teria força para evangelizar; sem Ele, os sacramentos seriam sinais vazios e a vida cristã reduzir-se-ia a um esforço puramente humano. É o Espírito quem vivifica a Igreja, sustenta a fé, inflama a caridade e conduz os fiéis à santidade.

Pentecostes, portanto, não pertence apenas ao passado da Igreja. O mesmo Espírito continua sendo derramado sobre os fiéis em cada geração. Cristo permanece no meio do Seu povo, oferecendo Sua paz, perdoando os pecados e enviando discípulos ao mundo. Em meio às crises espirituais do nosso tempo, o Senhor continua chamando homens e mulheres dispostos a viver uma fé ardente, profunda e autenticamente católica.

O mundo atual necessita urgentemente de cristãos cheios do Espírito Santo — não apenas cristãos de aparência exterior, mas almas transformadas pela graça, capazes de testemunhar Cristo com coragem, fidelidade e amor. Somente o fogo do Espírito pode vencer a frieza espiritual, restaurar a esperança e renovar verdadeiramente os corações.

Por isso, aproximando-nos da solenidade de Pentecostes, somos convidados a renovar nossa abertura à ação divina. O Ressuscitado continua repetindo à Sua Igreja: “Recebei o Espírito Santo”. Quem acolhe esse dom já não vive fechado no medo, mas torna-se testemunha da vitória de Cristo no mundo.

Pentecostes não é apenas memória litúrgica. É realidade viva, graça atual e chamado permanente à santidade.

 

ORAÇÃO DE ENCERRAMENTO

Vinde, Espírito Santo, dom eterno do Pai e do Filho, e renovai profundamente nossos corações. Dissipai as trevas do medo, da tibieza e da incredulidade. Curai as feridas causadas pelo pecado e concedei-nos a paz que o mundo não pode dar. Assim como entrastes no Cenáculo e transformastes os Apóstolos, entrai também em nossa alma e fazei-nos viver verdadeiramente como filhos de Deus.

Inflamai-nos com o fogo do Vosso amor. Dai-nos sabedoria para buscar as coisas do alto, fortaleza para perseverar nas provações e fidelidade para permanecermos unidos à Santa Igreja. Tornai-nos dóceis à Vossa graça, perseverantes na oração, assíduos nos sacramentos e corajosos no testemunho do Evangelho.

Ó Espírito Santo, por intercessão da Virgem Maria, Esposa fidelíssima do Vosso amor, fazei de nós testemunhas do Cristo Ressuscitado. Que toda a nossa vida glorifique a Santíssima Trindade, hoje e para sempre. Amém.

João 20,19-23 - O Sopro Pascal

19 Ao cair da tarde daquele mesmo dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, por medo dos judeus, veio Jesus, pôs-se no meio deles e disse-lhes: “A paz esteja convosco”.

20 E, dizendo isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. Então os discípulos alegraram-se ao ver o Senhor.

21 Disse-lhes, pois, Jesus novamente: “A paz esteja convosco. Assim como o Pai me enviou, também eu vos envio”.

22 Tendo dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: “Recebei o Espírito Santo.

23 Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos”.

Atos dos Apóstolos 2,1-13 - Pentecostes

1 Ao completar-se o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar.

2 De repente, veio do céu um ruído, como de um vento impetuoso que soprava, e encheu toda a casa onde estavam sentados.

3 E apareceram-lhes como que línguas de fogo, que se repartiam e pousavam sobre cada um deles.

4 Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem.

5 Ora, habitavam em Jerusalém judeus piedosos, de todas as nações que há debaixo do céu.

6 Quando se fez ouvir aquele ruído, reuniu-se a multidão e ficou confusa, porque cada um os ouvia falar na sua própria língua.

7 Estavam atônitos e admirados, dizendo: “Não são galileus todos estes que falam?

8 Como, então, cada um de nós os ouve falar na própria língua em que nascemos?

9 Partos, medos, elamitas; habitantes da Mesopotâmia, da Judeia e da Capadócia, do Ponto e da Ásia,

10 da Frígia e da Panfília, do Egito e das regiões da Líbia próximas de Cirene; peregrinos romanos,

11 tanto judeus como prosélitos, cretenses e árabes: ouvimo-los anunciar, em nossas próprias línguas, as grandezas de Deus”.

12 Todos estavam atônitos e perplexos, dizendo uns aos outros: “Que vem a ser isto?”.

13 Outros, porém, zombando, diziam: “Estão cheios de vinho novo”.

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