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São José, Guardião da Sagrada Família: a Missão de Proteger Jesus e Maria

Atualizado: há 2 dias

INTRODUÇÃO

Quando a tradição católica chama São José de guardião da Sagrada Família, a primeira imagem que pode surgir é a do homem que protege Jesus da perseguição de Herodes e conduz Maria e o Menino para o Egito. A cena pertence realmente ao coração de sua missão. Contudo, se a guarda de José fosse reduzida à proteção diante de um perigo físico, permaneceria incompreendida uma parte considerável do testemunho evangélico.

Sua responsabilidade começa antes da fuga. Começa quando ele recebe uma ordem inesperada: “José, filho de Davi, não temas receber Maria, tua esposa” (Mt 1,20). Prossegue quando lhe é confiado o nome do Menino; manifesta-se nas viagens, na observância religiosa da família e na longa vida escondida de Nazaré; aparece ainda naquela frase surpreendente de São Lucas segundo a qual Jesus “era-lhes submisso” (Lc 2,51). Aquele que guarda não está simplesmente ao lado da Sagrada Família. Deus o introduziu nela e lhe confiou deveres reais de esposo e de pai.

Essa responsabilidade, porém, permanece inteiramente subordinada ao mistério que José serve. Maria pertence antes de tudo ao desígnio de Deus; Jesus é o Filho eterno do Pai. José não é origem da graça que encontrou dentro de sua própria casa. Ele a recebe, protege e serve.

É precisamente por isso que sua autoridade possui tamanho valor para a vida cristã. Em José, exercer autoridade não significa dispor arbitrariamente de quem lhe foi confiado. Significa responder diante de Deus pelo bem de pessoas que não lhe pertencem como uma propriedade. A força de sua missão nasce dessa consciência de responsabilidade.

Séculos depois, ao explicar por que São José deveria ser venerado como Patrono da Igreja, Leão XIII partiu dessa mesma realidade. O Papa olhou para Nazaré: para o esposo de Maria, para aquele que era reconhecido como pai de Jesus, para o chefe da casa onde o Filho de Deus quis viver. Se José guardou com amor a família que Deus colocou sob seus cuidados, a Igreja reconhece nele, por uma profunda continuidade espiritual, aquele a cuja proteção pode confiar a família de Cristo espalhada pelo mundo.

Compreender São José como guardião exige, portanto, voltar aos Evangelhos. Antes de contemplarmos sua proteção sobre a Igreja, precisamos vê-lo receber Maria, dar nome a Jesus, partir durante a noite, retornar quando Deus ordena e permanecer ao longo dos anos em Nazaré. É nesses acontecimentos que o título de guardião encontra sua verdadeira substância.

São José ensina o Menino Jesus a trabalhar a madeira enquanto a Virgem Maria contempla a cena na oficina de Nazaré.

“TOMA O MENINO E SUA MÃE”: A MISSÃO CONFIADA A JOSÉ

“Não temas receber Maria”: a guarda começa pelo acolhimento

O primeiro grande ato da missão de São José não é uma fuga, uma defesa ou uma intervenção diante de um perseguidor. É receber Maria.

São Mateus situa José diante de uma situação que lhe escapa completamente. Maria, sua esposa, encontra-se grávida antes da convivência conjugal, e o evangelista esclarece ao leitor que a concepção ocorreu por obra do Espírito Santo (Mt 1,18). José considera afastar-se secretamente. Enquanto pensa no que fará, o anjo do Senhor lhe aparece em sonho e lhe diz: “José, filho de Davi, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que nela foi gerado vem do Espírito Santo” (Mt 1,20).

O verbo da ordem é decisivo. José deve receber aquela que Deus já havia escolhido para ser Mãe do Messias. Ele não é chamado a iniciar o mistério, mas a abrir-lhe a própria casa e, com isso, comprometer toda a sua existência.

O Catecismo da Igreja Católica retoma expressamente essa passagem ao ensinar que José foi convidado por Deus a levar Maria para sua casa, grávida daquele que fora concebido pelo Espírito Santo, para que Jesus nascesse da esposa de José na descendência messiânica de Davi (CIC 437). A recepção de Maria possui, portanto, um lugar objetivo na economia da Encarnação: a história pessoal de José passa a servir à realização das promessas divinas.

Esse primeiro gesto oferece uma chave importante para entender o sentido católico de sua guarda. José não recebe uma missão sobre algo que ele próprio produziu. Tudo lhe precede. A eleição de Maria vem de Deus; a concepção de Jesus vem do Espírito Santo; o nome do Menino também será determinado por Deus. José entra numa obra divina já em andamento e nela recebe uma responsabilidade verdadeira.

Há uma diferença profunda entre acolher uma missão e apropriar-se dela. Aquele que se apropria coloca a realidade recebida a serviço dos próprios projetos. José faz o inverso. A partir da palavra do anjo, é seu projeto pessoal que precisa ser colocado a serviço da vontade de Deus.

Mateus resume a resposta com a sobriedade característica de sua narrativa: “Ao despertar, José fez como o anjo do Senhor lhe havia ordenado e recebeu sua esposa” (Mt 1,24). Nenhum discurso é registrado. A decisão se manifesta na ação.

Essa obediência não torna José uma figura passiva. Receber Maria significa assumir todas as consequências de permanecer ao seu lado. Ele passa a carregar publicamente a responsabilidade familiar por uma situação cuja origem sobrenatural só lhe foi conhecida mediante revelação. O mistério não lhe é explicado para satisfazer curiosidade; é-lhe revelado para possibilitar fidelidade.

Por isso, o título de guardião começa dentro da própria casa. Antes de defender Jesus contra Herodes, José protege a unidade da família que Deus está constituindo. Antes de conduzir Maria pelo caminho do Egito, acolhe-a como esposa. Antes de enfrentar perigos externos, aceita a responsabilidade que Deus lhe apresenta.

Há aqui também uma indicação importante para compreender a autoridade cristã. A verdadeira autoridade recebe seus limites daquilo que lhe foi confiado. O esposo não é senhor absoluto da esposa; o pai não possui os filhos; aquele que exerce qualquer responsabilidade deve reconhecer que as pessoas permanecem criaturas de Deus e estão destinadas a ele.

A casa de Nazaré levará essa verdade a uma profundidade única. José exercerá autoridade familiar sobre Jesus, mas Jesus é o seu Senhor. Cuidará de Maria, mas Maria é aquela que Deus cumulou de uma missão que José não concedeu. Tudo quanto ele possui dentro dessa casa lhe é entregue como serviço.

Sua guarda começa, portanto, com uma espécie de descentramento. José precisa deixar de medir o mistério a partir de si mesmo para aprender a medir sua própria vida a partir do mistério que Deus lhe confiou.

“Tu lhe porás o nome de Jesus”: paternidade e autoridade recebidas de Deus

A mensagem do anjo não termina com a ordem de receber Maria. Depois de revelar a origem divina da concepção, acrescenta: “Ela dará à luz um filho, e tu lhe porás o nome de Jesus, pois ele salvará seu povo dos seus pecados” (Mt 1,21).

Também nesse ponto José recebe algo que não inventou. O nome do Menino vem do céu. Aquele que deverá pronunciá-lo e impô-lo recebe, contudo, uma função paterna concreta.

Mateus preserva cuidadosamente a concepção virginal. Sua genealogia já havia preparado o leitor ao dizer que José era esposo de Maria, “da qual nasceu Jesus” (Mt 1,16), sem atribuir a José a geração carnal. O mesmo evangelista afirma depois que Maria concebeu pelo Espírito Santo. A paternidade de José, portanto, jamais pode ser entendida em concorrência com a filiação divina de Cristo ou como negação de sua concepção virginal.

Isso não reduz José a mero figurante jurídico. A ordem de dar nome ao Menino introduz sua missão na realidade da vida familiar. Ele será conhecido socialmente como pai de Jesus; Maria mesma poderá dizer ao Filho adolescente: “Teu pai e eu, angustiados, te procurávamos” (Lc 2,48).

Leão XIII desenvolveu esse ponto de maneira especialmente vigorosa em Quamquam Pluries. Ao explicar a dignidade de São José, o Papa recorda que, por vontade divina, ele foi guardião do Filho de Deus e tido como seu pai entre os homens. Por isso, o Verbo encarnado quis submeter-se a José e prestar-lhe a obediência correspondente à condição de filho na vida familiar.

A afirmação encontra sólido apoio em São Lucas. Depois do encontro de Jesus no Templo, o evangelista escreve: “Desceu então com eles para Nazaré e era-lhes submisso” (Lc 2,51).

O Catecismo interpreta essa submissão cotidiana como o cumprimento perfeito do quarto mandamento e chama José de “pai legal” de Jesus (CIC 532). Acrescenta que a obediência de Cristo a José e Maria, durante a vida escondida, possui relação profunda com sua obediência filial ao Pai celeste.

Estamos diante de um mistério cristológico e familiar de grande profundidade. Aquele por quem todas as coisas foram criadas aceita a condição verdadeira da infância e da vida doméstica. Sua divindade não transforma a humanidade assumida numa aparência. Jesus cresce numa família real e entra livremente na ordem de obediência correspondente a essa vida.

José recebe, consequentemente, uma autoridade que parece quase paradoxal. Deve orientar e proteger aquele que é infinitamente superior a ele. Deve assumir responsabilidades paternas diante do Filho eterno do Pai.

A fé cristã resolve o aparente paradoxo porque distingue corretamente as ordens. Enquanto Deus, o Filho é eterno e consubstancial ao Pai. Na humanidade verdadeira que assumiu para nossa salvação, quis viver sob as condições próprias de uma família humana, sem pecado. José recebe nessa ordem doméstica uma verdadeira missão.

Sua autoridade não se apoia numa superioridade absoluta de dignidade. Origina-se na tarefa que Deus lhe confiou. O próprio fato de Jesus ser seu Senhor impede José de conceber essa autoridade como poder autônomo. Cada ato paterno só encontra sua verdade enquanto permanece dentro do desígnio divino.

Essa característica permite contemplar São José como modelo sem projetar sobre ele categorias modernas de “liderança”, gestão ou eficiência. A categoria propriamente cristã é mais antiga e mais profunda: serviço obediente a uma responsabilidade recebida.

O pai cristão pode encontrar aqui um exame exigente. Ter responsabilidade pelos filhos não lhe concede licença para moldá-los arbitrariamente segundo seus desejos. A autoridade paterna existe para cuidar do bem deles e conduzi-los segundo a verdade e a vontade de Deus. Também o esposo não recebe da condição matrimonial um direito de domínio sobre a esposa. O matrimônio cria deveres de fidelidade, assistência e amor.

Em José, essas relações aparecem purificadas por uma circunstância única. Maria e Jesus lhe foram confiados, mas nunca lhe pertencem como objetos disponíveis. Sua grandeza consiste justamente em exercer plenamente a missão recebida sem colocar-se no centro dela.

A imposição do nome de Jesus resume bem essa relação. José possui autoridade para dar o nome, mas não autoridade para escolher qualquer nome. Ele age verdadeiramente, mas sua ação é obediente. É pai, mas recebe a paternidade como missão. Está à frente da casa, mas a casa está ordenada ao Filho de Deus.

Essa autoridade, longe de ser diminuída pela obediência, encontra nela sua forma mais elevada.

“Levanta-te”: a guarda diante de Herodes

A missão confiada a José adquire dramaticidade quando a vida de Jesus passa a estar diretamente ameaçada.

Depois da visita dos magos, São Mateus relata que um anjo do Senhor aparece a José em sonho e ordena: “Levanta-te, toma o Menino e sua mãe, foge para o Egito e fica lá até que eu te avise, porque Herodes vai procurar o Menino para matá-lo” (Mt 2,13).

Aqui o título de guardião assume sua expressão mais visível. O perigo possui um nome, uma intenção e poder político. Herodes pretende matar o Menino. José recebe a tarefa de retirar Jesus e Maria de seu alcance.

A narrativa impressiona pela rapidez. “José levantou-se, tomou de noite o Menino e sua mãe e partiu para o Egito” (Mt 2,14). Não sabemos quanto tempo decorreu entre o sonho e a partida, mas o evangelista faz questão de registrar que a saída ocorreu durante a noite. A urgência da ordem encontra correspondência na prontidão da resposta.

Seria possível adornar a cena com muitas reconstruções: perigos das estradas, condições climáticas, recursos disponíveis, extensão das jornadas e inúmeros detalhes da vida de exilados. O Evangelho não fornece esses elementos. A sobriedade preserva o centro espiritual do relato: Deus escolhe servir-se da ação de José para retirar o Menino da ameaça de Herodes.

A providência divina aparece aqui de maneira particularmente concreta. O Pai poderia proteger miraculosamente seu Filho sem recorrer à fuga. Poderia impedir Herodes de agir por uma intervenção extraordinária. Em vez disso, ordena a José que se levante, tome Jesus e Maria e parta.

A confiança na Providência não dispensa a ação humana. José confia em Deus justamente obedecendo à ordem que exige esforço, deslocamento e prudência. Seu ato não substitui o poder divino; torna-se instrumento dele.

Esse ponto protege a espiritualidade cristã de uma falsa compreensão da confiança. Confiar em Deus nunca significou recusar os meios legítimos que ele coloca à disposição. Quando uma vida está ameaçada, tomar providências razoáveis não constitui falta de fé. José não permanece imóvel esperando que Deus detenha Herodes. A palavra divina que ele recebeu inclui uma ação concreta: fugir.

Ao mesmo tempo, seria impreciso dizer, sem qualificação, que José “salvou o Salvador”, como se a salvação de Cristo dependesse de um poder autônomo de José. O Evangelho mostra algo mais belo e teologicamente mais preciso: Deus quis associar o serviço de José à proteção histórica da vida do Menino. O guardião participa instrumentalmente da Providência pela obediência.

A permanência no Egito dura “até que eu te avise”. A expressão contém outra exigência. José não decide por conta própria quando termina a missão. Deve esperar nova ordem.

Depois da morte de Herodes, o anjo reaparece: “Levanta-te, toma o Menino e sua mãe e vai para a terra de Israel, pois morreram os que procuravam tirar a vida do Menino” (Mt 2,20). José novamente se levanta e retorna.

O caminho, porém, não se resolve mecanicamente. Ao saber que Arquelau reinava na Judeia no lugar de Herodes, José teme ir para lá; advertido em sonho, dirige-se à região da Galileia e estabelece a família em Nazaré (Mt 2,22–23).

A sequência permite perceber como sua obediência convive com prudência. José não se torna incapaz de avaliar circunstâncias porque recebeu revelações em sonho. Considera o perigo representado por Arquelau. O Evangelho apresenta a ação divina e o discernimento humano sem oposição.

Isso também impede uma leitura excessivamente sentimental da custódia de José. Guardar uma família envolve decisões difíceis. Exige partir quando seria mais confortável permanecer; requer atenção aos perigos reais; obriga a considerar circunstâncias e escolher meios adequados. A caridade paterna não consiste apenas em sentimentos afetuosos, mas em assumir a responsabilidade concreta pelo bem de quem foi confiado.

Leão XIII recordará precisamente esses fatos ao descrever José como aquele que protegeu o Menino ameaçado pela inveja de um rei, procurou-lhe refúgio e permaneceu como auxílio de Jesus e Maria nos sofrimentos da viagem e do exílio.

A fuga para o Egito é, portanto, um ponto culminante da guarda josefina, mas não o seu todo. Herodes morre; a missão de José permanece.

O perigo extraordinário termina. Começa novamente o trabalho silencioso de muitos anos.

Nazaré: guardar também significa permanecer

É fácil reconhecer o guardião quando há um perseguidor às portas. Mais difícil é perceber a mesma missão na repetição dos dias comuns.

Depois do retorno, Nazaré torna-se o cenário dominante da vida de Jesus antes do ministério público. Os Evangelhos quase nada relatam desse período. O Catecismo observa que, durante a maior parte de sua vida, Jesus partilhou a condição da imensa maioria dos homens: vida cotidiana, trabalho manual, vida religiosa judaica e submissão aos pais (CIC 531).

Esse silêncio bíblico não autoriza reconstruir todos os detalhes da casa de José. Entretanto, a própria existência de uma vida familiar prolongada permite compreender que sua missão de guarda não terminou quando cessou a perseguição.

Uma criança não precisa apenas ser retirada de um perigo mortal. Precisa ser alimentada, vestida, protegida, acompanhada e integrada numa casa. Uma família não vive somente de grandes decisões tomadas em momentos excepcionais. Sua consistência forma-se numa fidelidade que raramente produz acontecimentos dignos de registro histórico.

Leão XIII descreve São José justamente sob esse aspecto. Afirma que ele protegeu com amor e solicitude cotidiana sua esposa e o divino Menino, trabalhando para obter o necessário à alimentação e ao vestuário da família. Dessa responsabilidade doméstica o Papa deriva os títulos de guardião, administrador e defensor legítimo da casa divina.

O trabalho se relaciona diretamente com a missão de custódia confiada a São José. José trabalha porque guardar implica sustentar. A mesma responsabilidade que o fez levantar-se à noite para fugir de Herodes assume, em Nazaré, a forma menos dramática de prover as necessidades da casa.

Lucas oferece ainda outro dado: Maria e José iam todos os anos a Jerusalém pela festa da Páscoa (Lc 2,41). A casa em que Jesus cresce está inserida na vida religiosa de Israel. José não guarda apenas a segurança física do Menino; participa de uma família ordenada ao culto de Deus e à observância da Lei.

O episódio de Jesus aos doze anos ilumina de maneira particular os limites e a verdade dessa responsabilidade. Ao perceberem sua ausência durante o retorno, Maria e José o procuram entre parentes e conhecidos; não o encontrando, voltam a Jerusalém. Depois de três dias, encontram-no no Templo.

Maria exprime a angústia dos dois: “Teu pai e eu, angustiados, te procurávamos” (Lc 2,48).

Jesus responde remetendo tudo à primazia do Pai celeste: “Não sabíeis que devo estar nas coisas de meu Pai?” (Lc 2,49).

O Catecismo observa que Maria e José não compreenderam plenamente essa palavra naquele momento, mas a acolheram na fé; depois, Jesus retorna com eles e vive a submissão da vida oculta.

A passagem mostra com particular clareza que a custódia não equivale a controle absoluto. José tem responsabilidade real sobre Jesus e sofre quando não o encontra. Contudo, a missão do Filho procede do Pai e ultrapassa toda autoridade doméstica. A paternidade de José permanece verdadeira justamente porque aceita essa ordem.

Essa consideração possui consequências para toda responsabilidade cristã. Pais são chamados a educar os filhos, e o Catecismo os apresenta como seus primeiros educadores (CIC 1653). Entretanto, educar cristãmente é preparar uma pessoa para responder a Deus, não impedir que ela pertença a ele.

José guarda Jesus sem pretender determinar sua missão messiânica. Protege sua vida sem ocupar o lugar do Pai. Acompanha seu crescimento sem transformar a paternidade numa propriedade.

O mesmo princípio vale, de maneira proporcionada, para a família cristã. O Catecismo recorda que Cristo quis nascer e crescer no seio da Sagrada Família de José e Maria e apresenta a família cristã como “Igreja doméstica”, lugar privilegiado de fé, oração e educação cristã (CIC 1655–1657; 2204–2205).

Não convém aplicar mecanicamente cada aspecto da estrutura social de Nazaré às famílias de todos os tempos. A realidade histórica possui características próprias. O exemplo teológico, porém, permanece: a autoridade dentro da família existe diante de Deus, recebe dele seu fim moral e deve servir ao verdadeiro bem daqueles que lhe são confiados.

Nesse sentido, Nazaré completa o Egito. No Egito, José protege a família diante de uma ameaça extraordinária; em Nazaré, protege-a pela perseverança ordinária. A segunda forma pode parecer menos heroica, mas é provavelmente aquela que ocupou a maior parte de sua vida.

A guarda cristã precisa das duas. Há momentos que pedem coragem imediata e decisões difíceis. Há anos inteiros em que a fidelidade consiste simplesmente em continuar cumprindo o dever.

Da casa de Nazaré à Igreja: São José, Patrono da Igreja Católica

A veneração de São José como protetor não permaneceu limitada à esfera familiar. A Igreja progressivamente reconheceu uma relação especial entre a missão que ele exerceu em Nazaré e seu patronato sobre o povo cristão.

O ponto decisivo dessa recepção ocorreu sob Pio IX. Em 8 de dezembro de 1870, no contexto de graves dificuldades enfrentadas pela Igreja, São José foi declarado Patrono da Igreja Católica por meio do decreto Quemadmodum Deus, da Sagrada Congregação dos Ritos, por determinação pontifícia. São João Paulo II, ao retomar posteriormente esse ato, recordou expressamente que Pio IX quis confiar a Igreja à proteção particular do santo Patriarca e o declarou “Patrono da Igreja Católica”.

A proclamação não criou do nada uma devoção. O próprio documento recordado por João Paulo II observa que a Igreja já venerava São José com grande honra depois da Virgem Maria e recorria à sua intercessão nas dificuldades. O ato de Pio IX reconheceu e fortaleceu uma convicção que amadurecera na vida católica.

Leão XIII ofereceu dezenove anos mais tarde, em Quamquam Pluries, uma das explicações magisteriais mais importantes desse patronato. Seu argumento merece ser acompanhado com atenção porque impede reduzir o título a uma simples comparação piedosa.

O Papa começa pela união de José com Maria. Sendo verdadeiro esposo da Virgem, José foi intimamente associado àquela a quem Deus escolheu para ser Mãe de seu Filho. Depois, considera sua relação com Jesus: por vontade divina, José tornou-se guardião do Filho de Deus e foi reconhecido como seu pai entre os homens.

Dessas duas relações procedem responsabilidades concretas. Leão XIII afirma que José se tornou “guardião, administrador e defensor” da casa divina sobre a qual exercia responsabilidade paterna. Durante a vida, cumpriu esses deveres protegendo Maria e Jesus, trabalhando pelo sustento da família, defendendo o Menino ameaçado e acompanhando-os no exílio.

Até aqui, o Papa simplesmente recolhe a missão histórica de José. O passo seguinte estabelece a conexão eclesiológica.

Segundo Leão XIII, a casa divina governada por José continha, em seu princípio, a Igreja nascente. Cristo é a cabeça e origem do povo redimido; Maria está inseparavelmente ligada a ele dentro do mistério da Redenção. Por isso, a responsabilidade exercida por José sobre a Sagrada Família oferece fundamento à conveniência de seu patronato celestial sobre a Igreja de Cristo.

A analogia precisa ser compreendida com precisão. A Igreja não afirma que São José governe a Igreja no lugar de Cristo, nem que possua uma jurisdição paralela à autoridade apostólica. Cristo permanece único Senhor e cabeça da Igreja. O patronato de José pertence à comunhão dos santos e à ordem da intercessão.

Também não se trata simplesmente de raciocinar: “José protegeu Jesus; logo protege qualquer cristão”. Leão XIII constrói uma relação mais profunda. Aquele que recebeu a responsabilidade pela casa na qual o Verbo encarnado e sua Mãe viveram é invocado como protetor da família sobrenatural que pertence a Cristo.

Por isso, ao final de Quamquam Pluries, o Papa oferece à Igreja a conhecida oração “A vós, São José”. Nela pede que o santo guardião da Sagrada Família defenda a descendência escolhida de Jesus Cristo, preserve os fiéis do erro e auxilie a Igreja em suas lutas. A oração estabelece de modo explícito uma correspondência entre a antiga proteção do Menino Jesus e a atual súplica pela Igreja.

Essa passagem é especialmente importante para a espiritualidade josefina porque mantém a devoção cristocêntrica. A Igreja recorre a José precisamente em razão de sua relação com Jesus e Maria. Quanto mais corretamente se compreende seu patronato, menos ele aparece como uma devoção isolada. José conduz a Cristo porque toda a sua missão histórica consistiu em servir o mistério de Cristo.

O patronato também oferece um horizonte para os perigos que atingem a Igreja. Nem toda ameaça é semelhante à perseguição de Herodes. Leão XIII, escrevendo no século XIX, preocupava-se com crises de fé, ataques à Igreja e deterioração moral; por isso pedia proteção contra erros e adversidades. A linguagem permanece espiritual e eclesial, não supersticiosa. Pedir a intercessão de São José não substitui os meios pelos quais a Igreja guarda a fé: doutrina, sacramentos, oração, disciplina, testemunho e fidelidade ao Evangelho. Sua intercessão é invocada precisamente para que os cristãos permaneçam fiéis a Cristo nesses meios.

As famílias podem fazer pedido semelhante. Colocar uma casa sob a proteção de São José não significa esperar uma espécie de imunidade automática contra sofrimentos. A própria Sagrada Família conheceu pobreza, deslocamento, perseguição, angústia e exílio. A proteção de Deus não eliminou todas as provações; sustentou a fidelidade dentro delas.

São José ensina, portanto, uma confiança profundamente realista. Ele recebe auxílio do céu, mas precisa levantar-se. É advertido por Deus, mas precisa percorrer o caminho. Protege Jesus, mas enfrenta o medo. Retorna do exílio, mas ainda precisa considerar o perigo representado por Arquelau. A Providência não reduz sua responsabilidade; torna-a possível e lhe dá direção.

Também hoje sua intercessão pode ser invocada por pais que precisam proteger a fé dos filhos, por esposos que enfrentam dificuldades, por famílias ameaçadas pela desunião, pela violência, pelo pecado ou pela perda da vida cristã. A aplicação, contudo, deve conservar a ordem encontrada nos Evangelhos: São José não é o centro da casa de Nazaré. Jesus é.

O guardião existe para que aquilo que Deus lhe confiou permaneça seguro e possa cumprir seu fim.

Essa é a razão mais profunda pela qual a Igreja se sente autorizada a colocar-se sob seu patronato.


CONCLUSÃO

Chamar São José de guardião da Sagrada Família significa muito mais do que recordar sua coragem diante da perseguição de Herodes. Os Evangelhos permitem acompanhar uma missão que começa antes do perigo e continua depois dele.

José guarda quando recebe Maria em sua casa. Guarda quando assume a missão paterna e dá ao Menino o nome que Deus determinou. Guarda quando se levanta durante a noite e conduz Jesus e Maria ao Egito. Continua a fazê-lo quando retorna prudentemente à Galileia, trabalha pela família, participa de sua vida religiosa e permanece durante os longos anos de Nazaré.

Sua autoridade adquire, assim, uma forma nitidamente cristã. Ele possui verdadeira responsabilidade, porém tudo o que lhe foi confiado permanece ordenado a Deus. Maria não recebe de José a própria vocação; ele a acolhe dentro da missão que Deus lhe deu. Jesus não recebe de José sua identidade; é o Filho eterno do Pai. Ainda assim, o próprio Deus quer que Maria seja recebida na casa de José e que Jesus viva sob sua autoridade paterna.

É justamente essa combinação de autoridade e serviço que torna São José tão necessário como modelo. A responsabilidade cristã não encontra sua grandeza no poder de dispor dos outros, mas na disposição de responder pelo seu bem diante de Deus. José exerce autoridade para proteger; decide para servir; trabalha para sustentar; permanece atento porque ama.

A Igreja compreendeu progressivamente que essa missão não deveria ser lembrada apenas como fato do passado. Quando Pio IX declarou São José Patrono da Igreja Católica e Leão XIII explicou as razões desse patronato, o olhar da fé retornou à casa de Nazaré. Aquele que guardara a Sagrada Família era invocado agora como protetor da família de Cristo espalhada pelas nações.

Essa confiança não rivaliza com a mediação única de Cristo. Pelo contrário, depende dela. São José possui importância porque pertence inteiramente ao mistério de Jesus. Seu patronato é cristocêntrico, assim como foi cristocêntrica sua existência.

Talvez por isso uma das imagens mais adequadas para terminar seja justamente aquela oferecida por Mateus: José se levanta, toma o Menino e sua mãe e parte conforme a palavra de Deus.

Toda a sua missão está aí.

Ele escuta aquilo que Deus lhe confia, toma sob seus cuidados aqueles que deve servir e os conduz pelo caminho que a Providência indica.

A Igreja, ao chamá-lo de seu Patrono, pede que continue intercedendo para que também ela faça o mesmo: guarde fielmente Cristo, permaneça unida à Virgem Maria e atravesse as provações da história sem abandonar aquilo que recebeu de Deus.


ORAÇÃO DE ENCERRAMENTO

Glorioso São José, esposo fiel da Virgem Maria e guardião de Jesus, Deus confiou à tua solicitude os maiores tesouros da casa de Nazaré. Alcança-nos a graça de receber com fé aquilo que ele nos confia e de cumprir nossos deveres com prudência, coragem, fidelidade e amor verdadeiro.

Protege nossas famílias, especialmente aquelas feridas pela divisão, pela falta de fé, pela violência, pela pobreza ou pela angústia. Intercede pelos pais e mães, para que exerçam suas responsabilidades como serviço diante de Deus, eduquem seus filhos na verdade e façam de seus lares lugares de oração, caridade e vida cristã.

Patrono da Igreja Católica, estende sobre ela tua proteção. Guarda seus pastores e fiéis na integridade da fé, defende-nos do erro e do pecado e ajuda-nos a permanecer unidos a Jesus e Maria. Conduze-nos fielmente pelo caminho desta vida até a casa do Pai. Amém.

Conheça também a vida e a santidade de São José e aprofunde o significado de seu exemplo como patrono dos trabalhadores.

REFERÊNCIAS

  • Catholic Church. Catechism of the Catholic Church. Vatican City: Libreria Editrice Vaticana, 1992.

  • John Paul II. Redemptoris Custos: Apostolic Exhortation on the Person and Mission of Saint Joseph in the Life of Christ and of the Church. August 15, 1989.

  • Leo XIII. Quamquam Pluries: Encyclical on Devotion to Saint Joseph. August 15, 1889.

  • Pius IX. Quemadmodum Deus: Decree Declaring Saint Joseph Patron of the Catholic Church. Sacred Congregation of Rites, December 8, 1870.

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