top of page

O que significa ser santo? A vocação universal à santidade

Atualizado: 4 de jan.


ARTIGO - O QUE SIGNIFICA SER SANTOCaminho de Fé

PODCAST - O QUE SIGNIFICA SER SANTOCaminho de Fé

INTRODUÇÃO

Quando ouvimos a palavra “santo”, quase sempre pensamos em figuras distantes: grandes místicos, mártires, religiosos de outro tempo, pessoas “quase perfeitas” que mal parecem ter tido fraquezas. Muitos católicos, na prática, acabam pensando assim: “ser santo é para poucos; para mim, basta ir à Missa quando dá, rezar de vez em quando, não fazer mal a ninguém…” Sem perceber, reduzimos a fé a um mínimo e colocamos a santidade numa prateleira alta, bonita, porém inacessível.

No entanto, a Revelação e o Magistério da Igreja nos dizem exatamente o contrário. Desde as primeiras páginas da Escritura, o homem é criado à imagem e semelhança de Deus; mais tarde, Israel é chamado a ser “povo santo”; no Novo Testamento, os cristãos são chamados “santos” não porque sejam impecáveis, mas porque pertencem a Cristo. E o Catecismo afirma, com toda clareza, que a santidade é a vocação de cada batizado e o fim de todas as atividades da Igreja. Não existe cristão a quem Deus tenha chamado “apenas” para viver uma vida correta, mas sem santidade.

Diante disso, a pergunta do nosso artigo se torna decisiva: afinal, o que significa ser santo? O que essa palavra quer dizer, de fato, à luz da Bíblia e da doutrina católica? Em que a santidade se distingue de uma mera correção moral? Como ela se vive, concretamente, na família, no trabalho, na juventude, na velhice?

Para responder, vamos percorrer um caminho em quatro etapas: primeiro, escutaremos o chamado à santidade no Antigo Testamento; depois, contemplaremos a plenitude da santidade em Cristo e no Espírito, no Novo Testamento; em seguida, veremos como o Catecismo organiza essa doutrina e fala da vocação universal à santidade; por fim, olharemos para a nossa vida de hoje, à luz de alguns santos, para reconhecer que a santidade não é um luxo espiritual, mas a forma normal de ser cristão. É nesse horizonte que queremos compreender, em profundidade, o que significa ser santo.

Jesus e Maria em glória cercados por santos de vários estados de vida, comunhão dos santos na vocação universal à santidade, arte sacra católica.

2. Bíblia – Fundamentos da Santidade

2.1. Antigo Testamento – Deus é santo e chama o seu povo à santidade

Antes de falar da nossa santidade, a Escritura nos apresenta Aquele que é Santo por essência. A santidade não começa no esforço humano, mas em Deus mesmo, que é absolutamente distinto de tudo o que criou, puro em seu ser, fiel em suas promessas, luminoso em seu amor. Quando a Bíblia proclama que Deus é santo, está dizendo que Ele é totalmente “outro”, mas ao mesmo tempo misericordiosamente próximo, a ponto de chamar o seu povo a participar dessa mesma santidade.

É nesse contexto que ressoam as palavras que percorrem todo o Antigo Testamento:

“Sede santos, porque Eu sou santo” (cf. Lv 11, 44–45; 19, 2; 20, 7–8).

Não se trata de um simples conselho moral, mas de um chamado de aliança. Deus que tirou Israel da escravidão do Egito separa esse povo para Si e o configura como “reino de sacerdotes e nação santa” (Ex 19,5–6). Ser santo, portanto, significa antes de tudo pertencer a Deus, viver como propriedade sua, consagrado a Ele no meio das nações. A santidade, aqui, é uma realidade antes de ser um sentimento: Deus toma o povo para Si, e por isso exige que esse povo viva de modo diferente.

Esse chamado encontra um fundamento ainda mais profundo no início da Bíblia. Em Gênesis lemos que Deus criou o homem “à sua imagem e semelhança” (Gn 1,26–27). Entre todas as criaturas, só o ser humano é capaz de conhecer e amar o seu Criador, de responder livremente ao seu amor. A vocação à santidade, portanto, não é algo acrescentado de fora, mas está inscrita na própria estrutura do nosso ser: fomos criados para refletir, como espelhos vivos, a santidade de Deus. Se Deus é santo, o homem, criado à sua imagem, é chamado a deixar que essa santidade se torne visível na sua vida.

Por isso, nos Salmos encontramos uma pergunta que atravessa toda a espiritualidade bíblica: “Quem subirá ao monte do Senhor? Quem permanecerá em seu lugar santo?” (cf. Sl 15; 24,3–4).

A resposta é clara: não bastam ritos externos nem um pertencimento apenas sociológico ao povo de Deus. A santidade exige um coração reto, mãos inocentes, língua que não calunia, vida que não compactua com a injustiça. Aqui aparece um aspecto importante: a santidade tem consequências concretas na moral, na justiça, na caridade. Quem se aproxima do “lugar santo” precisa deixar-se purificar de tudo o que é mentira, violência e idolatria. A santidade não é fuga do mundo, mas transformação da vida no mundo à luz de Deus.

O ponto mais alto dessa revelação no Antigo Testamento se encontra na visão de Isaías. O profeta contempla o Senhor sentado no trono, e os serafins clamam sem cessar: “Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos, a terra inteira está cheia da sua glória” (Is 6,3). Diante dessa santidade tremenda, Isaías reconhece a própria miséria: “Ai de mim! Estou perdido, porque sou um homem de lábios impuros…” (Is 6,5). A reação natural do homem pecador diante do Deus santo é o temor e a consciência de indignidade. Mas Deus não afasta o profeta: envia um anjo que toca seus lábios com uma brasa e lhe diz: “Tua culpa se afastou, teu pecado foi expiado” (Is 6,7).

Aqui se revela algo decisivo para todo o nosso tema: é o próprio Deus que purifica, que torna santo aquele que Ele chama. Isaías não se santifica por si mesmo; ele se deixa tocar pela ação purificadora de Deus e, a partir daí, é enviado em missão. Santidade, portanto, não é apenas separação, mas também envio: quem é tomado por Deus é enviado por Deus.

Podemos resumir assim o caminho do Antigo Testamento:

  • Deus é o Santo, absolutamente distinto e ao mesmo tempo próximo.

  • Ele escolhe um povo, separa-o para Si, e por isso lhe diz: “Sede santos, porque Eu sou santo”.

  • O homem é criado à imagem de Deus, portanto com capacidade de responder a esse chamado.

  • A santidade exige uma vida concreta de justiça e verdade, simbolizada pelo “subir ao monte do Senhor”.

  • Diante do Deus três vezes Santo, o homem reconhece o próprio pecado, mas é purificado e enviado.

Desde o início, portanto, a Bíblia nos ensina que ser santo não é, em primeiro lugar, um projeto humano de perfeição, mas um dom e um chamado: Deus nos toma para Si, purifica-nos e nos convida a viver de modo digno dessa pertença. No Novo Testamento, veremos como essa vocação se cumpre plenamente em Cristo, que nos faz participar da sua própria santidade.

2.2. Novo Testamento – Santidade em Cristo e no Espírito

Se no Antigo Testamento a santidade aparece como pertença a Deus e resposta à Aliança, no Novo Testamento ela revela o seu rosto pleno em Jesus Cristo. Ele é o Santo de Deus, o Filho no qual o Pai tem toda a sua complacência. Ser santo, agora, significa ser configurado a Cristo pela graça do Espírito Santo, vivendo como filhos no Filho. A santidade já não é apenas um ideal anunciado, mas uma realidade que nos é oferecida em Cristo e comunicada sacramentalmente na Igreja.

O primeiro grande retrato dessa santidade cristã aparece no início do sermão da montanha, nas Bem-aventuranças (cf. Mt 5,1–12). Ali, Jesus descreve os “bem-aventurados” que o mundo muitas vezes considera fracassados: pobres em espírito, mansos, puros de coração, perseguidos por causa da justiça. Na verdade, Ele está descrevendo a si mesmo: as Bem-aventuranças são o “retrato falado” do coração de Cristo. Por isso, são também o rosto da verdadeira santidade. Logo em seguida, Ele conclui:

“Sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5,48).

Essa perfeição não é um perfeccionismo nervoso, nem ausência absoluta de fragilidade humana; é a perfeição do amor filial, isto é, aprender a amar como o Pai ama, pela graça.

Um episódio ajuda a compreender melhor a relação entre salvação e santidade: o encontro de Jesus com o jovem rico (cf. Mt 19,16–26). Aquele jovem pergunta: “Mestre, que devo fazer de bom para ter a vida eterna?”. Jesus, primeiro, recorda os mandamentos, e o jovem responde que já os observa. Trata-se, poderíamos dizer, do caminho “ordinário” da salvação: evitar o pecado grave, cumprir os mandamentos. Mas o Senhor o convida a dar um passo além: “Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens, dá-o aos pobres… depois vem e segue-me”. Aqui aparece a chamada à santidade em grau de perfeição, que não é outra coisa senão seguir Cristo de modo total, sem reservas. Não se trata de opor “salvo” e “santo”, como se fossem realidades separadas: é a mesma vida eterna, mas acolhida em medida maior ou menor. Todo batizado é chamado à santidade; alguns, em certas vocações, são convidados a uma forma particularmente radical.

Essa santidade cristã é apresentada também como consagração na verdade e na missão. Na oração sacerdotal, pouco antes da Paixão, Jesus reza ao Pai: “Santifica-os na verdade; a tua palavra é verdade… Por eles eu me santifico, para que também eles sejam santificados na verdade” (Jo 17,17–19). Cristo “se santifica”, isto é, entrega-se totalmente ao Pai na Cruz, para que nós sejamos consagrados nessa mesma entrega. Ser santo, então, é deixar que a verdade do Evangelho penetre o coração e transforme a vida, tornando-nos disponíveis para a missão no mundo.

Ao mesmo tempo, o Novo Testamento insiste que a santidade é, antes de tudo, fruto da graça, não simples resultado de esforço moral. São Paulo mostra que, pelo Batismo, fomos tirados da escravidão do pecado para pertencer à justiça: “Agora… estais a serviço de Deus; tendes por fruto a santificação e, por fim, a vida eterna” (cf. Rm 6,19.22). E em outro lugar recorda que Deus nos predestinou “a sermos conformes à imagem de seu Filho” (Rm 8,28–30). A santidade, portanto, não é primeiramente um projeto nosso, mas um desígnio de Deus sobre nós: Ele quer plasmar em cada batizado a imagem viva de Jesus. Nosso esforço é resposta, cooperação com essa obra da graça.

Por isso, São Paulo chama os cristãos, já desde o início de suas cartas, de “santos”. Aos coríntios, escreve “à Igreja de Deus que está em Corinto, aos santificados em Cristo Jesus, chamados a ser santos” (1Cor 1,2). E mais adiante recorda: “Fostes lavados, fostes santificados, fostes justificados em nome do Senhor Jesus Cristo e no Espírito de nosso Deus” (1Cor 6,11). Pelo Batismo, somos lavados, santificados e justificados: recebemos objetivamente a santidade de Deus. Mas, ao mesmo tempo, somos “chamados a ser santos”: essa santidade recebida precisa tornar-se forma real de vida, amadurecer em atitudes, decisões, virtudes.

São Paulo é ainda mais explícito quando afirma: “Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação” (1Ts 4,3). Ele aplica essa vontade de Deus a aspectos muito concretos da vida, como a pureza, a castidade, o modo de viver o próprio corpo e os relacionamentos. E a Carta aos Hebreus adverte: “Procurai a paz com todos e a santidade, sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hb 12,14). A santidade, então, não é um “extra” opcional para alguns cristãos mais fervorosos; é condição para ver Deus. Ela se traduz numa vida moral coerente, purificada, mas sempre como fruto da graça e resposta à vocação recebida.

Retomando o mandato do Levítico, São Pedro escreve aos primeiros cristãos: “Como filhos obedientes, não vos conformeis com as paixões de outrora… mas, assim como é santo aquele que vos chamou, tornai-vos também vós santos em todo o vosso proceder, pois está escrito: Sede santos, porque Eu sou santo” (1Pd 1,14–16). O antigo “Sede santos” é relido à luz de Cristo: agora somos santos como filhos, chamados a espelhar na vida a santidade daquele que nos adotou em seu Filho. São João, por sua vez, contempla maravilhado: “Vede que grande amor o Pai nos mostrou: sermos chamados filhos de Deus. E nós o somos!” (1Jo 3,1). E conclui: “Todo aquele que nele tem esta esperança purifica-se a si mesmo, como também Ele é puro” (1Jo 3,3). A santidade aparece aqui como purificação contínua, impulsionada pela esperança de ver a Deus face a face.

O Novo Testamento termina abrindo-nos uma janela para a plenitude da santidade no Céu. No livro do Apocalipse, São João vê “uma multidão imensa, que ninguém podia contar, de todas as nações… de pé diante do trono e do Cordeiro”, vestidos de branco (cf. Ap 7,9–17). São aqueles que “lavaram suas vestes e as alvejaram no sangue do Cordeiro”. Esta visão nos mostra o destino final da vocação à santidade: participar para sempre da vida de Deus, em comunhão de amor, como povo redimido. A santidade que começa aqui, na fé e nos sacramentos, culmina naquela liturgia eterna onde toda lágrima será enxugada.

Podemos, então, resumir o ensinamento do Novo Testamento:

  • Jesus Cristo é o Santo de Deus, e a santidade cristã é participação na sua vida filial.

  • As Bem-aventuranças revelam o “rosto” do santo: pobre em espírito, manso, puro, misericordioso, perseguido por amor.

  • Somos chamados não só a evitar o pecado, mas a seguir Cristo com coração indiviso, deixando que Ele nos configure a si.

  • Pelo Batismo, já somos santificados, e, ao mesmo tempo, chamados a viver de modo digno dessa santidade recebida.

  • A vontade de Deus para cada cristão é a santificação, que se expressa concretamente na vida moral, na pureza, na caridade.

  • A esperança da visão de Deus nos impulsiona a uma purificação contínua, até a comunhão plena na glória.

Assim, o Novo Testamento nos mostra que ser santo é viver como filho no Filho, pela graça do Espírito Santo, no caminho da Igreja, em direção à multidão dos santos que já contemplam o rosto de Deus. É essa mesma vocação que o Catecismo da Igreja Católica irá explicitar com linguagem doutrinal, mostrando que a santidade é chamada dirigida a todos os fiéis, em todos os tempos.


3. Catecismo e Compêndio – definição doutrinal de santidade

Depois de ouvir a voz da Sagrada Escritura, a Igreja, por meio do Catecismo, organiza e explicita essa doutrina da santidade. Aqui não se trata de ideias novas, mas de uma leitura autorizada daquilo que Deus já revelou. Vamos seguir, passo a passo, os pontos centrais:

  1. em que sentido a Igreja é santa;

  2. a vocação universal à santidade;

  3. o chamado particular dos leigos;

  4. a comunhão dos santos e o intercâmbio de bens espirituais;

  5. por que somos chamados “santos”;

  6. a santidade da Igreja ao longo da história.

3.1. Em que sentido a Igreja é santa

Uma das notas da verdadeira Igreja de Cristo é ser “una, santa, católica e apostólica”. Mas em que sentido, exatamente, a Igreja é santa?

O Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, na pergunta 165, responde que a Igreja é santa porque:

  1. Deus Santíssimo é o seu autor – não nasceu da vontade de homens, mas do desígnio eterno do Pai;

  2. Cristo se entregou por ela, para santificá-la e torná-la fonte de santidade;

  3. o Espírito Santo a vivifica, habitando nela com a plenitude dos dons;

  4. a santidade é a vocação de cada um dos seus membros e o fim de todas as suas atividades (Compêndio, 165).

O Catecismo da Igreja Católica retoma e aprofunda: a Igreja é “o povo que Deus santifica” (CIC 823); Cristo “a amou como sua esposa, entregou-se por ela a fim de santificá-la” (cf. Ef 5,25–26; CIC 823); o Espírito Santo habita nela, dá-lhe vida e a conduz à santidade (CIC 797–798).

Ao mesmo tempo, o Catecismo ensina que a Igreja é santa e sempre necessitada de purificação (CIC 827). Santa na sua Cabeça, Cristo; santa nos sacramentos, na doutrina, na graça; mas formada por pecadores que ainda caminham e precisam ser purificados. Por isso, ela “abriga em seu próprio seio pecadores” e “ao mesmo tempo é santa e sempre tem necessidade de purificação, buscando sem cessar a penitência e a renovação”.

Assim, a santidade da Igreja não depende primeiro da perfeição moral de todos os seus membros, mas daquilo que ela é em Cristo: Corpo do Senhor, Esposa purificada pelo sangue, Templo do Espírito. A santidade moral dos fiéis é justamente fruto dessa santidade primeira, que vem de Deus.

3.2. Santidade da Igreja e vocação universal à santidade

Se a Igreja é santa, não é para guardar essa santidade para si, mas para comunicá-la. Por isso o Catecismo afirma que a santidade é a vocação de todos os seus membros (Compêndio, 165). A finalidade de tudo o que a Igreja faz – pregação, sacramentos, caridade, disciplina – é conduzir os filhos de Deus à santidade, isto é, à perfeição da caridade (CIC 824; 2012–2014).

Inspirado na Constituição Lumen Gentium do Concílio Vaticano II (cap. V), o Catecismo ensina que “todos na Igreja, quer pertençam à hierarquia, quer sejam por ela pastoreados, são chamados à santidade” (cf. LG 39–42; CIC 2013). Não existe uma “dupla via”: uma santidade obrigatória para padres e religiosos e outra, opcional, para leigos. Há um só Evangelho e uma só medida da vida cristã: ser santo, isto é, deixar que a graça de Deus leve o amor até o limite.

Essa vocação à santidade nasce, de modo muito concreto, no Batismo. É nele que somos enxertados em Cristo, morremos para o pecado, renascemos para uma vida nova (cf. Rm 6,3–4; CIC 1265–1267). O Catecismo diz que o batizado se torna “nova criatura” e “participante da natureza divina” (CIC 1265–1266): é exatamente isso que chamamos santidade em seu fundamento. Em outras palavras: Deus não só nos manda ser santos; Ele nos torna, pela graça, capazes de viver a santidade.

3.3. Chamado à santidade para todos, especialmente os leigos

Dentro dessa vocação universal, o Catecismo dedica atenção particular aos fiéis leigos. Eles não são cristãos “de segunda classe”: “Participando do sacerdócio de Cristo, cada um a seu modo, contribuem para a santificação do mundo” (cf. CIC 941).

O Catecismo afirma que os leigos “buscam o Reino de Deus tratando das realidades temporais e ordenando-as segundo Deus” (CIC 898). Isto significa que a vida familiar, o trabalho, a política, a economia, a cultura, a ciência, a arte – tudo isso é campo de santidade. Não é apenas “cenário neutro” onde o cristão vive sua fé; é precisamente o lugar onde sua fé deve florescer.

No parágrafo 943, o Catecismo diz que os leigos, de modo particular, “exercem o seu sacerdócio batismal pelo recebimento dos sacramentos, pela oração e ação de graças, pelo testemunho de uma vida santa, pela abnegação e caridade ativa” (cf. CIC 941–943). Em termos simples: o leigo se torna santo

  • vivendo bem o matrimônio ou a vida solteira;

  • educando os filhos na fé;

  • sendo honesto e justo no trabalho;

  • praticando a caridade;

  • assumindo cristãmente suas responsabilidades no mundo.

Assim, aquilo que o mundo chama de “vida comum” torna-se, para o batizado, campo de santificação. A vocação à santidade se encarna na rotina: contas a pagar, fila de banco, cansaço, doenças, alegrias, decisões profissionais… Tudo pode ser oferecido e vivido em união com Cristo.

3.4. Comunhão dos santos e intercâmbio de bens espirituais

A santidade nunca é uma aventura individual. O Credo nos faz professar: “Creio na comunhão dos santos”. O Catecismo explica que essa expressão tem dois sentidos inseparáveis (CIC 946–948):

  1. Comunhão nas coisas santas (sancta) – os bens espirituais compartilhados na Igreja: fé, sacramentos, carismas, caridade, bens espirituais.

  2. Comunhão entre as pessoas santas (sancti) – aqueles que, unidos a Cristo, formam um só Corpo: os fiéis peregrinos na terra, as almas do purgatório e os bem-aventurados no Céu (CIC 954–959).

Esse mistério se traduz num verdadeiro intercâmbio de bens espirituais. O Catecismo lembra que “o pecado de um prejudica a todos, assim como a santidade de um aproveita a todos” (cf. CIC 953). Há, por assim dizer, uma circulação de graça e de mérito dentro do Corpo de Cristo:

  • A oração de um contemplativo escondido ajuda um missionário em terras distantes.

  • O sacrifício silencioso de uma mãe sustenta um padre em crise.

  • A fidelidade de um jovem, que resiste à tentação, fortalece outros jovens que ele nem conhece.

Ao mesmo tempo, todos nós somos beneficiados, de modo superabundante, pelos méritos infinitos de Cristo e, derivadamente, pelos méritos de Maria e dos santos (CIC 1474–1477). Este é o fundamento da doutrina do “tesouro da Igreja” e das indulgências: não estamos sozinhos na luta pela santidade, mas apoiados por toda uma família espiritual.

3.5. Comunhão dos santos e porque somos chamados “santos”

O Catecismo de São Pio X, com sua linguagem simples e direta, ajuda a compreender isso em forma catequética. Nas questões sobre a comunhão dos santos, ele explica que todos os membros desta comunhão são chamados “santos” porque:

  • todos são chamados à santidade;

  • todos foram santificados pelo Batismo;

  • muitos já alcançaram a santidade perfeita e estão no Céu.

Há, portanto, dois níveis que não devemos confundir:

  1. Santidade recebida – pelo Batismo e pela graça, o cristão é objetivamente separado do pecado e consagrado a Deus; por isso a Igreja se dirige aos fiéis como “santos”.

  2. Santidade vivida – ao longo da vida, cada um é chamado a corresponder a essa graça, purificando-se do pecado, crescendo nas virtudes e na caridade até a “perfeição da caridade”.

Quando a Igreja venera oficialmente um santo (canonização), ela reconhece que essa “santidade recebida” chegou à sua maturidade plena na vida daquela pessoa. Mas, em sentido mais amplo, todo batizado é “santo em germe”, chamado a deixar que a graça recebida floresça.

3.6. Santidade da Igreja na história

Por fim, o Catecismo recorda que a santidade da Igreja é visível na história. Ela se manifesta:

  • na doutrina pura que conserva e transmite sem erro em matéria de fé e moral;

  • nos sacramentos, especialmente na Eucaristia e na Penitência, que comunicam a vida divina;

  • nas virtudes heróicas de tantos fiéis;

  • nos carismas, nos dons extraordinários concedidos pelo Espírito Santo;

  • nos milagres que acompanham a pregação do Evangelho;

  • na multidão dos santos canonizados e não canonizados.

Ao contemplar essa história, vemos que a Igreja, mesmo atravessando crises, pecados, escândalos e infidelidades de seus membros, não deixou de gerar santos em todos os séculos: apóstolos, mártires, doutores, missionários, monges, religiosas, pais e mães de família, jovens, crianças, idosos, doentes, pobres, governantes… É a prova viva de que a santidade não é uma teoria bonita, mas um fato: Deus realmente santifica o seu povo na Igreja.

Podemos resumir assim o ensinamento do Catecismo sobre a santidade:

  • A Igreja é santa porque procede do Pai, é esposa de Cristo e templo do Espírito.

  • A santidade é a vocação de todos os seus membros e o fim de todas as suas atividades.

  • Todos, inclusive os leigos, são chamados à perfeição da caridade no seu próprio estado de vida.

  • A comunhão dos santos nos lembra que a santidade é uma realidade de família: partilhamos bens espirituais e nos ajudamos mutuamente.

  • Somos chamados “santos” porque fomos santificados pelo Batismo e destinados à santidade perfeita.

  • A história dos santos manifesta, visivelmente, a santidade da Igreja ao longo dos séculos.

A partir dessa base doutrinal firme, podemos olhar agora para o nosso tempo e perguntar concretamente: como viver, hoje, essa vocação à santidade? É o que veremos na próxima seção, contemplando exemplos concretos de santos e a voz perene da Tradição.


4. Ser santo nos dias de hoje

Depois de percorrer a Sagrada Escritura e a doutrina da Igreja, surge uma pergunta muito concreta: é realmente possível ser santo hoje? No meio de tanta pressa, distrações digitais, crises familiares, tentações de todos os lados, não seria a santidade apenas uma bela ideia, mas impraticável? A Tradição da Igreja responde com firmeza: não. Deus não mudou, a graça não perdeu a sua força, o Evangelho não foi revogado. O que mudou são as circunstâncias; a vocação é a mesma.

Os Padres da Igreja já enfrentavam, em seu tempo, objeções parecidas. Santo Agostinho, combatendo o desânimo e o pelagianismo, lembrava que Deus jamais manda algo impossível: quando parece exigir mais do que podemos, Ele na verdade está convidando a que peçamos a graça que nos falta. Deus não pede santidade para depois cruzar os braços; Ele mesmo sustenta, fortalece e cura. São João Crisóstomo, por sua vez, insistia de modo vigoroso que a santidade não é privilégio de monges e eremitas: pais e mães, trabalhadores, pessoas casadas, gente da cidade – todos são chamados à perfeição da caridade. Já nos primeiros séculos, portanto, a Igreja ensinava que a santidade é possível no meio da vida comum.

Ao longo da história, essa verdade se confirmou na vida de inúmeros santos. Alguns parecem distantes do nosso contexto, outros são surpreendentemente atuais. São Francisco de Assis, por exemplo, encarna a radicalidade das Bem-aventuranças. Filho de uma família rica, jovem buscado pelas distrações do seu tempo, ele ouviu a voz de Cristo e escolheu viver pobre, pequeno, totalmente confiado à Providência. Sua vida mostra que “sede perfeitos” (Mt 5,48) não é uma abstração: é possível deixar que o Evangelho molde tudo – roupa, casa, modo de falar, relação com os pobres, trato com a criação. Nem todos são chamados a essa forma extrema de pobreza, mas todos podem aprender com Francisco o desapego interior, a liberdade diante do dinheiro, a alegria em viver simplesmente.

Se Francisco nos fala da radicalidade visível, Santa Teresinha do Menino Jesus nos revela a beleza da santidade escondida. No silêncio de um Carmelo, sem obras “grandes” aos olhos humanos, ela descobriu o “pequeno caminho”: fazer as menores coisas com grande amor, aceitar a própria pequenez, confiar ilimitadamente na misericórdia de Deus. Em Teresinha, vemos que a santidade não é feita só de gestos heroicos e extraordinários, mas de uma sucessão de pequenos atos de caridade, paciência, renúncia, vividos no cotidiano. Ela é mestre em traduzir a doutrina da graça em vida concreta: deixar que Deus faça em nós o que não conseguimos sozinhos, respondendo com confiança e amor. Para quem vive uma rotina comum – casa, trabalho, paróquia – Teresinha é prova de que a vida simples pode ser lugar de altíssima santidade.

Mais perto ainda do nosso tempo, Santa Gianna Beretta Molla mostra que a santidade floresce em pleno século XX, no coração de uma família e de uma profissão. Esposa, mãe e médica, ela uniu amor à vida familiar, competência profissional e profunda vida de fé. Nada nela parecia “separado do mundo”: consultório, maternidade, lazer, tudo era vivido à luz de Deus. O momento mais conhecido de sua vida – quando, diante de uma gravidez complicada, preferiu arriscar a própria vida para salvar a filha – foi o ápice de um caminho de pequenas fidelidades diárias. Em Gianna se cumpre o que o Catecismo afirma sobre os leigos: santos no meio do mundo, santificando as realidades temporais, oferecendo a Deus a rotina do trabalho e da família. Ela ensina, com sua vida, que não é preciso sair do mundo para ser santo, mas viver no mundo sem pertencer ao espírito mundano.

São Domingos Sávio, por sua vez, recorda que a santidade não é meta reservada à velhice. Adolescente, aluno de São João Bosco, ele viveu poucos anos, mas com uma intensidade de amor que marcou gerações. Seu famoso propósito – “Antes morrer do que pecar” – não era frase dramática, mas expressão de um coração que compreendeu a gravidade do pecado e a beleza da graça. Domingos estudava, brincava, tinha amigos, ria, praticava esportes; mas colocava a Eucaristia no centro, confessava-se com frequência, procurava reconciliar colegas, defendia a pureza. Ele mostra que é possível ser jovem e santo, sem perder a alegria, mas purificando tudo – amizades, divertimentos, sonhos – na luz de Cristo.

Diante desses rostos, fica mais claro o que significa ser santo hoje. Não se trata de copiar exteriormente a vida de Francisco, de Teresinha, de Gianna ou de Domingos, mas de deixar que o mesmo Espírito Santo que agiu neles aja em nós, nas circunstâncias concretas em que vivemos. Alguns serão chamados a renunciar a muito; outros, a serem fiéis em coisas aparentemente pequenas. Alguns viverão a santidade no altar, outros na cozinha, no escritório, no hospital, na escola, na enfermidade. O importante é acolher a graça, unir-se a Cristo, viver em comunhão com a Igreja e deixar que o amor de Deus transforme, pouco a pouco, toda a nossa vida.

Ser santo nos dias de hoje, portanto, não é fugir da realidade, mas vivê-la com um coração novo. É permitir que a Palavra, os sacramentos, a oração e a caridade penetrem a rotina, dando a cada gesto – do mais simples ao mais custoso – o sabor de eternidade. Se Deus fez santos em cidades tumultuadas do passado, em lares humildes, em oficinas, em escolas, Ele também pode fazer de nós santos aqui e agora, no tempo em que Ele nos quis, no lugar onde Ele nos plantou. A escolha que permanece é sempre a mesma: em meio a tudo, deixar-se conduzir pela graça e responder, dia após dia:

“Senhor, faze de mim aquilo que Tu queres; só não permitas que eu deixe de ser Teu”.

 

CONCLUSÃO

Chegando ao fim deste caminho, podemos voltar à pergunta inicial: o que significa ser santo? À luz da Palavra de Deus e do ensinamento da Igreja, a resposta se torna mais nítida. Ser santo não é ser um ser humano de outro planeta, sem fraquezas ou limitações, mas pertencer a Deus, deixar-se purificar por Ele e viver, no concreto da vida, como filho no Filho. No Antigo Testamento, vimos o Deus Santo que chama o seu povo a ser santo como Ele; no Novo Testamento, contemplamos em Jesus o rosto perfeito dessa santidade, especialmente nas Bem-aventuranças; no Catecismo, percebemos que a santidade é a vocação de todos; na vida dos santos, descobrimos que esse chamado é possível em todos os tempos e estados de vida.

Ser santo é, portanto, acolher a graça recebida no Batismo e cooperar com ela, permitindo que o Espírito Santo configure em nós a imagem de Cristo. É viver a fé não como um detalhe da existência, mas como o eixo que orienta pensamentos, escolhas, relações, trabalho, afetos. É deixar que a caridade transforme, pouco a pouco, tudo o que somos, até que possamos dizer com São Paulo: “Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim”.

Diante disso, ninguém pode dizer honestamente: “santidade não é para mim”. Se somos batizados, a santidade é exatamente para nós; mais ainda, é o que Deus quer para nós, porque nos ama. A questão já não é se somos chamados, mas como vamos responder. O Senhor não nos pede uma mudança instantânea e impecável, mas um coração que se deixe conduzir, dia após dia, pelo seu amor.

Que, à luz dessa verdade, possamos olhar para a nossa vida com humildade e esperança: reconhecer o pecado, recomeçar quantas vezes forem necessárias, buscar os sacramentos, cultivar a oração e a caridade, aprender com os santos. E, sobretudo, pedir com confiança:

“Senhor, faze de mim um santo segundo o teu Coração; não porque eu mereça, mas porque Tu és Santo e me chamaste a ser todo Teu.”

 

ORAÇÃO DE ENCERRAMENTO

Senhor nosso Deus, Pai Santo, fonte de toda santidade, nós te bendizemos porque, no Batismo, nos chamaste a ser teus filhos e nos convidaste a participar da tua própria vida.

Jesus, Santo de Deus, Tu que és manso e humilde de coração, configura-nos a Ti: purifica o nosso olhar, retifica as nossas intenções, ensina-nos a viver as Bem-aventuranças no concreto de cada dia.

Espírito Santo, fogo que consome e renova, entra nas nossas fraquezas, cura as nossas feridas, fortalece a nossa vontade, acende em nós o desejo sincero de sermos santos, não segundo os critérios do mundo, mas segundo o Coração do Pai.

Maria Santíssima, toda santa, São Francisco de Assis, Santa Teresinha do Menino Jesus, Santa Gianna Beretta Molla e São Domingos Sávio, intercedei por nós, para que respondamos com generosidade ao chamado de Deus e um dia possamos cantar, convosco, a santidade do Senhor por toda a eternidade. Amém.

REFERÊNCIAS

  • Caminho de Fé. Sagrada Escritura: Tradução Caminho de Fé, baseada na Nova Vulgata e nos textos originais. Tradução inédita, uso interno.

  • Concílio Vaticano II. Constituição Dogmática Lumen Gentium sobre a Igreja. In Concílio Vaticano II: Constituições, Decretos, Declarações. 17. ed. São Paulo: Paulus, 2014.

  • Francisco de Assis, São. Escritos de São Francisco de Assis. Petrópolis: Vozes, s.d.

  • Gianna Beretta Molla, Santa. Santa Gianna Beretta Molla: uma mãe para o nosso tempo. São Paulo: Paulus, s.d.

  • Igreja Católica. Catecismo da Igreja Católica. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2000.

  • Igreja Católica. Compêndio do Catecismo da Igreja Católica. São Paulo: Loyola, 2005.

  • João Crisóstomo, São. Homilias sobre o Evangelho de São Mateus. São Paulo: Paulus, s.d.

  • Lemoyne, Giovanni Battista. São Domingos Sávio: biografia. São Paulo: Edições Salesianas, s.d.

  • Pio X, Papa. Catecismo de São Pio X. São Paulo: Editora Permanência, s.d.

  • Teresinha do Menino Jesus, Santa. História de uma alma. São Paulo: Paulus, s.d.

  • Agostinho, Santo. Confissões. São Paulo: Paulus, s.d.

Comentários


Receba Inspirações Diárias em Seu E-mail. Assine a Newsletter do Caminho de Fé

Permita que a Palavra de Deus ilumine sua vida! Inscreva-se e receba e-mails sempre que publicarmos novos conteúdos para enriquecer sua caminhada espiritual.

Não perca a oportunidade de transformar cada dia com fé, esperança e inspiração. Inscreva-se agora!

Obrigado(a)!

bottom of page