“Vinde a mim, vós que estais cansados”: o Coração manso e humilde de Jesus (Mt 11,28–30)
INTRODUÇÃO
Há cansaços que uma noite de sono pode aliviar. Outros permanecem mesmo quando o corpo repousa. São pesos que alcançam o interior: preocupações que não cessam, culpas que ferem a consciência, responsabilidades que parecem maiores que nossas forças, pecados dos quais não conseguimos nos desprender, sofrimentos que não podemos evitar. Há ainda o desgaste produzido pelo orgulho, pela necessidade de controlar tudo e pela tentativa de construir a própria vida como se dependêssemos somente de nós mesmos.
É diante do homem assim cansado que ressoam algumas das palavras mais consoladoras do Evangelho: “Vinde a mim, todos vós que labutais e estais sobrecarregados, e eu vos restaurarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas. Pois o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve” (Mt 11,28–30, tradução própria de trabalho).
Há algo surpreendente nesse convite. Jesus promete descanso, mas logo fala de um jugo. Oferece alívio, mas não anuncia uma existência sem obediência, sacrifício ou cruz. Ao contrário, aquele mesmo Cristo dirá que quem quiser segui-lo deve tomar a própria cruz (Mt 16,24). Como compreender, então, a suavidade do jugo e a leveza do fardo?
A resposta está no centro da passagem: “aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração”. O segredo do repouso cristão não está simplesmente na retirada dos pesos, mas na união com aquele que os transforma. Cristo não oferece apenas uma doutrina sobre a paz. Oferece a si mesmo. Chama o cansado para junto de si, coloca-o em sua escola, comunica-lhe sua graça e ensina-lhe uma nova maneira de viver diante de Deus.
É entrando nessa escola do Coração de Jesus que se começa a compreender como pode existir repouso no meio da luta, paz no cumprimento do dever e até uma misteriosa leveza ao carregar a cruz.

2. O DESCANSO QUE CRISTO OFERENCE
2.1. “Vinde a mim”: quem é aquele que chama os cansados?
Para compreender a força de Mt 11,28, é necessário ler as palavras de Jesus no contexto em que Mateus as colocou. Pouco antes do convite aos cansados, Cristo bendiz o Pai porque os mistérios do Reino foram ocultados aos sábios e entendidos segundo o mundo e revelados aos pequeninos. Em seguida, faz uma afirmação extraordinária: “Tudo me foi entregue por meu Pai. Ninguém conhece o Filho senão o Pai, e ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar” (Mt 11,27).
Somente depois vem: “Vinde a mim”.
Isso muda profundamente a compreensão da passagem. Quem chama os homens para junto de si não é apenas um sábio capaz de oferecer bons conselhos. É o Filho que conhece singularmente o Pai e que recebeu dele todas as coisas. Aquele que revela o Pai apresenta-se também como o lugar para onde os cansados devem dirigir-se.
Os profetas conduziam Israel de volta ao SENHOR. Jesus, sem deixar de conduzir ao Pai, diz: “Vinde a mim”. O repouso prometido está inseparavelmente unido à sua pessoa. Não se encontra primeiro uma técnica espiritual e, por meio dela, chega-se eventualmente a Cristo; encontra-se Cristo, e nele a vida começa a ser colocada novamente em ordem.
Também é significativo que o convite seja dirigido a “todos” os que labutam e estão sobrecarregados. A linguagem descreve pessoas submetidas a uma fadiga persistente. O Evangelho não reduz esse peso a uma única causa. A condição humana conhece o desgaste do trabalho, da enfermidade, das perdas, das responsabilidades e da fragilidade. Mas Mateus permite perceber ainda outro horizonte. Mais adiante, Jesus censurará aqueles que “atam fardos pesados e insuportáveis e os põem aos ombros dos outros” (Mt 23,4). Existe, portanto, uma forma de religião que pode transformar a Lei de Deus em carga exterior, quando a verdade é separada da misericórdia, a obediência da graça e o preceito da conversão interior.
Isso não significa que Cristo substitua uma moral exigente por uma fé sem mandamentos. O contexto impede essa conclusão. Antes de consolar os fatigados, Jesus havia censurado severamente as cidades que, apesar de seus milagres, não se converteram (Mt 11,20–24). O Cristo que diz “Vinde a mim” é o mesmo que chama ao arrependimento. Misericórdia e conversão não são adversárias.
O Evangelho nos liberta tanto da dureza sem misericórdia quanto da falsa misericórdia sem verdade. Jesus não retira da vida moral a vontade de Deus; retira dela a esterilidade de uma obediência vivida longe dele.
Também para nós o primeiro passo continua sendo o mesmo: ir a Cristo. Não apenas conhecer coisas sobre ele, admirar seus ensinamentos ou recordar suas palavras, mas aproximar-se realmente dele na fé, na oração, nos sacramentos e na conversão.
O homem espiritualmente cansado frequentemente começa procurando maneiras de controlar melhor a própria vida. Jesus começa por outra direção: “Vinde a mim”. Antes de oferecer uma estratégia, pede um movimento de confiança. Antes de responder a todas as perguntas, chama-nos a permanecer junto dele.
2.2. “Eu vos darei repouso”: o descanso que somente Cristo pode oferecer
A promessa de Jesus é mais rica do que uma simples pausa: “eu vos restaurarei”. O verbo grego empregado em Mt 11,28 contém a ideia de fazer repousar, conceder refrigério. A tradição latina expressou isso com reficiam, palavra que pode sugerir refazer, restaurar, reanimar.
Cristo vê, portanto, não somente alguém que precisa interromper o trabalho, mas uma pessoa que necessita ser restaurada interiormente.
Essa linguagem encontra um antecedente importante no profeta Jeremias. Diante de um povo que se desviava, o SENHOR dizia: “Ponde-vos nos caminhos, olhai e perguntai pelas veredas antigas: ‘Onde está o bom caminho?’. Andai por ele e encontrareis repouso para vossas almas” (cf. Jr 6,16). A expressão “repouso para as vossas almas” reaparece em Mateus. Contudo, algo se tornou ainda mais profundo: aquilo que Jeremias apresentava como procura do bom caminho concentra-se agora em Cristo. O caminho não é separado daquele que o anuncia.
Também a tradição sapiencial de Israel ajuda a compreender essa passagem. O livro do Eclesiástico associa a busca da sabedoria à disciplina, ao jugo e, finalmente, ao descanso (cf. Sir 6,23–31; 51,23–27). Jesus utiliza uma linguagem que um leitor formado na Escritura poderia reconhecer, mas desloca seu centro: “aprendei de mim”. A sabedoria que conduz ao repouso não é somente ensinada por Cristo; manifesta-se nele.
É importante, porém, compreender corretamente esse descanso. Jesus não promete que seus discípulos deixarão de experimentar tribulações. Basta olhar para os Apóstolos, os mártires e os santos. O próprio Senhor advertiu: “No mundo tereis tribulações” (Jo 16,33). O repouso prometido não pode significar ausência de sofrimento exterior.
Há uma diferença entre uma vida sem problemas e uma alma em paz com Deus.
Uma pessoa pode possuir conforto, segurança e saúde e, ainda assim, viver inquieta porque sua vontade está desordenada, sua consciência ferida ou seu coração preso a coisas que não podem satisfazê-lo. Outra pode atravessar uma grande provação e conservar uma paz profunda porque sabe a quem pertence e em quem espera.
Santo Agostinho exprimiu magistralmente essa realidade no início das Confissões: Deus nos fez para si, e nosso coração permanece inquieto enquanto não repousa nele (Confissões, I,1,1). O problema mais profundo do coração humano não é apenas que ele carrega coisas demais, mas que procura repousar naquilo que não pode ser seu fim último.
Existe, portanto, um repouso já possível nesta vida: o da consciência reconciliada, da vontade novamente orientada para Deus, da confiança que nasce da graça. Não é um repouso perfeito. O combate espiritual permanece. As consequências do pecado, os sofrimentos e as tentações não desaparecem automaticamente. Entretanto, algo fundamental muda: já não caminhamos sem direção.
Há também uma dimensão futura. A Carta aos Hebreus fala do repouso para o povo de Deus e orienta o olhar para sua consumação definitiva (Hb 4,1–11). Toda paz verdadeiramente cristã nesta vida é antecipação imperfeita daquela bem-aventurança na qual a criatura repousará plenamente em Deus.
Não por acaso, em Mateus, imediatamente depois do convite de Jesus aparecem as controvérsias sobre o sábado (Mt 12,1–14), nas quais Cristo se declara “Senhor do sábado” (Mt 12,8). Sem abolir a dimensão moral do culto devido a Deus, a narrativa conduz ao mistério daquele em quem o verdadeiro repouso encontra sua plenitude.
Cristo não promete uma fuga da realidade. Promete restaurar a alma para que ela possa atravessar a realidade segundo Deus.
2.3. “Tomai sobre vós o meu jugo”: a liberdade da obediência cristã
Depois de dizer “Vinde”, Jesus acrescenta: “Tomai sobre vós o meu jugo”.
A imagem do jugo poderia causar estranheza. A canga colocada sobre animais para o trabalho tornou-se, na linguagem bíblica e antiga, figura de submissão, disciplina e obediência. Se Cristo quer aliviar os cansados, por que lhes oferece outro jugo?
Porque o Evangelho não consiste em não pertencer a ninguém. Consiste em pertencer a Cristo.
Todo ser humano organiza a própria vida em torno de algum bem que considera superior. Pode obedecer a Deus, mas pode também tornar-se escravo da opinião dos outros, do dinheiro, do prazer, da ambição, da necessidade de controle ou do próprio orgulho. Há jugos que escolhemos imaginando que nos tornarão livres e que, pouco a pouco, nos fazem servos.
Jesus não diz simplesmente: “livrai-vos de todos os vínculos”. Diz: “Tomai o meu jugo”. A verdadeira liberdade não consiste em viver sem verdade nem finalidade, mas em ordenar a vontade ao Bem para o qual fomos criados.
A sequência das palavras de Cristo é reveladora: vinde, tomai, aprendei, encontrareis. O homem aproxima-se; aceita o senhorio de Cristo; torna-se discípulo; encontra repouso. A paz prometida não é fruto da independência absoluta, mas de uma dependência finalmente colocada no lugar correto.
Aqui aparece uma verdade fundamental da doutrina católica sobre a graça e a vida moral. A obediência cristã não pode ser reduzida a um esforço exterior pelo qual o homem tentaria tornar-se santo exclusivamente com suas próprias forças. Mas também não pode ser dissolvida numa ideia de graça segundo a qual os mandamentos se tornariam facultativos.
Jesus havia afirmado no Sermão da Montanha que não veio abolir a Lei e os Profetas, mas levá-los à plenitude (Mt 5,17). Essa plenitude atinge o interior do homem. Jeremias anunciara uma nova aliança na qual a Lei seria colocada no íntimo e escrita no coração (Jr 31,31–34). São Paulo ensinará que a ação do Espírito torna possível uma vida nova, na qual a vontade é transformada para produzir os frutos da caridade (cf. Rm 8,1–4; Gl 5,16–25).
O Catecismo da Igreja Católica denomina essa realidade “Lei nova” ou “Lei evangélica” e ensina que ela é obra de Cristo e do Espírito Santo, levando à perfeição a Lei antiga e renovando interiormente o homem (CIC 1965–1974). São Tomás de Aquino explica, de modo clássico, que a Lei nova consiste principalmente na própria graça do Espírito Santo dada aos fiéis, ainda que também comporte ensinamentos e preceitos exteriores (Suma Teológica, I-II, q. 106, a. 1).
Por isso o jugo pode ser suave sem deixar de ser jugo.
O amor muda a maneira de obedecer. Aquilo que seria insuportável se realizado apenas por medo pode tornar-se livre entrega quando nasce da caridade. São João escreve que o amor de Deus consiste em guardar seus mandamentos e acrescenta: “seus mandamentos não são pesados” (1Jo 5,3).
Isso não quer dizer que o caminho seja sempre emocionalmente agradável. A própria palavra de Cristo impede tal ilusão. “Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mt 16,24).
O jugo suave de Mt 11,30 e a cruz de Mt 16,24 não se contradizem. Uma cruz pode permanecer objetivamente dolorosa e, entretanto, adquirir outra qualidade espiritual quando é carregada em união com Cristo. A graça não transforma necessariamente a madeira da cruz; transforma o coração daquele que a carrega. A esperança dá sentido ao sofrimento. A caridade oferece aquilo que antes parecia apenas imposto. A união com Jesus impede que o discípulo permaneça abandonado a suas próprias forças.
Cristo não torna leve a vida dizendo que nada custa. Torna possível carregá-la conosco unidos a ele.
2.4. “Sou manso e humilde de coração”: entrar na escola interior de Jesus
Depois de convidar e oferecer seu jugo, Jesus pronuncia palavras singulares: “aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração”.
O Mestre não apresenta primeiro uma longa lista do que deve ser aprendido. Apresenta a si mesmo.
É necessário aprender sua doutrina, certamente, mas o discipulado vai além do conhecimento de proposições. O cristão é chamado a assumir “os mesmos sentimentos de Cristo Jesus” (cf. Fl 2,5). A verdade recebida deve formar o interior e aparecer na conduta.
A primeira virtude mencionada é a mansidão. Ela não deve ser confundida com fraqueza, covardia ou ausência de firmeza. O próprio Jesus que se declara manso denuncia a hipocrisia, expulsa os vendedores do Templo e enfrenta aqueles que procuram desviá-lo de sua missão. Mansidão é força submetida à verdade e à caridade. É domínio das paixões desordenadas, especialmente da ira, de modo que a firmeza não se converta em violência pecaminosa.
No Sermão da Montanha, Jesus proclama: “Bem-aventurados os mansos” (Mt 5,5). Mais tarde, Mateus aplicará a ele a profecia do rei que entra em Jerusalém “manso e montado num jumento” (Mt 21,5). Cristo não apenas ensina a mansidão: ele a encarna.
Sua Paixão mostrará o ponto mais elevado dessa virtude. Diante da injustiça, Jesus não abandona a verdade; diante da violência, não responde com ódio; diante daqueles que o crucificam, oferece-se ao Pai. Sua mansidão não é impotência, mas a forma santa sob a qual o poder de sua caridade se manifesta.
A segunda virtude é a humildade. Também ela costuma ser mal compreendida. Humildade não significa negar os dons recebidos, considerar-se inútil ou cultivar uma imagem artificialmente depreciativa de si mesmo. A humildade habita a verdade.
Jesus pode dizer, sem qualquer contradição, que todas as coisas lhe foram entregues pelo Pai (Mt 11,27) e, logo depois, apresentar-se como “humilde de coração”. Sua humildade não consiste em desconhecer quem ele é. Consiste, em sua humanidade santíssima, na perfeita ordenação ao Pai, sem qualquer sombra de soberba, vanglória ou desobediência.
É essa humildade que aparece admiravelmente no mistério da Encarnação e da Paixão. São Paulo contempla Cristo que, existindo na condição divina, assumiu a condição de servo, humilhou-se e tornou-se obediente até a morte de cruz (Fl 2,5–8). Não se trata de desprezo pela natureza humana, mas de amor obediente.
Os antigos mestres cristãos viram em Mt 11,29 uma escola indispensável à santidade. Na tradição recolhida por São Tomás de Aquino na Catena Aurea, Santo Agostinho relaciona o crescimento espiritual ao fundamento da humildade; Rábano Mauro associa o aprendizado de Cristo à mansidão exterior e à humildade interior; São João Crisóstomo ressalta o repouso que a humildade produz na alma; e São Gregório Magno mostra como a desordem dos desejos torna pesados os fardos que a vontade de Deus ordena.
Há ainda uma palavra decisiva: “coração”. Na linguagem bíblica, o coração não designa somente o sentimento. É o centro interior da pessoa, das escolhas, dos afetos, dos pensamentos e das decisões morais. Jesus não afirma apenas que pratica ocasionalmente gestos mansos. Ele é “manso e humilde de coração”.
A escola de Cristo é, portanto, uma escola de transformação interior. Não basta controlar exteriormente a irritação enquanto o coração alimenta rancor. Não basta pronunciar palavras modestas enquanto desejamos superioridade e reconhecimento. O discípulo pede que aquilo que está no Coração do Mestre comece também a tomar forma em seu próprio coração.
É justamente aí que o repouso se torna compreensível. O orgulho é cansativo porque precisa defender continuamente uma imagem de si. A vaidade depende do olhar alheio. O ressentimento obriga a carregar permanentemente a dívida do outro. A necessidade de controle exige dominar aquilo que não está em nosso poder. A humildade e a mansidão rompem essas cadeias porque recolocam a criatura na verdade diante de Deus.
2.5. O Coração de Jesus e o repouso do discípulo
A expressão “humilde de coração” torna Mt 11,29 uma passagem especialmente preciosa para a espiritualidade do Sagrado Coração de Jesus. É preciso, porém, compreender essa relação com precisão. Mateus não está descrevendo todas as formas devocionais que se desenvolveriam séculos depois. Mas o fundamento bíblico é real: o próprio Cristo abre, por assim dizer, seu interior ao discípulo e diz: “aprendei de mim”.
A devoção ao Sagrado Coração não consiste em separar um aspecto de Jesus do mistério inteiro de sua Pessoa. O coração que a Igreja venera é o verdadeiro coração humano do Verbo encarnado. Aquele que é Deus verdadeiro tornou-se verdadeiramente homem; amou humanamente com uma humanidade inseparavelmente unida à Pessoa divina do Filho.
Por isso, contemplar o Coração de Cristo é contemplar o amor daquele que se fez carne, obedeceu ao Pai, teve compaixão dos pecadores, chorou diante do túmulo de Lázaro, acolheu os pequenos, perdoou, sofreu e entregou a vida.
O Catecismo recorda que Jesus, durante sua vida, agonia e Paixão, conheceu e amou cada pessoa humana e se entregou por todos; seu Coração manifesta esse amor do Redentor (CIC 478). Mais adiante, ao tratar da oração cristã, afirma que a Igreja honra o Coração de Jesus, “que, por amor dos homens, se deixou trespassar pelos nossos pecados” (CIC 2669).
Essa tradição encontra expressão magisterial particularmente rica na encíclica Haurietis aquas, de Pio XII, que apresenta a devoção ao Sagrado Coração em íntima ligação com o mistério da Encarnação e com o amor divino e humano de Cristo. O Coração não é tratado como um objeto isolado, mas como sinal natural e profundamente expressivo do amor do Redentor.
O Evangelho de João conduz essa contemplação ao Calvário: depois da morte de Jesus, “um dos soldados abriu-lhe o lado com uma lança, e imediatamente saiu sangue e água” (Jo 19,34). Aquele que em Mateus revela o Coração manso e humilde é o mesmo cujo lado será aberto na Cruz. O repouso oferecido aos cansados não é uma consolação barata: custou a entrega do Filho.
Por isso, a verdadeira devoção ao Coração de Jesus não pode terminar no sentimento. O próprio Evangelho determina sua consequência: “aprendei de mim”.
Contemplar deve conduzir à imitação.
Quem se aproxima do Coração manso de Cristo deve perguntar como trata aqueles que o contrariam. Quem contempla sua humildade precisa examinar a própria necessidade de aprovação. Quem se refugia em sua misericórdia deve aprender a perdoar. Quem adora sua obediência filial deve abandonar a resistência habitual à vontade de Deus.
É aqui que Mt 11,28–30 toca concretamente nossa vida.
Muitos pesos que carregamos não foram colocados por Deus. São jugos que nós mesmos abraçamos: a comparação constante com os outros; o desejo de controlar o futuro; o apego à própria reputação; a recusa em perdoar; a ambição desordenada; pecados que não queremos abandonar; a ideia de que precisamos demonstrar constantemente nosso valor.
Cristo não nos chama a trocar esses pesos por uma existência vazia de deveres. Chama-nos a trocá-los pelo seu jugo.
Essa troca acontece de modo concreto na vida da Igreja. Na Confissão, o pecador abandona o peso da culpa pela misericórdia sacramental de Cristo. Na Eucaristia, recebe aquele que se entregou por ele e é fortalecido para oferecer a própria vida. Na oração, aprende a entregar ao Pai aquilo que não pode controlar. Na meditação da Palavra, sua inteligência é formada pela verdade. Na prática dos mandamentos, sua liberdade aprende a desejar o bem. Na mansidão e na humildade exercitadas diariamente, o Coração do Mestre começa a imprimir sua forma na vida do discípulo.
Isso não significa que toda angústia desapareça imediatamente nem que a fidelidade deixe de exigir combate. O cristão não deve confundir promessa evangélica com garantia de conforto psicológico permanente. Existem sofrimentos que pedem perseverança prolongada; existem cruzes que acompanham anos inteiros; existem momentos em que a consolação sensível parece ausente.
Mesmo então permanece verdadeiro: “Vinde a mim”.
O descanso fundamental não é sentir sempre que tudo está bem. É pertencer a Cristo quando nem tudo está bem. É saber que a última palavra sobre nossa vida não pertence ao medo, ao pecado, ao sofrimento nem à morte, mas ao Senhor que nos chamou para si.
CONCLUSÃO
Ao início, parecia haver um paradoxo: Cristo promete repouso e oferece um jugo. Ao final, percebemos que as duas coisas não se opõem. O homem não encontra paz simplesmente quando elimina toda exigência, mas quando sua vida volta à ordem para a qual foi criada.
“Vinde a mim”: aqui começa o abandono da autossuficiência. O cansado reconhece que não pode ser o próprio salvador e aproxima-se do Filho.
“Tomai sobre vós o meu jugo”: a fé torna-se obediência. Cristo não é apenas consolador nas horas difíceis; é Senhor de toda a existência.
“Aprendei de mim”: o discipulado penetra o coração. Não basta estar exteriormente perto de Jesus; é preciso aprender sua mansidão, sua humildade, sua confiança e sua obediência ao Pai.
“Encontrareis descanso”: a promessa se cumpre progressivamente numa alma reconciliada, cuja vontade começa a repousar na vontade de Deus.
Nada disso elimina a cruz. O cristão continua sujeito ao trabalho, às limitações, às perdas e ao sofrimento. Também continua chamado ao combate contra o pecado e à perseverança no bem. Contudo, já não carrega a vida como alguém abandonado apenas às próprias forças.
O jugo pertence àquele que é manso. O fardo é recebido daquele cujo Coração nos amou até a Cruz. A graça sustenta a obediência, a esperança ilumina o sofrimento e a caridade faz da vida uma resposta de amor.
O repouso de Mt 11,28–30 já começa aqui, mas não termina aqui. Toda paz concedida por Cristo é antecipação daquele repouso perfeito no qual Deus será nossa bem-aventurança sem fim.
Talvez, por isso, diante de tantos pesos, a primeira pergunta não seja: “Como conseguirei carregar tudo?”. A primeira palavra deve ser escutada novamente: “Vinde a mim”.
O Coração manso e humilde de Jesus permanece aberto ao cansado. Nele aprendemos que não precisamos compreender todos os caminhos antes de confiar, nem eliminar todas as cruzes antes de encontrar paz. Precisamos ir a ele, receber seu jugo e permanecer em sua escola.
É então que a alma começa verdadeiramente a repousar.
ORAÇÃO DE ENCERRAMENTO
Senhor Jesus Cristo, eu venho a ti com meus trabalhos, preocupações, pecados e fraquezas. Muitas vezes procurei repouso onde meu coração não podia encontrá-lo e tentei carregar sozinho aquilo que somente tua graça pode ordenar e sustentar. Faz-me ouvir novamente tua voz: “Vinde a mim”. Recebe o que pesa sobre minha alma e restaura em mim aquilo que o pecado, o medo e a autossuficiência feriram.
Jesus, manso e humilde de coração, coloca sobre mim o teu jugo e ensina-me em tua escola. Livra-me do orgulho, da dureza, do ressentimento e da necessidade de controlar todas as coisas. Dá-me uma mansidão firme na verdade, uma humildade sem falsidade e uma obediência filial à vontade do Pai. Que teu Coração forme o meu e que eu aprenda a amar, perdoar, servir e sofrer unido a ti.
Quando a cruz pesar, não permitas que eu me afaste de ti. Sustenta-me com tua graça, fortalece-me nos sacramentos e conserva-me fiel na oração. Dá-me já nesta vida o repouso de uma consciência reconciliada e de um coração entregue a Deus; e, terminado meu caminho, conduz-me ao repouso eterno na presença do Pai, contigo e no Espírito Santo. Amém.
Mateus 11, 28-30
28 Vinde a mim, todos vós que labutais e estais sobrecarregados, e eu vos restaurarei.
29 Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas.
30 Pois o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve.




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