A Batalha de Lepanto e o Rosário: quando a Cristandade confiou sua causa a Nossa Senhora
INTRODUÇÃO
No dia 7 de outubro de 1571, as águas do Mediterrâneo tornaram-se cenário de uma das mais memoráveis batalhas da história cristã. Próximo às ilhas Equínades, à entrada do golfo de Patras, a frota da Liga Santa encontrou a poderosa armada do Império Otomano. Centenas de embarcações, dezenas de milhares de homens e o futuro de importantes posições cristãs no Mediterrâneo estavam envolvidos naquele confronto. Ao cair da tarde, a frota otomana havia sofrido uma derrota devastadora, milhares de cativos cristãos tinham sido libertados e a notícia de Lepanto começava a entrar para a memória da Igreja.
A batalha, porém, não seria recordada apenas por seus comandantes, seus canhões ou pela coragem dos homens que combateram sobre as galés. Desde muito cedo, outro nome ficou inseparavelmente ligado àquele 7 de outubro: o Rosário.
São Pio V, papa dominicano e grande reformador da Igreja, havia trabalhado incansavelmente para reunir os príncipes cristãos numa aliança capaz de enfrentar o avanço otomano. Ao esforço diplomático e militar, uniu uma intensa confiança na oração e na intercessão da Virgem Maria. O Rosário, cuja recitação o pontífice já promovia antes da campanha de 1571, tornou-se parte da grande súplica que acompanhou a expedição.
Dois anos depois da batalha, o papa Gregório XIII recordaria oficialmente as orações oferecidas pelas confrarias do Rosário naquele primeiro domingo de outubro e sua associação com a vitória. Séculos mais tarde, Leão XIII retomaria a mesma memória ao ensinar os fiéis sobre o poder dessa oração mariana.
Lepanto tornou-se, assim, mais do que uma página de história militar. Para a tradição católica, permanece como testemunho da Providência de Deus, da intercessão materna de Nossa Senhora e da força da oração perseverante quando os cristãos atravessam horas de perigo.

LEPANTO E O ROSÁRIO: FÉ, COMBATE E PROVIDÊNCIA
O Mediterrâneo sob ameaça e a formação da Liga Santa
Na segunda metade do século XVI, o Império Otomano era uma das grandes potências do mundo. Seus domínios estendiam-se por vastas regiões da Ásia, do norte da África e do sudeste europeu, enquanto sua frota exercia forte pressão sobre o Mediterrâneo. A tomada de Constantinopla em 1453 já havia alterado profundamente o equilíbrio político do Oriente cristão, e nas décadas seguintes a expansão otomana continuou a atingir territórios e rotas marítimas de grande importância.
Em 1565, o grande cerco de Malta mostrou a força dessa expansão e também a capacidade de resistência dos defensores cristãos. Poucos anos depois, porém, a atenção otomana voltou-se para Chipre, ilha pertencente à República de Veneza. Em 1570, começou a campanha de conquista. Nicósia caiu, e Famagusta resistiu durante meses antes de capitular em 1º de agosto de 1571. A perda de Chipre atingia diretamente os interesses venezianos e confirmava a gravidade da situação no Mediterrâneo oriental.
A união dos poderes cristãos, entretanto, estava longe de ser simples. Veneza possuía importantes interesses comerciais e queria recuperar seus territórios. Filipe II da Espanha precisava considerar suas responsabilidades na Península Ibérica, no norte da África, na Itália e em outros vastos domínios da Monarquia Hispânica. Gênova, os Estados Pontifícios e os demais principados italianos também possuíam preocupações particulares. Rivalidades políticas, interesses econômicos e desconfianças recíprocas dificultavam uma ação comum.
Foi nesse cenário que se destacou a perseverança de São Pio V.
Eleito papa em 1566, Michele Ghislieri era dominicano e trazia consigo a austeridade própria de um homem formado na vida religiosa. Seu pontificado ficou profundamente ligado à aplicação da reforma católica e às determinações do Concílio de Trento. Diante da ameaça no Mediterrâneo, compreendeu que os príncipes cristãos precisavam superar suas divisões ao menos o suficiente para uma defesa comum.
A diplomacia pontifícia trabalhou intensamente para tornar possível a aliança. Em 25 de maio de 1571, representantes da Santa Sé, da Monarquia Hispânica e de Veneza formalizaram a Liga Santa. Outros contingentes se uniram à expedição: genoveses, saboianos, toscanos, forças de diferentes territórios italianos e cavaleiros da Ordem de Malta participariam do esforço.
O comando supremo foi confiado a Dom João de Áustria, filho natural do imperador Carlos V e meio-irmão de Filipe II. Tinha apenas 24 anos. Ao seu lado estavam comandantes experientes como Marcantonio Colonna, representante das forças pontifícias; Sebastiano Venier, ligado ao contingente veneziano; Gian Andrea Doria; Agostino Barbarigo; e Álvaro de Bazán, marquês de Santa Cruz.
A reunião dessas forças já constituía uma realização considerável. A frota não era formada por homens de um único reino, submetidos desde sempre à mesma cadeia de comando. Havia rivalidades e diferenças de interesses, de disciplina e até de temperamento entre os chefes. Dom João precisou exercer autoridade sobre uma coalizão cuja unidade era indispensável para a batalha.
São Pio V acompanhava esses esforços com a consciência de que a prudência humana deveria ser empregada até o limite. Enviou recursos, favoreceu negociações, apoiou a formação da armada e insistiu na unidade. Sua confiança em Deus jamais assumiu a forma de passividade. A mesma fé que o levava à oração o impelia a agir.
Essa disposição é importante para compreender Lepanto. A esperança cristã não dispensou navios, comandantes, disciplina e sacrifício. Na vida dos santos, confiar na Providência nunca significou cruzar os braços diante do dever. Pio V trabalhava como se muito dependesse da responsabilidade dos homens e rezava sabendo que toda história permanece sob o governo de Deus.
São Pio V e o Rosário: uma Igreja que combate de joelhos
Quando a Liga Santa se preparava para enfrentar a armada otomana, o Rosário já ocupava um lugar importante na vida espiritual de São Pio V. Sua associação com Lepanto não nasceu somente depois da vitória.
Em 17 de setembro de 1569, dois anos antes da batalha, o papa havia promulgado a bula Consueverunt Romani Pontifices. Nesse documento, apresentou e promoveu a oração do Rosário, vinculando-a à tradição dominicana e à meditação dos mistérios de Cristo. A forma então difundida compreendia cento e cinquenta Ave-Marias, intercaladas com Pai-Nossos, enquanto o fiel meditava os mistérios da vida de Nosso Senhor.
Esse ponto revela o verdadeiro coração do Rosário. Embora seja profundamente mariano, ele conduz continuamente a Cristo. Na Ave-Maria, a Igreja repete a saudação do anjo e a bênção de Isabel; nos mistérios, contempla a Encarnação, a vida, a Paixão e a glória do Salvador. Maria é aquela que, como em Caná, conduz os servos ao Filho e lhes ensina a fazer tudo aquilo que ele disser.
Ao longo da Idade Média, diferentes formas de saltério mariano e de repetição das Ave-Marias haviam preparado o desenvolvimento da devoção. No século XV, a pregação dominicana e a expansão das confrarias contribuíram fortemente para sua difusão. Quando Pio V o promoveu no século XVI, portanto, já existiam comunidades de fiéis organizadas em torno dessa prática de oração.
Diante da campanha de 1571, o papa recorreu justamente a essa força espiritual. Orações foram promovidas e confrarias do Rosário participaram da súplica pela expedição. Enquanto a armada reunia seus navios e se preparava para avançar pelo Mediterrâneo, muitos cristãos que jamais empunhariam uma espada ou pisariam numa galé combatiam de outra maneira: ajoelhavam-se diante de Deus e recorriam à intercessão de Nossa Senhora.
A imagem é profundamente católica. Na Igreja, nem todos recebem a mesma missão, mas todos podem cooperar no Corpo de Cristo. Alguns homens estavam destinados ao combate no mar; outros ofereciam suas orações. Havia os que trabalhavam nas negociações, os que remavam, os que comandavam embarcações, os que serviam como soldados e os fiéis que elevavam a Deus suas súplicas. A vitória desejada envolvia responsabilidades diferentes reunidas numa mesma esperança.
A própria armada cristã partiu sob um forte simbolismo religioso. O principal estandarte associado à Liga trazia o Crucificado e as armas dos aliados e foi entregue solenemente a Dom João de Áustria. A cruz erguida sobre a frota recordava aos combatentes que sua esperança última não estava apenas na força material.
Muitos dos homens que partiram para a campanha viviam num mundo em que a preparação para a guerra e a preparação da alma não pertenciam a universos separados. Capelães acompanhavam exércitos e frotas; a Missa, a confissão e as práticas de piedade faziam parte da vida dos católicos. Entre esses homens, muitos certamente recorreram à oração durante uma expedição cujo resultado permanecia incerto.
Ao mesmo tempo, longe do campo de batalha, o Rosário passava de mão em mão nas confrarias. Seu ritmo conhecido — Ave-Maria após Ave-Maria, mistério após mistério — unia famílias, religiosos e fiéis numa súplica que não precisava compreender os detalhes da estratégia naval para saber pelo que rezava.
Anos depois, essa dimensão espiritual seria expressamente recordada pelo Magistério. Gregório XIII relacionaria as orações das confrarias à vitória, e Leão XIII evocaria novamente São Pio V recorrendo ao Rosário enquanto os combatentes cristãos enfrentavam o inimigo no mar. A memória católica de Lepanto conservaria, portanto, duas cenas simultâneas: os navios avançando para o combate e o povo cristão confiando sua causa à Mãe de Deus.
7 de outubro de 1571: o dia da Batalha de Lepanto
Em setembro de 1571, a frota da Liga Santa concentrou-se em Messina e depois avançou para o leste. No início de outubro, tornou-se claro que o grande confronto se aproximava. Finalmente, na manhã de 7 de outubro, cristãos e otomanos avistaram-se nas águas próximas às ilhas Equínades.
A dimensão das duas forças impressionava. A Liga Santa dispunha de aproximadamente 206 galés e seis grandes galeaças venezianas. A frota otomana contava com mais galés e numerosas galéotas. Somados marinheiros, soldados e remadores, dezenas de milhares de homens encontravam-se diante de uma batalha que seria travada a curta distância e com extrema violência.
Dom João de Áustria organizou sua força em diferentes corpos. Agostino Barbarigo comandava a ala esquerda, junto à costa. O próprio Dom João ocupava o centro na galé Real, acompanhado por Marcantonio Colonna e Sebastiano Venier. Gian Andrea Doria comandava a ala direita. Atrás da linha principal estava a reserva de Álvaro de Bazán, cuja intervenção se mostraria decisiva durante o combate.
Do lado otomano, Ali Paxá comandava o centro a bordo da Sultana. Şuluk Mehmed dirigia a ala voltada para Barbarigo, enquanto Uluç Ali comandava a outra extremidade da formação.
Antes do choque entre as linhas, as seis galeaças venezianas abriram fogo. Eram embarcações maiores e fortemente armadas, capazes de disparar sua artilharia sobre a aproximação inimiga. Seus canhões desorganizaram partes da formação otomana e causaram danos antes que começasse o confronto direto.
Depois veio o choque.
A guerra de galés tinha uma brutalidade própria. Quando as embarcações se aproximavam, artilharia e armas de fogo davam lugar rapidamente a abordagens, lanças, espadas e combate corpo a corpo. Os conveses convertiam-se em pequenos campos de batalha flutuantes. Soldados tentavam tomar o navio adversário enquanto marinheiros, remadores e combatentes lutavam em espaços apertados sob fumaça, fogo e gritos.
No centro, a Real de Dom João e a Sultana de Ali Paxá travaram um dos combates mais violentos do dia. Repetidas investidas ocorreram sobre as duas capitânias. A infantaria embarcada da Liga e seu poder de fogo tiveram grande importância. Ali Paxá morreu durante a luta, e a perda da capitânia otomana abalou profundamente o centro de sua formação.
Na ala esquerda cristã, Barbarigo combateu para impedir que as forças inimigas envolvessem a linha pela costa. Foi mortalmente ferido, mas seus homens conseguiram prevalecer. Na direita, a situação tornou-se perigosa quando as manobras de Doria abriram um espaço entre sua ala e o centro. Uluç Ali aproveitou a oportunidade e atacou as embarcações expostas. A reserva comandada por Álvaro de Bazán avançou e contribuiu para impedir que aquela brecha alterasse o resultado da batalha.
As condições do vento também aparecem nas narrativas do combate. Alterações durante a aproximação e a luta afetavam embarcações que dependiam, em diferentes graus, de velas e remos. Para os homens de fé que viveram e recordaram aquele dia, também essas circunstâncias puderam ser recebidas dentro de uma leitura providencial dos acontecimentos.
Ao fim de horas de combate, a vitória da Liga Santa era incontestável. Grande parte da frota otomana havia sido destruída, capturada ou abandonada. Ali Paxá estava morto. Apenas uma parcela das forças, sobretudo sob Uluç Ali, conseguiu retirar-se com maior ordem.
O preço pago pelos cristãos foi alto. Milhares morreram e muitos outros ficaram feridos. Entre os combatentes encontrava-se Miguel de Cervantes, futuro autor de Dom Quixote, que recebeu ferimentos no peito e na mão esquerda e conservaria durante toda a vida o orgulho de ter participado daquela jornada.
Um dos frutos mais comoventes da vitória foi a libertação de aproximadamente 12 mil a 15 mil cativos cristãos empregados nos remos das galés otomanas. Homens que haviam conhecido as correntes e o trabalho forçado viram, naquela tarde, seus grilhões rompidos.
Quando o sol começou a descer sobre as águas cobertas de destroços, Lepanto já havia entrado para a história. A frota da Liga permanecia de pé, a armada adversária sofrera uma perda extraordinária e os cristãos tinham diante dos olhos uma vitória pela qual muitos outros, longe dali, estavam rezando.
A vitória recebida sob o olhar de Nossa Senhora
A notícia de Lepanto não podia atravessar o Mediterrâneo com a velocidade das comunicações modernas. Dom João de Áustria escreveu a Filipe II em 10 de outubro anunciando o resultado da batalha, mas Roma ainda precisaria aguardar a chegada ordinária das informações.
É nesse intervalo que se situa uma das tradições mais conhecidas da vida de São Pio V.
Segundo o relato transmitido por Girolamo Catena em sua Vita del gloriosissimo papa Pio Quinto, publicada em Roma em 1586, o pontífice encontrava-se reunido com colaboradores quando interrompeu subitamente os assuntos que estavam sendo tratados. Aproximou-se de uma janela, permaneceu recolhido por algum tempo e então teria anunciado que aquele não era momento para outros negócios, mas para dar graças a Deus, porque a armada cristã havia vencido.
A tradição permaneceu viva na memória católica e foi posteriormente recordada, com a devida sobriedade, também por Bento XV. Para gerações de fiéis, a cena tornou-se uma das imagens características de São Pio V: o velho pontífice dominicano em Roma, espiritualmente unido a uma batalha travada a grande distância e elevando imediatamente a vitória a Deus.
Independentemente de tudo aquilo que permanece escondido no mistério da ação divina sobre as almas, a reação da Igreja diante de Lepanto é clara: foi uma reação de ação de graças.
São Pio V não considerou a vitória uma simples ocasião para exaltar poder político ou capacidade militar. O triunfo foi colocado diante de Deus e ligado à proteção da Virgem Maria. O papa morreria poucos meses depois, em 1º de maio de 1572, mas a memória mariana da batalha continuaria a desenvolver-se.
O testemunho pontifício mais próximo e explícito dessa relação surgiu sob seu sucessor. Em 1573, Gregório XIII promulgou a bula Monet Apostolus. Ao tratar da celebração do Rosário, o documento recordou que, justamente naquele primeiro domingo de outubro em que ocorreu a batalha, confrarias dedicadas a essa oração haviam oferecido suas súplicas. A vitória foi piedosamente associada a essas orações.
Esse testemunho possui grande importância para a espiritualidade de Lepanto porque mostra que a união entre Rosário e batalha já estava presente na memória eclesial imediatamente posterior aos acontecimentos. Não se tratava apenas da lembrança particular de alguns combatentes, mas de uma interpretação acolhida oficialmente na vida da Igreja.
Séculos depois, Leão XIII voltou a Lepanto na encíclica Supremi Apostolatus Officio, de 1º de setembro de 1883. O grande papa do Rosário recordou São Pio V procurando reunir as forças cristãs e recorrendo, acima de tudo, ao auxílio da Virgem por meio dessa oração. De um lado estavam os que enfrentavam o perigo com as armas; de outro, a multidão de fiéis que recorria espiritualmente a Maria.
Essa recordação ilumina o modo católico de compreender a vitória.
A Providência de Deus não elimina a ação das criaturas. O Catecismo da Igreja Católica ensina que Deus, ao conduzir sua criação, concede às criaturas a dignidade de cooperarem com sua ação e de serem verdadeiras causas umas para as outras (CIC 302–308). Por isso, é inteiramente católico reconhecer a competência dos comandantes de Lepanto, o poder da artilharia, a atuação das galeaças, a coragem dos soldados, a intervenção da reserva e todas as circunstâncias concretas da batalha, vendo ao mesmo tempo naquele conjunto de acontecimentos a mão providente de Deus.
A oração pertence também a essa cooperação. Deus, que conhece todas as coisas desde a eternidade, quis conceder aos homens a dignidade de pedir, interceder e oferecer. Quando a Igreja reza, ela não informa a Deus aquilo que ele desconhece nem pretende forçá-lo a agir; entra livremente na ordem de sua Providência.
Assim deve ser compreendido o lugar do Rosário em Lepanto. As contas passadas entre os dedos dos fiéis não substituíram o dever dos combatentes. A espada do soldado não tornou inútil a oração dos que permaneceram longe do mar. Ambos pertenciam, segundo modos diferentes, à mesma confiança em Deus.
E no centro dessa súplica estava Maria, não como uma força separada de Cristo, mas como Mãe e intercessora inteiramente dependente de seu Filho. Toda verdadeira devoção mariana conduz a Jesus. Em Lepanto, o Rosário oferecia precisamente esse caminho: contemplar Cristo com Maria enquanto se pedia auxílio na tribulação.
De Lepanto à festa de Nossa Senhora do Rosário
A gratidão pela vitória de 1571 não desapareceu quando as embarcações regressaram aos portos. Pouco a pouco, a memória de Lepanto encontrou expressão estável na vida devocional e litúrgica da Igreja.
Em 5 de março de 1572, São Pio V concedeu, por meio de Salvatoris Domini nostri, uma celebração ligada ao Rosário à confraria de Martorell, na Catalunha. O pontífice morreria em maio daquele ano. Seu sucessor, Gregório XIII, deu novo passo em 1573 com Monet Apostolus, estabelecendo a festa do Rosário no primeiro domingo de outubro nas igrejas que possuíam altar ou capela da confraria.
A data guardava evidentemente a memória de Lepanto, pois em 1571 o primeiro domingo de outubro havia sido precisamente o dia 7.
A celebração continuou a se expandir nos séculos seguintes. Clemente X ampliou-a para a Espanha em 1671. Em 1716, Clemente XI estendeu a festa à Igreja universal, depois de novas vitórias cristãs sobre o poder otomano. Em 1913, São Pio X fixou sua celebração em 7 de outubro. É nessa data que a Igreja continua hoje a celebrar Nossa Senhora do Rosário.
O desenvolvimento da festa mostra como um acontecimento histórico pode ser recebido, rezado e progressivamente integrado à memória litúrgica do povo cristão. Lepanto pertence a um tempo e a circunstâncias políticas determinadas, mas aquilo que a Igreja reconheceu espiritualmente naquele acontecimento ultrapassa o século XVI.
O Rosário tornou-se uma escola de perseverança.
Cada Ave-Maria é simples. Nenhuma exige conhecimentos extraordinários. A força dessa oração encontra-se justamente na humilde repetição unida à contemplação dos mistérios de Cristo. O fiel volta continuamente ao Evangelho: a Anunciação, o nascimento do Senhor, seus sofrimentos, sua Ressurreição, sua glória. Enquanto os lábios rezam, a inteligência e o coração são chamados a permanecer junto de Jesus com Maria.
Leão XIII dedicou numerosas encíclicas à promoção do Rosário e recorreu diversas vezes à memória de Lepanto. Para ele, a antiga vitória continuava ensinando que a Igreja deve procurar na oração auxílio para as tribulações de cada época.
São João Paulo II, em Rosarium Virginis Mariae, chamou o Rosário de oração de caráter profundamente cristológico e recordou sua particular aptidão para pedir a paz. A mesma oração associada durante séculos à memória de uma batalha conduz a Igreja a suplicar para que os homens encontrem a paz verdadeira em Cristo.
Esse aparente contraste contém uma profunda verdade espiritual. O cristão não reza porque deseja a guerra. Reza porque sabe que o pecado introduziu conflitos no coração humano e na história e porque deseja que a justiça, a verdade e a paz prevaleçam. Há momentos em que homens são chamados a defender outros homens; há sempre, porém, a necessidade de combater espiritualmente contra aquilo que nos afasta de Deus.
Nesse sentido, Lepanto fala também às batalhas silenciosas da vida cristã.
Há famílias que atravessam crises e precisam perseverar. Há pessoas que combatem vícios antigos e pecados recorrentes. Há enfermos que enfrentam longos sofrimentos. Há cristãos perseguidos, sacerdotes desanimados, pais preocupados com os filhos, jovens que procuram permanecer fiéis num ambiente contrário à fé. Para cada um deles, o Rosário continua oferecendo a mesma escola de confiança.
A pessoa que toma o terço nas mãos reconhece, antes de tudo, que não basta a si mesma. Volta-se para Deus, contempla Cristo e pede a intercessão daquela que permaneceu fiel da Anunciação ao Calvário e do Calvário à alegria da Ressurreição.
Lepanto recorda também que oração e dever não devem ser separados. São Pio V trabalhou incansavelmente para formar a Liga e rezou. Dom João precisou comandar e decidir. Os soldados tiveram de permanecer em seus postos. Os fiéis elevaram suas súplicas. Cada um respondeu segundo sua vocação e sua responsabilidade.
Essa é uma das heranças mais preciosas do 7 de outubro de 1571. Diante de perigos que parecem maiores do que nossas forças, a fé não nos permite escolher entre agir e rezar. O cristão age com prudência, coragem e responsabilidade precisamente porque confia em Deus; e reza porque sabe que os melhores esforços humanos continuam necessitados da graça.
Quando a Igreja celebra Nossa Senhora do Rosário em 7 de outubro, essa memória permanece viva. O som dos canhões de Lepanto pertence ao passado. As Ave-Marias continuam sendo rezadas.
CONCLUSÃO
A Batalha de Lepanto permanece como uma das grandes imagens da história da Cristandade. Naquele 7 de outubro de 1571, homens vindos de diferentes territórios e submetidos a diferentes soberanos combateram lado a lado numa coalizão cuja própria formação exigira enorme esforço. Dom João de Áustria conduziu a armada da Liga Santa; soldados e marinheiros enfrentaram horas de luta terrível; milhares morreram; milhares ficaram feridos; mais de dez mil cativos cristãos encontraram a liberdade.
Por trás da organização política que tornou possível aquela frota estava a perseverança de São Pio V. O papa mobilizou a diplomacia, empregou os recursos de que dispunha e insistiu para que antigos rivais cooperassem. Mas sabia também que a história não repousa apenas sobre os cálculos dos poderosos. Por isso recorreu à oração e incentivou os fiéis a buscar o auxílio de Nossa Senhora pelo Rosário.
A Igreja guardou essa memória.
Gregório XIII recordou as súplicas das confrarias e vinculou a festa do Rosário ao primeiro domingo de outubro. A celebração atravessou os séculos, expandiu-se e chegou à Igreja universal. Leão XIII voltou a apresentar Lepanto aos católicos como exemplo da confiança depositada na oração mariana. Até hoje, em 7 de outubro, a liturgia nos coloca diante de Nossa Senhora do Rosário.
O verdadeiro legado de Lepanto encontra-se nessa união entre confiança em Deus e fidelidade ao dever. A Providência não torna desnecessária a coragem humana; ela dá à ação humana seu lugar correto diante de Deus. E a intercessão de Maria jamais afasta de Cristo, porque toda a grandeza da Mãe procede daquele Filho que ela nos entrega.
Talvez por isso a imagem mais duradoura de Lepanto não seja apenas a das galés alinhadas sobre o Mediterrâneo. É também a de incontáveis mãos segurando humildemente as contas do Rosário.
Impérios passam. Frotas desaparecem. As batalhas deixam de ecoar.
A oração da Igreja permanece.
ORAÇÃO DE ENCERRAMENTO
Nossa Senhora do Rosário, Mãe de Deus e nossa Mãe, ensina-nos a permanecer junto de Jesus em todas as provações. Assim como gerações de cristãos recorreram à tua intercessão nas horas de perigo, alcança-nos fé firme, esperança perseverante e coragem para cumprir fielmente os deveres que Deus nos confia.
Virgem Santíssima, intercede pelos que sofrem, pelos perseguidos, pelos cativos, pelos povos atingidos pela guerra e pelas famílias provadas pela dor. Alcança aos governantes sabedoria e prudência, aos que defendem os inocentes fortaleza e aos cristãos a graça de recorrerem sempre à oração com humildade e confiança.
Nossa Senhora do Rosário, conduz-nos ao teu Filho. Que em cada mistério aprendamos a conhecer Jesus, amar sua vontade e permanecer fiéis à sua graça. Nas batalhas visíveis e invisíveis desta vida, guarda-nos junto de Cristo, para que um dia possamos participar de sua vitória eterna. Amém.
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