A Transfiguração do Senhor: Antecipação da Glória (Mt 17,1–8; Mc 9,2–8; Lc 9,28–36)
- escritorhoa
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INTRODUÇÃO
A Transfiguração do Senhor ocupa um lugar singular nos Evangelhos porque nos permite contemplar, por um breve instante, a glória daquele que pouco depois será entregue à humilhação da cruz. Mateus, Marcos e Lucas não apresentam esse acontecimento como um episódio isolado. Antes de subir ao monte, Jesus pergunta aos discípulos quem eles dizem que ele é. Pedro responde reconhecendo-o como o Cristo; em Mateus, a profissão é ainda mais explícita: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mt 16,16). Imediatamente, porém, Jesus começa a ensinar que deverá ir a Jerusalém, sofrer, ser rejeitado, morrer e ressuscitar (Mt 16,21; Mc 8,31; Lc 9,22).
É justamente aqui que aparece a dificuldade dos discípulos. Pedro consegue confessar o Messias, mas ainda não consegue aceitar o caminho do Messias. A ideia de um Cristo glorioso parece compreensível; o anúncio de um Cristo crucificado provoca resistência. Jesus, então, não retira sua palavra sobre a cruz. Ao contrário, amplia-a: quem quiser segui-lo deverá renunciar a si mesmo e tomar também a própria cruz (Mt 16,24; Mc 8,34; Lc 9,23).
É nesse contexto que Pedro, Tiago e João são conduzidos ao monte. Ali, o rosto de Jesus resplandece, suas vestes tornam-se luminosas, Moisés e Elias aparecem, uma nuvem envolve a cena e a voz do Pai se faz ouvir: “Este é o meu Filho amado […] escutai-o” (Mt 17,5).
A Transfiguração revela, portanto, uma verdade fundamental da fé cristã: a cruz não contradiz a glória de Cristo. O Filho que será humilhado no Calvário é o mesmo cuja majestade se manifesta no monte. A visão não é dada para dispensar os discípulos da Paixão, mas para prepará-los para atravessá-la sem perder a fé. A luz do monte antecipa a Ressurreição e ensina que, em Cristo, o caminho da cruz desemboca na glória.

2. A GLÓRIA REVELADA DO FILHO
2.1. Da confissão de Pedro ao monte: a glória à sombra da cruz
Para compreender a Transfiguração, é necessário começar pelos acontecimentos que imediatamente a precedem. Nos três Evangelhos Sinópticos, Jesus pergunta aos discípulos quem ele é. A resposta de Pedro marca um momento decisivo: “Tu és o Cristo” (Mc 8,29; cf. Lc 9,20). Mateus conserva a forma mais desenvolvida: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mt 16,16). A identidade messiânica de Jesus foi reconhecida, mas ainda precisa ser compreendida corretamente.
Logo depois dessa profissão de fé, Jesus anuncia sua Paixão. Mateus diz que ele “começou a mostrar aos seus discípulos que era necessário ir a Jerusalém e sofrer muito” (Mt 16,21). Marcos e Lucas conservam a mesma estrutura fundamental (Mc 8,31; Lc 9,22). Esse “é necessário” não deve ser entendido como fatalismo, como se Cristo fosse simplesmente vítima de forças históricas que escapassem ao governo de Deus. A Paixão pertence ao cumprimento do desígnio salvífico. Jesus caminha livremente para a hora em que entregará sua vida.
Pedro, porém, resiste. Aquele que acabara de professar a identidade de Cristo tenta afastá-lo do caminho da cruz. Jesus o repreende com severidade porque, naquele momento, Pedro raciocina segundo expectativas humanas de triunfo, não segundo o desígnio de Deus (Mt 16,22–23). A fé correta sobre quem Jesus é precisa ser acompanhada pela fé correta acerca da maneira pela qual ele realiza sua missão.
Essa correção torna-se ainda mais exigente quando Jesus estende o princípio aos discípulos: “Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e siga-me” (Mt 16,24). Em Lucas, a expressão ganha um tom particularmente concreto: tomar a cruz “cada dia” (Lc 9,23). A cruz deixa de ser apenas algo que acontecerá com Jesus e passa a constituir também a forma do discipulado cristão.
Então vem a Transfiguração. Mateus e Marcos dizem que ocorreu “seis dias depois”; Lucas escreve “cerca de oito dias depois” (Mt 17,1; Mc 9,2; Lc 9,28). Não há necessidade de construir um problema artificial a partir dessas formas antigas de contagem. O aspecto realmente importante é que todos vinculam estreitamente o monte ao ensinamento anterior.
A sequência é eloquente: profissão de fé, anúncio da Paixão, chamado à cruz e manifestação da glória. O Evangelho não nos permite escolher apenas uma dessas realidades. O Cristo glorioso é o Cristo crucificado; o Crucificado é aquele que ressuscitará.
São Leão Magno percebeu com especial profundidade essa ligação. Ao comentar a Transfiguração, apresenta sua finalidade como fortalecimento dos discípulos diante do escândalo da cruz: era necessário que a humilhação voluntária da Paixão não destruísse neles a fé na dignidade daquele que seria crucificado. A glória é mostrada antecipadamente não para retirar o Calvário do caminho, mas para revelar quem será aquele que subirá ao Calvário.
Isso corrige duas tentações espirituais opostas. A primeira deseja uma fé feita somente de vitória, consolação e êxito, como se a cruz fosse sinal da ausência de Deus. A segunda fixa-se tanto no sofrimento que perde de vista a Ressurreição. O Evangelho rejeita ambas: não há verdadeira espiritualidade cristã sem cruz, mas também não há cruz cristã sem esperança da glória.
2.2. “Transfigurou-se diante deles”: a glória que pertence ao Filho
Jesus toma consigo Pedro, Tiago e João e os conduz “a um monte elevado, à parte” (Mt 17,1). Marcos conserva praticamente a mesma indicação, enquanto Lucas acrescenta um detalhe precioso: Jesus “subiu ao monte para orar” (Lc 9,28). O evangelista frequentemente situa momentos decisivos da missão do Senhor em contexto de oração. Aqui, a transformação visível ocorre “enquanto ele orava” (Lc 9,29), colocando a manifestação no horizonte da comunhão filial de Jesus com o Pai.
Os Evangelhos não identificam nominalmente o monte. A tradição cristã associou desde muito cedo a Transfiguração ao monte Tabor, associação venerável que marcou a liturgia, a arte e a peregrinação cristãs. Entretanto, é conveniente distinguir a tradição de localização daquilo que o texto afirma explicitamente: Mateus e Marcos dizem apenas “um monte elevado”, e Lucas fala simplesmente do monte.
O centro da narrativa não é a geografia, mas a pessoa de Jesus. Mateus escreve que ele “foi transfigurado diante deles; seu rosto brilhou como o sol e suas vestes tornaram-se brancas como a luz” (Mt 17,2). Marcos detém-se na brancura extraordinária das vestes, impossível de ser reproduzida por qualquer artífice humano (Mc 9,3). Lucas afirma que “o aspecto de seu rosto tornou-se outro” e sua veste ficou fulgurante (Lc 9,29).
O verbo usado por Mateus e Marcos, do qual deriva nossa palavra “transfiguração”, indica uma mudança de aspecto. É preciso, contudo, compreender corretamente seu significado cristológico. Jesus não se torna Deus naquele momento. A Transfiguração não é a deificação repentina de um homem comum nem a substituição de sua humanidade por alguma realidade divina. Aquele que resplandece é o mesmo Filho eterno que assumiu verdadeiramente a natureza humana.
O que muda é a maneira pela qual sua dignidade se manifesta aos discípulos. Habitualmente, a glória divina do Filho permanece velada sob a condição ordinária de sua humanidade. No monte, por desígnio divino, algo dessa glória se torna sensivelmente perceptível. A Transfiguração é manifestação, não aquisição da divindade.
Por isso, a cena deve ser lida em harmonia com a fé cristológica da Igreja. O Filho é verdadeiro Deus e verdadeiro homem. A pessoa é una: o Jesus que sobe o monte, conversa com os discípulos, resplandece diante deles, toca-os quando estão prostrados e depois desce com eles é sempre o mesmo Senhor. Não há divisão de pessoas nem confusão das naturezas.
Também é significativo que Jesus escolha Pedro, Tiago e João. Os três aparecem em outros momentos decisivos. Estão presentes, por exemplo, na casa de Jairo (Mc 5,37) e serão levados mais tarde à proximidade da agonia de Jesus no Getsêmani (Mc 14,33). Aqueles que contemplam uma manifestação excepcional da glória verão também, de perto, o tremor e a tristeza da Paixão.
A justaposição é espiritualmente poderosa. No monte, verão o rosto resplandecente; no jardim, verão a angústia. Aqui, suas vestes brilham; na Paixão, serão objeto da ação dos soldados. Aqui, o Pai proclama sua identidade; depois, os homens zombarão de suas pretensões messiânicas. A fé dos Apóstolos terá de aprender a reconhecer o mesmo Filho em ambas as situações.
Também nossa fé é educada dessa maneira. Cristo não deixa de ser Senhor quando sua ação nos parece escondida. A verdade de Deus não depende da intensidade de nossas percepções espirituais. O monte oferece uma luz, mas essa luz deverá ser guardada quando chegar a noite.
2.3. Moisés, Elias e o “êxodo” de Jesus: toda a Escritura converge para Cristo
Enquanto Jesus está transfigurado, aparecem dois personagens fundamentais da história de Israel: Moisés e Elias. A tradição cristã viu neles, de modo muito natural, uma representação da Lei e dos Profetas. Essa interpretação não nasce de uma associação arbitrária. Moisés é o grande mediador da Lei e Elias ocupa lugar eminente na tradição profética. Ambos também estão ligados, no Antigo Testamento, a experiências de revelação de Deus no monte.
Moisés sobe ao Sinai, entra na nuvem e recebe a palavra divina (Ex 24,12–18). Mais tarde, depois de falar com Deus, seu rosto resplandece de tal maneira que os israelitas percebem nele o efeito daquele encontro (Ex 34,29–35). Elias, perseguido e abatido, caminha até o Horeb e ali experimenta a presença de Deus, não segundo os sinais que esperava, mas na misteriosa manifestação que o reconduz à sua missão (1Rs 19,8–18).
A Transfiguração retoma elementos familiares dessas teofanias: monte, glória, nuvem, voz, temor. Entretanto, não se trata simplesmente de uma repetição do Sinai ou do Horeb. Há uma novidade decisiva: o centro agora é Cristo. Moisés e Elias aparecem conversando com ele. Não formam três figuras de igual dignidade.
Lucas oferece uma chave especialmente importante ao revelar o tema da conversa: Moisés e Elias, “aparecendo em glória, falavam do seu êxodo, que ele estava para cumprir em Jerusalém” (Lc 9,30–31). O termo “êxodo” está carregado de ressonâncias bíblicas. Recorda naturalmente a libertação de Israel do Egito, a passagem da escravidão para a liberdade e a constituição do povo da Aliança. Aplicado a Jesus, porém, aponta para o acontecimento que se consumará em Jerusalém.
O êxodo de Cristo não deve ser reduzido apenas ao fato biológico de sua morte. Em Lucas, o horizonte é pascal: Jesus caminha para Jerusalém, onde sofrerá, morrerá, ressuscitará e entrará na glória. Por isso, justamente em meio à luminosidade do monte, a conversa se volta para a Páscoa. A glória não afasta o sacrifício; ilumina seu significado.
A presença de Moisés e Elias proclama, assim, a unidade da história da salvação. Cristo não vem destruir o que Deus revelou anteriormente. Ele mesmo havia declarado: “Não penseis que vim abolir a Lei ou os Profetas; não vim abolir, mas levar à plenitude” (Mt 5,17). Depois da Ressurreição, no caminho de Emaús, ele explicará “começando por Moisés e passando por todos os Profetas” aquilo que nas Escrituras dizia respeito a ele (Lc 24,27).
Pedro, impressionado pela visão, propõe construir três tendas: uma para Jesus, uma para Moisés e uma para Elias. Marcos observa que ele não sabia o que dizer; Lucas também afirma que não sabia o que estava dizendo (Mc 9,6; Lc 9,33). Há algo verdadeiro em sua reação: “É bom estarmos aqui”. É realmente bom estar junto de Cristo e contemplar sua glória. Mas a proposta ainda não exprime adequadamente a singularidade do Filho.
A resposta vem do céu. Moisés e Elias testemunham; o Pai indica quem deve ser ouvido. Depois da voz, os discípulos veem “Jesus somente” (Mt 17,8; Mc 9,8). Isso não representa desprezo pelo Antigo Testamento. Ao contrário: Lei e Profetas cumpriram sua função ao conduzir para Cristo. A Igreja não abandona Moisés e Elias; lê-os à luz daquele para quem eles apontam.
Santo Agostinho desenvolverá essa concentração cristológica ao apresentar Moisés e Elias como testemunhas da Lei e dos Profetas que convergem para Cristo. Tertuliano, combatendo a ruptura proposta pelo marcionismo entre o Deus do Antigo Testamento e o Evangelho de Cristo, também encontra na Transfiguração um testemunho da continuidade da única economia divina. O monte não separa as Alianças: mostra seu cumprimento no Filho.
2.4. “Este é o meu Filho amado: escutai-o” — revelação trinitária e obediência da fé
Quando Pedro ainda fala, a cena muda. “Uma nuvem luminosa os cobriu com sua sombra” e da nuvem veio uma voz (Mt 17,5). Marcos e Lucas conservam o mesmo núcleo. Para o leitor familiarizado com o Antigo Testamento, a nuvem é mais que um fenômeno atmosférico. Ela pertence ao vocabulário bíblico da presença divina.
A nuvem acompanha Israel no deserto, cobre o Sinai e enche a Tenda da Reunião (cf. Ex 24,15–18; 40,34–38). Ela manifesta e ao mesmo tempo vela. Deus está verdadeiramente presente, mas não deixa de ser o Deus transcendente, maior do que aquilo que a criatura pode abarcar.
Na leitura da Igreja, a Transfiguração possui também uma dimensão trinitária. O Filho é contemplado em sua humanidade; a voz do Pai é ouvida; e a nuvem luminosa é tradicionalmente relacionada à presença do Espírito Santo. O Catecismo emprega precisamente o simbolismo da nuvem e da luz ao explicar as manifestações do Espírito (CIC 697). Convém, entretanto, distinguir o que o texto diz diretamente do desenvolvimento teológico: o Evangelho menciona explicitamente o Filho e a voz do Pai; a identificação pneumatológica da nuvem pertence à leitura eclesial do conjunto da Revelação.
A palavra do Pai é o verdadeiro ápice interpretativo do acontecimento. Em Mateus: “Este é o meu Filho amado, em quem pus o meu agrado; escutai-o” (Mt 17,5). Marcos conserva: “Este é o meu Filho amado; escutai-o” (Mc 9,7). Em Lucas, segundo uma importante tradição textual: “Este é o meu Filho, o Eleito; escutai-o” (Lc 9,35).
Nessas palavras ressoam grandes linhas do Antigo Testamento: o Filho real do Salmo 2, o Servo escolhido de Isaías 42 e a promessa de um profeta semelhante a Moisés, acerca do qual se ordenava: “a ele ouvireis” (Dt 18,15). Essas ressonâncias convergem na identidade de Jesus. Ele não é simplesmente mais um mestre religioso entre outros. É o Filho.
O Catecismo recorda que, em dois momentos solenes — o Batismo e a Transfiguração —, a voz do Pai designa Jesus como seu Filho amado (CIC 444). É particularmente significativo que essa confirmação aconteça depois que Jesus anunciou a própria morte. O Pai não corrige o ensinamento de Jesus sobre a cruz; confirma aquele que o pronunciou.
Por isso, a ordem “escutai-o” inclui precisamente aquilo que os discípulos achavam difícil de receber. Escutar Jesus significa acolher sua palavra quando anuncia o Reino, quando perdoa os pecadores e quando consola os aflitos; mas significa também ouvi-lo quando fala de renúncia, conversão, cruz, sofrimento e Ressurreição. Não podemos selecionar apenas as palavras do Evangelho que correspondem às nossas preferências.
Aqui está uma das aplicações espirituais mais profundas da Transfiguração. A verdadeira contemplação conduz à obediência. Pedro gostaria de permanecer no monte: “Senhor, é bom estarmos aqui”. Santo Agostinho percebeu a força desse desejo. É bom contemplar; é bom permanecer com Cristo; é bom experimentar a alegria de sua presença. Mas a história da salvação ainda não terminou. Cristo precisa descer do monte e seguir para Jerusalém, e os discípulos precisam descer com ele.
A vida cristã conhece momentos de consolação, clareza e profunda proximidade de Deus. Eles devem ser recebidos com gratidão, mas não transformados em finalidade absoluta. Deus pode conceder luz para fortalecer a fidelidade quando chegar a obscuridade. A autenticidade da experiência espiritual não se mede pela intensidade das emoções, mas por seu fruto: maior fé, obediência, humildade, caridade e disposição para seguir Cristo.
Quando os discípulos, tomados de temor, caem por terra, Jesus se aproxima, toca-os e diz: “Levantai-vos e não temais” (Mt 17,7). A majestade do Filho não elimina sua proximidade. Aquele que resplandece como o sol é o mesmo que se inclina sobre os discípulos amedrontados e os põe novamente de pé.
2.5. Do monte ao Calvário: a glória antecipada e a esperança da ressurreição
A Transfiguração termina com um movimento que não pode passar despercebido: Jesus e os discípulos descem do monte. Não lhes é permitido estabelecer morada permanente naquela manifestação extraordinária. O caminho continua.
Mateus registra então uma ordem decisiva: “Não conteis a ninguém a visão, até que o Filho do Homem ressuscite dentre os mortos” (Mt 17,9). Marcos preserva a mesma ligação e acrescenta que os discípulos discutiam entre si o que significaria “ressuscitar dentre os mortos” (Mc 9,9–10). A ordem de silêncio estabelece a Ressurreição como chave para a compreensão plena daquilo que eles acabaram de ver.
Antes da Páscoa, a visão poderia ser mal interpretada como anúncio de um triunfo messiânico puramente terreno. Depois do Calvário e do túmulo vazio, torna-se clara sua verdadeira função: aquela glória pertencia justamente ao Filho que foi crucificado e agora vive ressuscitado.
A tradição patrística insistiu nesse vínculo. São João Crisóstomo observa que Cristo mostra aos três discípulos algo da glória prometida depois de lhes falar de sua vinda gloriosa. São Leão Magno acentua o propósito pastoral do acontecimento: preparar a fé apostólica para que a futura humilhação da Paixão não a destruísse. Os Padres, embora adotem diferentes formas de interpretação, convergem no essencial: a Transfiguração manifesta a dignidade de Cristo, confirma a unidade das Escrituras, prepara para a cruz e antecipa a glória futura.
A antecipação, porém, não se refere somente à glória pessoal de Cristo após a Ressurreição. Em sentido derivado, ela abre também uma janela para o destino daqueles que estão unidos a ele. São Paulo ensina que Cristo “transformará nosso corpo humilhado, tornando-o semelhante ao seu corpo glorioso” (Fl 3,21). Em outra passagem, descreve a criação inteira gemendo e esperando a manifestação da glória dos filhos de Deus (Rm 8,18–23). Aos coríntios, anuncia a transformação do corpo semeado na corrupção e ressuscitado na incorruptibilidade (1Cor 15,42–49).
A esperança cristã, portanto, não consiste em desprezar o corpo ou escapar definitivamente da criação material. Professamos a “ressurreição da carne”. A salvação alcança o homem inteiro. A Transfiguração não oferece uma descrição técnica das propriedades do corpo ressuscitado, mas manifesta em Cristo uma glória que antecipa o horizonte escatológico dos seus membros.
Por isso, existe entre o monte e a vida cristã uma relação de promessa. O discípulo vive entre o “já” da graça e o “ainda não” da glória consumada. Pelo Batismo, pertence a Cristo; pela graça, recebe verdadeira participação na vida divina; pelos sacramentos, é sustentado em sua peregrinação. Ainda assim, permanece sujeito à fraqueza, à tentação, ao sofrimento e à morte enquanto espera a ressurreição.
Essa perspectiva permite também uma relação prudente com a Eucaristia. Os relatos da Transfiguração não são narrativas eucarísticas: não mencionam pão, vinho, bênção ou mandato memorial. Não seria correto apresentar o monte como uma instituição antecipada da Eucaristia. A conexão passa por um nível mais profundo: o mesmo Cristo que manifesta sua glória no monte realizará seu “êxodo” em Jerusalém, entregará seu Corpo e Sangue na Última Ceia e consumará sacrificialmente sua entrega na cruz.
Na Eucaristia, a Igreja recebe verdadeiramente o Cristo pascal. Não se deve chamar a mudança eucarística de “transfiguração”: a linguagem dogmática apropriada é transubstanciação. Existe, contudo, uma analogia espiritual fecunda. No monte, aquilo que normalmente permanecia escondido aos sentidos manifesta-se extraordinariamente; no Sacramento, ocorre o movimento sensível inverso: Cristo está verdadeira, real e substancialmente presente sob as espécies que permanecem perceptíveis como pão e vinho. Em ambos os casos, somos educados a não reduzir a realidade de Cristo àquilo que os sentidos, por si sós, conseguem perceber.
A vida cristã inteira é marcada por essa educação da fé. Nem sempre veremos a luz que gostaríamos de ver. Nem sempre sentiremos consolação. Muitas vezes estaremos mais próximos da descida do monte, do Getsêmani ou do caminho para Jerusalém. Mas a Transfiguração permanece como testemunho: o Crucificado é o Senhor da glória.
CONCLUSÃO
A Transfiguração do Senhor somente revela toda a sua profundidade quando é contemplada dentro do caminho que conduz a Jerusalém. Pedro acabara de confessar que Jesus era o Cristo; logo depois, resistira ao anúncio da cruz. Os discípulos precisavam aprender que a verdadeira identidade do Messias não seria desmentida por sua Paixão.
No monte, tudo converge para essa revelação. O rosto e as vestes de Jesus resplandecem; Moisés e Elias testemunham que a Lei e os Profetas encontram nele seu cumprimento; Lucas esclarece que a conversa se refere ao “êxodo” que será consumado em Jerusalém; a nuvem manifesta a presença divina; e o Pai proclama: “Este é o meu Filho […] escutai-o”. Depois, Moisés e Elias desaparecem, e os discípulos encontram Jesus somente.
A glória revelada não oferece uma rota alternativa ao Calvário. Ela oferece luz para atravessá-lo. O mesmo Jesus que resplandece diante de Pedro, Tiago e João será preso, flagelado, coroado de espinhos e crucificado. Mas a humilhação não revela toda a verdade sobre ele. A cruz é real, porém não é a palavra final. A Ressurreição mostrará plenamente quem era aquele que livremente se entregou.
É também esse o caminho do discípulo. Cristo não promete aos seus uma vida sem sofrimento; manda tomar a cruz e segui-lo. Mas também não os abandona a uma espiritualidade de derrota. A cruz cristã é carregada em comunhão com o Ressuscitado e sob a promessa de participação em sua glória.
Por isso, a palavra central continua sendo a palavra do Pai: “Escutai-o”. Escutar Cristo quando ele consola e quando corrige; quando mostra a luz e quando chama à perseverança na noite; quando conduz ao monte e quando manda descer novamente para o serviço.
A luz do monte não existe para impedir a noite do Calvário, mas para revelar antecipadamente que a noite não terá a última palavra. Quem escuta o Filho e permanece com ele pode descer do monte sem perder a esperança, porque já sabe, pela fé, para onde conduz o caminho da cruz.
ORAÇÃO DE ENCERRAMENTO
Senhor Jesus Cristo, Filho amado do Pai, que no monte manifestastes aos discípulos um reflexo de vossa glória, fortalecei nossa fé para que vos reconheçamos não somente nos momentos de luz e consolação, mas também quando vosso caminho nos conduz à renúncia, ao sofrimento e à perseverança.
Ensinai-nos a escutar vossa palavra com coração obediente. Livrai-nos do desejo de uma glória sem cruz e também do desânimo de contemplar a cruz sem a esperança da Ressurreição. Fazei que a oração transforme nosso coração e nos torne mais disponíveis para vos seguir no serviço, na fidelidade e na caridade.
Pai santo, conduzi-nos por vosso Filho, no Espírito Santo, até a plenitude da vida que preparastes para os que vos amam. Sustentai-nos durante nossa peregrinação e concedei-nos perseverar na fé, para que um dia contemplemos sem véus a glória de Cristo e, unidos a ele, participemos eternamente de vossa bem-aventurança. Amém.
Mateus 17,1-13
1 Seis dias depois, Jesus toma consigo Pedro, Tiago e João, irmão deste, e os conduz, à parte, a um monte elevado.
2 E foi transfigurado diante deles; seu rosto brilhou como o sol, e suas vestes tornaram-se brancas como a luz.
3 E eis que lhes apareceram Moisés e Elias, conversando com ele.
4 Pedro, tomando a palavra, disse a Jesus: “Senhor, é bom estarmos aqui. Se queres, farei aqui três tendas: uma para ti, uma para Moisés e uma para Elias”.
5 Enquanto ele ainda falava, eis que uma nuvem luminosa os cobriu com sua sombra; e eis uma voz da nuvem, que dizia: “Este é o meu Filho amado, em quem pus o meu agrado; escutai-o”.
6 Ouvindo isso, os discípulos caíram com o rosto por terra e ficaram tomados de grande temor.
7 Jesus aproximou-se, tocou-os e disse: “Levantai-vos e não temais”.
8 Erguendo os olhos, não viram ninguém, senão Jesus somente.
9 Enquanto desciam do monte, Jesus lhes ordenou: “Não conteis a ninguém a visão, até que o Filho do Homem ressuscite dentre os mortos”.
10 E os discípulos lhe perguntaram: “Por que, então, os escribas dizem que Elias deve vir primeiro?”
11 Ele respondeu: “Elias certamente vem e restaurará todas as coisas.
12 Eu, porém, vos digo que Elias já veio, e não o reconheceram; antes, fizeram com ele tudo o que quiseram. Assim também o Filho do Homem haverá de sofrer da parte deles”.
13 Então os discípulos compreenderam que lhes falara de João Batista.
Marcos 9,2-13
2 Seis dias depois, Jesus toma consigo Pedro, Tiago e João e os conduz, a sós, à parte, a um monte elevado. E foi transfigurado diante deles.
3 Suas vestes tornaram-se resplandecentes, extremamente brancas, como nenhum lavadeiro sobre a terra poderia alvejá-las.
4 E apareceu-lhes Elias com Moisés, e estavam conversando com Jesus.
5 Pedro, tomando a palavra, diz a Jesus: “Rabi, é bom estarmos aqui; façamos três tendas: uma para ti, uma para Moisés e uma para Elias”.
6 Pois não sabia o que responder, porque estavam tomados de temor.
7 Então veio uma nuvem, cobrindo-os com sua sombra, e da nuvem veio uma voz: “Este é o meu Filho amado; escutai-o”.
8 E, de repente, olhando ao redor, já não viram ninguém, senão Jesus somente com eles.
9 Ao descerem do monte, ordenou-lhes que a ninguém contassem o que tinham visto, senão quando o Filho do Homem tivesse ressuscitado dentre os mortos.
10 Eles guardaram a palavra consigo, discutindo entre si o que seria “ressuscitar dentre os mortos”.
11 E perguntavam-lhe: “Por que os escribas dizem que Elias deve vir primeiro?”
12 Ele lhes disse: “Elias, vindo primeiro, restaura todas as coisas. E como está escrito do Filho do Homem que deve sofrer muito e ser desprezado?
13 Eu, porém, vos digo que Elias já veio, e fizeram-lhe tudo o que quiseram, conforme está escrito a respeito dele”.
Lucas 9,28-36
28 Cerca de oito dias depois dessas palavras, tomando consigo Pedro, João e Tiago, subiu ao monte para orar.
29 E aconteceu que, enquanto ele orava, o aspecto de seu rosto tornou-se outro, e sua veste ficou branca, fulgurante.
30 E eis que dois homens conversavam com ele: eram Moisés e Elias,
31 os quais, aparecendo em glória, falavam do seu êxodo, que ele estava para cumprir em Jerusalém.
32 Pedro e os que estavam com ele achavam-se pesados de sono; despertando plenamente, viram a glória dele e os dois homens que estavam com ele.
33 E aconteceu que, quando estes se separavam dele, Pedro disse a Jesus: “Mestre, é bom estarmos aqui; façamos três tendas: uma para ti, uma para Moisés e uma para Elias”, sem saber o que dizia.
34 Enquanto ele dizia isso, veio uma nuvem e os cobriu com sua sombra; e tiveram medo ao entrarem na nuvem.
35 E da nuvem veio uma voz que dizia: “Este é o meu Filho, o Eleito; escutai-o”.
36 Quando a voz se fez ouvir, Jesus foi encontrado sozinho. Eles guardaram silêncio e, naqueles dias, não contaram a ninguém nada do que tinham visto.




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