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O Chamado Final: Uma Jornada de Conversão e Redenção

15 de ago. de 2024
16 min de leitura

Atualizado: 1 de set.


PODCAST - CHAMADO FINALCaminho de Fé

Era uma noite chuvosa de sexta-feira. A estrada estreita serpenteava pelas montanhas, cortando trechos de mata que desapareciam atrás da cortina de água. O asfalto brilhava sob os faróis, escorregadio, enquanto o limpador de para-brisa lutava para manter alguma visibilidade.

Jovens conversam dentro de um carro sob forte chuva em estrada de montanha, momentos antes do acidente que marca o Chamado Final.

Dentro do carro, porém, Judas, Jezabel e Saul pareciam distantes do perigo. Voltavam de uma festa, conversando e rindo, enquanto a música alta quase abafava o ruído da tempestade.

— Judas, cuidado com essa curva! — gritou Jezabel do banco de trás.

Foi tarde demais.

O carro perdeu aderência, atravessou a pista, rompeu a proteção lateral e desapareceu no precipício. Por alguns segundos, ouviram-se o choque contra as pedras, o ruído de metal sendo retorcido e os estalos do veículo destruído. Depois, restou apenas a chuva caindo sobre a montanha.

Nenhum dos três imaginara que aquela seria sua última noite.

A morte quase sempre parece distante quando pensamos nela. Sabemos que existe, assistimos a funerais, recebemos notícias de acidentes, vemos partir parentes, amigos e conhecidos. Sabemos também que um dia chegará nossa vez. Ainda assim, carregamos dentro de nós uma estranha sensação de continuidade, como se o amanhã nos pertencesse por direito. Amanhã mudarei. Amanhã procurarei Deus. Amanhã me confessarei. Amanhã abandonarei aquilo que minha consciência já me pede que abandone. Amanhã rezarei com mais seriedade. Amanhã colocarei minha vida em ordem.

Para Judas, Jezabel e Saul, não houve amanhã.

Carro destruído em chamas no fundo de um desfiladeiro durante a chuva, símbolo de morte, juízo e chamado final à conversão.

Terminada a peregrinação terrena, chegou aquilo que nenhum compromisso, argumento ou distração poderia adiar. A Igreja ensina que cada homem, desde o momento da morte, recebe em sua alma a retribuição eterna no juízo particular, em referência a Cristo e segundo sua vida e sua resposta à graça de Deus. Tudo aquilo que, durante anos, podia ser escondido dos outros — e tantas vezes escondido da própria consciência — aparecia agora sob a luz da verdade.

Não era simplesmente uma sucessão de atos sendo projetada diante deles como uma lista de acusações. Era muito mais terrível: cada um começava a compreender a história de suas próprias escolhas, as graças recebidas, as advertências desprezadas, os momentos em que poderiam ter seguido outro caminho e as pequenas decisões pelas quais, pouco a pouco, haviam endurecido o coração.

Judas começou a perceber que sua ruína não nascera de uma decisão tomada numa única noite. Quantas vezes sua consciência o advertira? Quantas vezes experimentara aquele incômodo interior que lhe dizia que alguma coisa precisava mudar? Houve manhãs em que acordara envergonhado, momentos em que prometera a si mesmo que não continuaria daquele modo, ocasiões em que pensara seriamente em procurar um sacerdote e confessar aquilo que já não conseguia justificar.

Mas então vinha a frase que sempre o tranquilizava: “Depois eu mudo”.

Ela parecia inofensiva. Afinal, não significava que rejeitasse Deus para sempre; apenas não queria mudar naquele momento. Ainda era jovem. Haveria outras oportunidades. Quando a vida se acalmasse, quando determinadas experiências perdessem o encanto, quando tivesse mais maturidade, então levaria a religião a sério.

O problema é que o “depois” também se tornou amanhã, e o amanhã se tornou outro amanhã. Cada adiamento tornava o seguinte mais fácil. Aquilo que antes feria sua consciência passou a perturbá-lo menos; aquilo que inicialmente exigia justificativas começou a parecer normal. Judas não precisara declarar que Deus não existia. Bastara viver repetidamente como se Deus pudesse ser deixado para outra ocasião.

Agora compreendia algo que nunca quisera admitir: não havia caído de uma vez. Descera aos poucos.

Com Jezabel, o caminho fora diferente. Ela não costumava adiar todas as questões morais; preferia reinterpretá-las. Quando alguma palavra do Evangelho a incomodava, quando uma pregação falava com clareza sobre pecado ou quando o ensinamento da Igreja contrariava aquilo que desejava conservar, rapidamente encontrava uma forma de suavizar o conflito. “Isso não é tão grave assim”, pensava.

Não negava a misericórdia de Deus. Pelo contrário, falava dela com frequência. Mas, pouco a pouco, transformara a misericórdia em uma espécie de garantia de que nenhuma mudança realmente custosa seria necessária. Deus compreenderia. Deus conhecia suas fraquezas. Deus certamente não levaria tão a sério aquilo que tantas pessoas também faziam. E assim, uma verdade destinada a chamá-la de volta tornou-se, em sua mente, uma permissão antecipada para continuar no mesmo lugar.

Houve ocasiões em que sentiu com clareza que deveria procurar a Confissão. Houve palavras de sacerdotes que a alcançaram de maneira quase incômoda, pessoas que a convidaram a voltar, passagens das Escrituras que pareciam atravessar todas as suas justificativas. Algumas vezes entrou numa igreja com a intenção sincera de reorganizar a própria vida e quase tomou uma decisão. Porém, quando percebeu que a conversão exigiria renúncia, recuou.

Sempre haveria outra oportunidade.

Saul não se reconheceria na rebeldia de Judas nem nas racionalizações de Jezabel. Considerava-se uma pessoa comum, talvez até razoavelmente religiosa. Nunca declarara que não precisava de Deus. Simplesmente aprendera a viver colocando-o depois de quase tudo.

Primeiro deixou algumas orações porque estava cansado. Depois começou a perder a Missa quando surgia algo que lhe parecia mais urgente ou agradável. A Confissão foi ficando para uma ocasião melhor. A leitura espiritual desapareceu, o exame de consciência deixou de fazer parte de sua vida, e a presença de Deus foi recuando lentamente para as margens.

Havia tempo para trabalho, planos, compromissos, entretenimento, viagens, preocupações e ambições. Quando tudo isso estava satisfeito, talvez sobrasse algum espaço para Deus.

Quase nunca sobrava.

Saul jamais formulara conscientemente a frase “Deus pode esperar”. No entanto, sua vida inteira começava agora a revelar que fora exatamente assim que vivera.

Diante de Cristo, os três percebiam que o problema não era apenas aquilo que haviam feito, mas aquilo em que haviam permitido que seus corações se transformassem. Tinham recebido luz suficiente para reconhecer o caminho de volta. Nenhum deles poderia dizer que Deus permanecera silencioso. A graça os procurara de muitas maneiras: por uma inquietação interior, uma palavra ouvida, uma pessoa providencial, o ensinamento da Igreja, um sacramento tantas vezes disponível, o Evangelho que advertia e convidava.

Mas graça oferecida não significa graça acolhida.

A misericórdia de Deus não anula a liberdade humana. Ela a chama, cura, sustenta e torna possível a conversão; não transforma o homem em uma criatura incapaz de recusar. E foi precisamente essa verdade que os três agora percebiam com uma clareza que já não permitia disfarces.

Tinham morrido sem arrependimento, em estado de pecado mortal, depois de terem recusado repetidamente a conversão que lhes fora oferecida.

O Catecismo da Igreja Católica expressa essa realidade com palavras severas, justamente porque a realidade é severa: “Morrer em pecado mortal sem arrependimento e sem acolher o amor misericordioso de Deus significa permanecer separado d’Ele para sempre, por nossa própria e livre escolha. É este estado de autoexclusão definitiva da comunhão com Deus e com os bem-aventurados que se designa com a palavra ‘inferno’” (CIC 1033).

Então começou para eles a compreensão de algo que, durante a vida, haviam preferido manter na periferia da fé.

O inferno não era uma invenção medieval, um recurso criado para assustar crianças ou uma figura vazia de pregadores excessivamente severos. O próprio Cristo advertira sobre a possibilidade real da perdição. Falara do fogo inextinguível, das trevas exteriores, da porta que se fecha, da separação definitiva e do castigo eterno. Não o fizera porque tivesse prazer em aterrorizar, mas porque ama suficientemente o homem para adverti-lo sobre aquilo que pode destruí-lo para sempre.

Há, entretanto, um limite que a sobriedade cristã deve respeitar. Não possuímos uma espécie de mapa físico do inferno, nem cada imagem empregada pela Escritura ou desenvolvida por autores espirituais deve ser tomada como fotografia do estado da alma separada. Fogo, trevas, sede, fumaça, prisão, verme que não morre: essas imagens devem ser recebidas com toda a sua seriedade, sem reduzi-las a ameaças irreais, mas também sem pretender conhecer além daquilo que Deus revelou.

Autores espirituais, ao longo dos séculos, procuraram fazer aquilo que a imaginação humana consegue fazer diante de uma realidade que a ultrapassa: aproximar o leitor do horror do pecado por comparações tiradas deste mundo.

Em A Visão do Inferno, o Pe. John Furniss utiliza justamente esse método. Ele pede ao leitor que pense no fogo que conhece na terra e depois perceba como é insuficiente essa comparação. Aqui, o fogo queima, mas também ilumina. Uma fogueira pode ferir quem nela toca, mas sua chama rompe a noite; uma vela consome a cera, porém permite enxergar. Mesmo quando um incêndio destrói, a claridade das chamas denuncia sua presença.

Na meditação de Furniss, porém, surge uma imagem perturbadora: um fogo que queima sem oferecer luz. Depois de descrever o fogo, ele conduz o leitor à escuridão e fala de uma única noite que não cede lugar à manhã.

Essa imagem não deve ser tratada como uma definição física do além. Sua força espiritual está em outra coisa. A própria Escritura utiliza, para falar da condenação, imagens que à primeira vista parecem contrastantes: fogo e trevas. O fogo expressa tormento e juízo; as trevas exprimem exclusão, perda e afastamento da luz. Juntas, dizem algo que uma única figura não conseguiria dizer.

Jezabel começou a perceber essa realidade de maneira aterradora.

Durante a vida, conhecera a noite, mas toda noite possuía alguma promessa de luz. Mesmo no quarto mais escuro, bastava acender uma pequena lâmpada. Mesmo numa estrada sem iluminação, havia faróis. Mesmo depois de uma tempestade, amanhecia.

A escuridão que agora percebia não era simplesmente ausência de uma lâmpada. Era uma imagem muito mais profunda daquilo que perdera.

A luz, na linguagem cristã, não é apenas aquilo que permite aos olhos enxergar. Cristo disse: “Eu sou a luz do mundo” (Jo 8,12). A condenação significava permanecer definitivamente privado daquela comunhão para a qual a criatura humana havia sido feita. E, se o fogo podia representar o tormento, as trevas exprimiam algo ainda mais terrível: nenhum sofrimento conduziria a uma manhã futura, nenhuma noite terminaria no encontro com Deus, nenhuma dor seria caminho para uma glória que viesse depois.

Era como sofrer sem que o próprio sofrimento apontasse para qualquer amanhecer.

Na terra, a dor pode ser oferecida a Deus. Pode tornar-se ocasião de purificação, paciência, união com Cristo e caridade. O doente pode sofrer olhando para um crucifixo; o mártir pode morrer sabendo que sua morte não é derrota; a penitência voluntária pode doer e, ao mesmo tempo, aproximar a alma de Deus. Até as lágrimas do arrependimento carregam uma espécie de luz, porque nelas existe esperança.

No inferno, não há uma pena que amadureça para a reconciliação futura. Não é purgatório. Não existe ali um processo pelo qual a alma, depois de sofrer o suficiente, terminará entrando no Céu.

Foi essa ausência de horizonte que começou a esmagar Jezabel.

Ela queria que o sofrimento diminuísse. Esse era ainda um reflexo da maneira como pensara durante toda a vida, porque no mundo todas as dores possuem algum limite temporal. Uma febre pode durar dias, uma enfermidade talvez anos; uma cirurgia termina, uma noite de angústia chega à manhã e até uma vida inteira de sofrimento encontra, finalmente, a morte.

Jezabel tentou então imaginar quanto tempo seria necessário suportar aquilo. Talvez um ano. Dez anos. Cem. Tentou alcançar com o pensamento mil anos, depois cem mil, um milhão e, por fim, milhões sobre milhões de anos acumulando-se uns sobre os outros.

Por um instante surgiu uma esperança absurda: depois de um período tão vasto que nenhuma mente humana pudesse realmente compreendê-lo, talvez chegasse o fim.

Foi então que percebeu que ainda estava pensando segundo a medida do tempo terreno.

Se houvesse um último ano, ainda existiria esperança. Se houvesse um último dia, poderia esperar por ele. Se restasse uma única hora final, ainda seria possível pensar: “Quando ela terminar, tudo acabará”.

Mas não havia uma última hora.

Era para sempre.

Esse é um dos pontos mais fortes da meditação de Furniss sobre o inferno. O autor faz o condenado imaginar milhões e milhões de anos e depois confrontar-se com a terrível resposta: mesmo então, não terá chegado o fim. Em outra de suas imagens mais duras, o condenado deseja a própria morte como fuga do sofrimento e descobre que até essa saída desapareceu: já morreu e não existe outra morte terrestre esperando para libertá-lo.

Não precisamos reproduzir literalmente cada detalhe gráfico dessa meditação para perceber sua força. Basta pensar no que significa desejar que alguma coisa termine e descobrir que a própria categoria de “terminar” já não se aplica.

Jezabel havia atravessado a morte.

Não existia uma segunda morte esperando ao final de uma longa estrada para libertá-la daquela condição. Não havia uma porta que se abriria depois de séculos incontáveis, nem uma espécie de revisão futura de sua escolha. Cristo falara de “castigo eterno” ao colocá-lo em paralelo com a “vida eterna” (Mt 25,46).

Então, por trás do medo do sofrimento, uma percepção ainda mais dolorosa começou a emergir: aquilo que realmente perdera.

Furniss chama essa realidade de “dor da perda” e a apresenta como mais difícil de imaginar que os próprios tormentos, precisamente porque não existe neste mundo experiência plenamente comparável à privação definitiva de Deus. Todo bem que conhecemos aqui procede dele; toda beleza criada é apenas reflexo distante de sua perfeição. Mesmo aquele que vive longe de Deus continua cercado pelos dons de Deus: existe, respira, vê o céu, recebe afeto, experimenta alegria, encontra beleza, pode arrepender-se, pode rezar e ainda pode ser alcançado pela graça.

A condenação manifesta o horror de perder definitivamente aquilo para o qual toda a criatura racional foi criada: a visão de Deus e a comunhão eterna com ele.

Diante dessa perda, Jezabel começou a compreender como fora pobre aquilo que durante a vida parecera tão importante. As justificativas, os desejos aos quais não quis renunciar, o medo de mudar, a vergonha da Confissão, a necessidade de preservar uma imagem diante dos outros — tudo aquilo tinha passado.

A possibilidade de escolher novamente também passara.

Durante anos imaginara que sempre haveria mais tempo. Agora, se pudesse desejar uma única coisa, desejaria justamente aquilo que desperdiçara com tanta facilidade: tempo para voltar, para se confessar, para reparar o que pudesse ser reparado, para abandonar aquilo que antes não quis abandonar, para ajoelhar-se diante de Deus ainda na condição de peregrina.

Mas aquele tempo já lhe fora dado.

Chamava-se vida.

Isso não significava que uma alma verdadeiramente convertida estivesse agora suplicando misericórdia enquanto Deus permanecia indiferente. Essa imagem seria falsa. O horror estava precisamente na definitividade da condição alcançada. Jezabel reconhecia a verdade, sofria pela perda e desejava escapar da pena, mas já não estava no estado dos vivos, no qual, pela graça, o coração pode converter-se e produzir frutos de penitência.

Judas percebia a mesma eternidade por outro caminho. Durante toda a vida dissera “depois”. Agora começava a entender que essa palavra dependia de uma dádiva que nunca lhe pertencera: a existência de um momento seguinte.

Quantas vezes ouvira falar da morte e pensara que o assunto servia para idosos? Quantas vezes tratara a doutrina do inferno como exagero incompatível com um Deus misericordioso? Quantas vezes imaginara que, se realmente existisse algum perigo, teria tempo para resolver a questão quando a velhice se aproximasse?

O erro não estava em confiar na misericórdia de Deus, mas em usar essa misericórdia como justificativa para não se converter. Confiar em Deus é lançar-se em seus braços. Presumir de sua misericórdia é querer permanecer deliberadamente no pecado contando com um perdão que se recusa a buscar de verdade.

Saul, por sua vez, via desaparecer todas as urgências que haviam expulsado Deus de sua vida. Aquilo que não podia esperar agora não tinha mais importância. As preocupações que pareciam gigantescas haviam se reduzido a quase nada; os planos que absorviam seu pensamento haviam ficado para trás; aquilo que conquistara permanecia no mundo dos vivos.

Sua tragédia não fora ter odiado explicitamente a Deus. Fora tê-lo considerado sempre menos urgente que qualquer outra coisa.

Os três compreendiam, de maneiras diferentes, uma mesma verdade: o inferno não começa a ser levado a sério quando alguém aprende detalhes assustadores sobre ele. Começa a ser levado a sério quando se compreende o valor da graça recebida agora.

Socorristas e civis diante de guard-rail rompido em estrada chuvosa, refletindo sobre morte, fragilidade humana e chamado à conversão.

Enquanto isso, muitos quilômetros acima daquele precipício, sirenes cortavam a noite. Equipes de resgate tentavam alcançar os destroços. Familiares receberam telefonemas. Amigos acordaram com mensagens. Pessoas que poucas horas antes haviam conversado normalmente com Judas, Jezabel e Saul descobriram que nunca mais os encontrariam nesta vida.

Houve lágrimas, incredulidade e silêncio.

Ana, irmã de Jezabel, não conseguiu dormir.

Durante anos fora católica praticante. Depois se afastara sem uma ruptura dramática. Não declarara que deixara de acreditar; simplesmente começara a viver como se a fé pudesse ficar suspensa por algum tempo. Uma Missa perdida tornou mais fácil perder a seguinte. A Confissão parecia desnecessária naquele momento. A oração foi diminuindo até se transformar em uma lembrança.

Sentada na cama naquela madrugada, Ana percebeu que também tinha uma frase preferida.

“Depois eu volto.”

Mas sua irmã também imaginara que haveria depois.

Ana não conhecia o estado da alma de Jezabel. Nenhum ser humano pode olhar para uma pessoa concreta que morreu e declarar por conta própria o resultado de seu juízo particular. Isso pertence a Deus. Contudo, a morte repentina da irmã colocou diante dela uma verdade que não dependia de saber o destino eterno de ninguém: sua própria vida também terminaria, e ela não sabia quando.

Pela primeira vez em muito tempo, não tentou negociar consigo mesma. Ajoelhou-se ao lado da cama e falou com Deus como alguém que já não queria construir outra justificativa.

Pediu misericórdia. Reconheceu que se afastara. Pediu força para voltar.

Não houve luz extraordinária no quarto, nenhuma voz, nenhum sinal sensível. Havia apenas uma mulher viva, de joelhos, que ainda podia responder à graça.

E essa diferença era imensa.

No domingo, Ana entrou novamente na igreja. Sentou-se nos últimos bancos e permaneceu algum tempo em silêncio. Tudo lhe parecia familiar e, ao mesmo tempo, diferente. As palavras de Cristo que tantas vezes ouvira sem atenção agora tinham outro peso: “Vigiai, pois, porque não sabeis o dia nem a hora” (Mt 25,13).

Dessa vez, não respondeu interiormente: “um dia”.

Depois da Missa, procurou um sacerdote. Preparou-se e fez uma Confissão sincera. Não transformou o sacramento em uma formalidade destinada apenas a aliviar a emoção daqueles dias; acusou seus pecados, manifestou arrependimento e recebeu a absolvição.

Ao sair da igreja, seus problemas não haviam desaparecido e sua vida cristã não estava magicamente resolvida. Conversão não é uma emoção intensa que dura alguns dias. Ela teria de aprender novamente a rezar, participar fielmente da Missa, evitar as ocasiões de pecado, reparar o que pudesse ser reparado, alimentar-se da Palavra de Deus, aproximar-se dignamente dos sacramentos e ordenar pouco a pouco sua vida segundo a vontade divina.

Tudo isso exigiria perseverança.

Mas Ana possuía algo que, naquela madrugada, aprendera a considerar um tesouro: ainda tinha tempo para começar.

A notícia do acidente também atingiu outras pessoas. Carlos, colega de Judas, lembrou-se de uma frase que ouvira muitas vezes quando criança e quase nunca levara a sério: “Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?” (cf. Mc 8,36). A pergunta começou a persegui-lo não como curiosidade sobre o destino de Judas, mas como uma interrogação sobre si mesmo.

Uma tragédia não se torna boa porque desperta alguém, e a eventual condenação de qualquer pessoa jamais deve ser desejada ou tratada como instrumento pedagógico. No entanto, Deus pode fazer com que mesmo acontecimentos dolorosos se tornem ocasião para que os vivos reconheçam aquilo que antes evitavam enxergar.

Talvez seja essa também a razão de esta história ter chegado até você.

Não para que imagine quem está condenado. Não para que contemple Deus como um juiz impaciente procurando uma ocasião para perder uma criatura. E certamente não para conduzi-lo ao desespero.

Esta história existe para lhe recordar que sua liberdade é real, que o pecado é sério, que o inferno é possível e que a misericórdia de Deus está sendo oferecida enquanto você ainda pode recebê-la.

Se há pecado mortal em sua consciência, não transforme a vergonha em motivo para fugir do confessionário. Se você se afastou da Missa, não espere por alguma emoção especial para retornar. Se existe uma situação que você sabe ser incompatível com a vida cristã, não continue chamando de prudência aquilo que talvez seja apenas adiamento. Se caiu muitas vezes depois de prometer que mudaria, não conclua que a próxima queda é inevitável; procure a graça, os sacramentos, a oração e também a orientação prudente de um sacerdote quando for necessária.

Existe um temor que afasta de Deus porque imagina que não há perdão. Esse temor deve ser rejeitado. Mas existe também um temor santo que desperta o homem da indiferença, faz com que ele perceba a gravidade do pecado e o empurra para os braços da misericórdia. A tradição cristã nunca precisou escolher entre levar o inferno a sério e confiar no amor de Cristo. As duas coisas pertencem à mesma verdade: precisamente porque a perdição é real, a salvação oferecida na Cruz é de uma grandeza que não deveríamos tratar com indiferença.

O mesmo Jesus que advertiu sobre o fogo inextinguível deixou-se pregar numa cruz pelos pecadores. Aquele que falou das trevas exteriores declarou também: “Eu sou a luz do mundo” (Jo 8,12). Aquele que anunciou o juízo chamou os pecadores à conversão e prometeu não repelir quem viesse até ele.

É por isso que o fogo e as trevas do inferno não deveriam deixar no leitor apenas uma imagem de horror. Deveriam fazê-lo olhar de modo diferente para a luz que ainda possui.

Hoje você pode abrir o Evangelho e ouvir a voz de Cristo. Hoje pode entrar numa igreja. Hoje pode dobrar os joelhos. Hoje pode examinar a consciência, procurar a Confissão, abandonar uma ocasião de pecado, reparar uma injustiça, pedir perdão a quem feriu e recomeçar. Talvez amanhã também possa.

Mas amanhã não lhe foi prometido.

A Escritura não diz que algum dia distante será o tempo favorável. Ela diz: “Eis agora o tempo favorável, eis agora o dia da salvação” (2Cor 6,2).

Judas viveu acreditando que mudaria depois. Jezabel convenceu-se de que aquilo que precisava abandonar não era tão grave. Saul organizou sua vida como se Deus pudesse esperar. Ana, diante da morte, compreendeu que possuir o presente era uma misericórdia.

Talvez você tenha se afastado durante décadas. Volte. Talvez existam pecados cuja lembrança lhe cause vergonha; leve-os sinceramente ao sacramento da Penitência. Talvez já tenha prometido muitas vezes que mudaria e tenha caído novamente; não faça de suas quedas uma desculpa para permanecer no chão. Talvez sua vida esteja tão desordenada que você nem saiba por onde começar. Comece pedindo a graça de querer realmente voltar e procure os meios que Cristo deixou em sua Igreja.

Não espere tornar-se digno para procurar o Salvador. Você o procura justamente porque precisa ser salvo.

E não transforme seus pecados em algo maior que o Sangue de Cristo.

Enquanto dura esta vida, ainda existe a possibilidade de conversão. Essa verdade não torna o inferno menos terrível; torna o presente ainda mais precioso.

No fim, talvez a pergunta decisiva não seja quantos anos lhe restam, porque isso ninguém sabe. A pergunta é o que você fará com o tempo que Deus colocou hoje em suas mãos.

Jezabel, em nossa história, descobriu tarde demais que a pior noite não era simplesmente uma noite escura, mas aquela para a qual já não viria manhã. O cristão que ainda vive, porém, pode olhar para Cristo e encontrar precisamente o contrário: aquele que entra na escuridão do próprio pecado ainda pode caminhar em direção à luz.

“Todo aquele que o Pai me dá virá a mim, e o que vem a mim, de modo algum o lançarei fora” (Jo 6,37).

Não amanhã.

Hoje.

ORAÇÃO DE ENCERRAMENTO

Senhor Jesus Cristo, diante de vós reconheço a fragilidade da minha vida e a seriedade de cada escolha. Não permitais que eu adie a conversão, endureça o coração ou trate com indiferença as graças que me ofereceis. Dai-me arrependimento, horror ao pecado e confiança em vossa misericórdia. Fazei-me recordar que o tempo presente é dom e caminho para a eternidade.

Concedei-me a coragem de confessar meus pecados com sinceridade, reparar o mal que puder, abandonar as ocasiões que me afastam de vós e permanecer fiel à oração, à Missa e aos sacramentos. Quando eu cair, não me deixeis permanecer no chão; levantai-me pela vossa graça e ensinai-me a buscar-vos acima de tudo, sem desculpas, sem adiamentos e sem presunção.

Senhor, quando chegar minha hora, encontrai-me reconciliado convosco, perseverante na fé e unido à vossa Igreja. Que eu viva hoje como quem deseja morrer em vossa amizade e contemplar-vos eternamente. Amém.

REFERÊNCIAS

  • Catecismo da Igreja Católica. 1992. Cidade do Vaticano: Libreria Editrice Vaticana.

  • Furniss, John, C.Ss.R. 1874. The Sight of Hell. Dublin: James Duffy and Co.

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