top of page

O que significa participar da nova vida de Cristo: Ressurreição, graça e vida nova na Oitava da Páscoa

ARTIGO - PARTICIPAR DA VIDA NOVA EM CRISTOCaminho de Fé

INTRODUÇÃO

A Oitava da Páscoa convida a Igreja a permanecer junto do túmulo vazio não como quem contempla apenas uma memória sagrada, mas como quem reconhece o centro vivo de toda a fé cristã. A Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo não é um apêndice glorioso da Paixão, nem somente a confirmação de que sua palavra era verdadeira. Ela é o complemento de nossa redenção e o fundamento de nossa religião, porque, se por sua morte Cristo nos livrou do pecado e nos reconciliou com Deus, por sua Ressurreição abriu-nos a entrada à vida eterna. Por isso, a Páscoa é verdadeiramente passagem: passagem de Cristo da morte para a vida, e passagem dos fiéis da morte do pecado para a vida da graça.

É precisamente aqui que se encontra a pergunta decisiva deste artigo: o que significa participar da nova vida de Cristo? A resposta católica não é apenas simbólica, moral ou sentimental. Participar da nova vida de Cristo significa ser unido a Ele de modo real e sobrenatural, para que sua vitória sobre o pecado e a morte se torne princípio de renovação interior no fiel. São Paulo exprime isso com clareza ao ensinar que Cristo “foi entregue por nossos pecados e ressuscitado para nossa justificação” (Rm 4,25), e ainda: “fomos sepultados com Ele pelo Batismo na morte, para que, assim como Cristo ressuscitou dos mortos pela glória do Pai, também nós vivamos uma vida nova” (Rm 6,4). A vida nova, portanto, não é mera imitação exterior de Jesus, mas participação verdadeira em seu mistério pascal.

Essa participação começa no Batismo, pelo qual o homem nasce para a vida nova em Cristo, é libertado do pecado, torna-se filho adotivo do Pai, membro de Cristo e templo do Espírito Santo. E aquilo que é recebido no Batismo é a própria graça santificante, que o Catecismo define como participação na vida divina (CIC 1997), dom infundido na alma para curá-la do pecado e santificá-la (CIC 1999). Assim, a Ressurreição do Senhor não permanece fora de nós: ela nos alcança, recria-nos e inaugura em nós um modo novo de viver, pensar, amar e esperar.

Por isso, contemplar a nova vida de Cristo na Oitava da Páscoa é contemplar também a verdade mais profunda da vocação cristã. Fomos feitos para viver da vida do Ressuscitado, caminhar sob a ação do Espírito e tender, desde agora, para a plenitude da glória futura. O domingo, celebrado como o oitavo dia, recorda justamente essa criação nova inaugurada pela Ressurreição de Cristo (CIC 2190-2191). A Páscoa, portanto, não é apenas um acontecimento que recordamos; é um mistério no qual somos chamados a entrar. E entrar nele significa deixar que Cristo, vencedor da morte, faça nascer em nós o homem novo, para que toda a nossa existência se torne, já neste mundo, começo da vida eterna.

Criança com vela na Vigília Pascal diante do altar com sacerdote elevando a hóstia, igreja iluminada por velas, símbolo da Ressurreição

2. RESSURREIÇÃO, GRAÇA E VIDA NOVA NO CRISTÃO

2.1. A Ressurreição de Cristo inaugura a vida nova

A Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo não é apenas o desfecho glorioso de sua Paixão, nem somente a prova suprema de sua divindade. Ela é, em sentido profundo, o início da nova criação e a fonte da vida nova que Deus quer comunicar aos homens. A Igreja celebra a Páscoa com tanta solenidade, prolongando-a por toda a oitava, porque neste mistério contempla o complemento da redenção e o fundamento da religião cristã. São Pio X ensina que, se pela morte Cristo nos livrou do pecado e nos reconciliou com Deus, por sua Ressurreição abriu-nos a entrada à vida eterna; por isso, a Páscoa é passagem da morte para a vida, e também passagem da morte do pecado para a vida da graça.

Essa verdade ilumina o sentido mais alto da Oitava da Páscoa. O Ressuscitado não voltou simplesmente à vida terrena, como alguém que retoma a existência de antes. Ele entrou em uma vida gloriosa e imortal, na qual sua humanidade santíssima foi plenamente manifestada na glória. É precisamente essa vida gloriosa, inaugurada em sua carne vitoriosa, que se torna princípio da renovação dos fiéis. A Ressurreição de Cristo, portanto, não é um mistério fechado em si mesmo. Ela transborda. Ela alcança a Igreja. Ela começa a transformar aqueles que, pela fé e pelos sacramentos, são unidos ao Senhor. O cristianismo não consiste apenas em admirar Cristo ressuscitado, mas em participar realmente da vida do Ressuscitado. O Catecismo da Igreja Católica recorda que a Ressurreição confirma tudo o que Cristo fez e ensinou, e realiza as promessas do Antigo Testamento e do próprio Jesus, tornando-se também o princípio de nossa justificação (CIC 651-655).

É nesse horizonte que se entende a linguagem de São Paulo: “fomos sepultados com Ele na morte, para que, assim como Cristo ressuscitou dos mortos pela glória do Pai, também nós vivamos uma vida nova” (Rm 6,4). A vida nova do cristão nasce da Páscoa de Cristo. Ela não se reduz a um entusiasmo religioso passageiro, nem a uma reforma exterior de costumes. Trata-se de uma realidade sobrenatural, comunicada por Deus, que arranca o homem do domínio do pecado e o introduz numa ordem nova, marcada pela graça, pela filiação divina e pela esperança da glória. O mesmo Apóstolo ensina ainda que Cristo “foi entregue por nossos pecados e ressuscitado para nossa justificação” (Rm 4,25). Por isso, celebrar a Páscoa dignamente não é somente recordar um evento passado, mas acolher a ação presente do Ressuscitado, que quer renovar a alma, santificar os afetos e orientar toda a existência para Deus. Também São Pedro bendiz a Deus, que “pela Ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, nos regenerou para uma viva esperança” (1Pd 1,3).

A liturgia pascal exprime admiravelmente essa realidade. Na Vigília Pascal, a Igreja contempla o círio, sinal da luz de Cristo, e a pia batismal, sinal da vida nova que brota de sua vitória. Não é por acaso que São Pio X liga estreitamente a Páscoa e o Batismo, convidando os fiéis a agradecer pelo dom recebido e a renovar as promessas batismais. O Ressuscitado não apenas venceu por si mesmo; venceu para nos fazer participantes de sua vitória. Eis por que a Oitava da Páscoa é tempo de alegria profunda: nela a Igreja contempla o Senhor que passou da morte para a vida e, ao mesmo tempo, reconhece que essa passagem deve realizar-se também em cada fiel, da escravidão do pecado para a liberdade dos filhos de Deus. Assim, a Páscoa não é apenas memória do que Cristo viveu, mas princípio do que Ele quer realizar em nós (cf. Cl 3,1-4).

2.2. O Batismo: entrada real na morte e na Ressurreição do Senhor

Se a Ressurreição de Cristo é a fonte da vida nova, o Batismo é a porta pela qual essa vida entra na alma. A fé católica ensina com clareza que o Batismo não é simples símbolo de pertença religiosa, nem mera profissão pública da fé. Ele é verdadeiro sacramento de regeneração, instituído por Cristo, pelo qual o homem é libertado do pecado, renascido como filho de Deus, incorporado a Cristo e à Igreja, e feito participante de sua missão. O Catecismo da Igreja Católica resume essa doutrina de forma luminosa: no Batismo, a imersão na água significa a sepultura do catecúmeno na morte de Cristo, para que, pela Ressurreição com Ele, saia como “nova criatura” (CIC 1214; cf. 2Cor 5,17). São Paulo exprime isso com precisão ao dizer: “fomos sepultados com Ele pelo Batismo na morte” (Rm 6,4) e “com Ele fostes sepultados no Batismo, e também com Ele ressuscitastes” (Cl 2,12).

Por isso, a linguagem batismal é essencialmente pascal. Quando a Igreja batiza, não realiza um rito apenas evocativo, mas aplica sacramentalmente ao fiel o mistério da morte e da Ressurreição do Senhor. O homem velho, marcado pelo pecado, deve morrer; o homem novo, vivificado pela graça, deve nascer. O Batismo é chamado “lavacro de regeneração e renovação no Espírito Santo” (Tt 3,5) porque realiza aquilo que significa: o novo nascimento “da água e do Espírito” (Jo 3,5), sem o qual ninguém pode entrar no Reino de Deus. Assim, participar da nova vida de Cristo não começa primeiro no esforço moral humano, mas num dom objetivo, sobrenatural e eficaz de Deus, comunicado sacramentalmente à alma. O Catecismo define o Batismo como “a porta da vida no Espírito” e o fundamento de toda a vida cristã (CIC 1213).

Os efeitos do Batismo mostram a grandeza dessa participação. Pelo Batismo somos libertados do pecado e regenerados como filhos de Deus. Tornamo-nos membros de Cristo, somos incorporados à Igreja e passamos a viver sob a ação do Espírito Santo. O Catecismo ainda ensina que a graça recebida é participação na própria vida divina (CIC 1997): Deus não apenas perdoa de fora; Ele comunica de dentro a sua vida, santificando a alma. Eis por que a tradição fala de graça santificante ou deificante. O batizado não recebe apenas uma nova obrigação moral, mas uma nova condição espiritual: passa a viver, em germe, da própria vida de Deus, como filho adotivo no Filho Unigênito. Por isso, o Batismo apaga o pecado original, perdoa os pecados pessoais, infunde a graça santificante e imprime caráter sacramental indelével (CIC 1262-1274).

Essa doutrina dá à Oitava da Páscoa uma profundidade extraordinária. Quando a Igreja celebra o Ressuscitado, ela contempla também a origem da vida batismal dos fiéis. São Pio X recorda que, na Vigília Pascal, a bênção da pia batismal convida os cristãos a dar graças por terem recebido o Batismo e a renovar as promessas então feitas. A Páscoa, portanto, não é somente memória da vitória de Cristo; é também memória da nossa passagem, iniciada sacramentalmente, da morte do pecado para a vida da graça. Por isso, redescobrir o Batismo é redescobrir a própria identidade cristã. Quem foi batizado já foi marcado pela Páscoa do Senhor e já carrega em si o chamado a viver como nova criatura, “mortos para o pecado, vivos para Deus em Cristo Jesus” (Rm 6,11).

2.3. A graça santificante: participação na própria vida de Deus

Depois de contemplarmos a Ressurreição de Cristo como fonte da vida nova e o Batismo como a porta sacramental por onde essa vida entra na alma, é necessário dar um passo adiante e perguntar: o que, exatamente, recebemos de Deus quando participamos da nova vida de Cristo? A resposta da fé católica é luminosa: recebemos a graça santificante, isto é, o dom sobrenatural pelo qual Deus nos comunica a sua própria vida. O Catecismo ensina que “nossa justificação vem da graça de Deus” e que essa graça é o auxílio gratuito pelo qual Ele nos torna “filhos de Deus, filhos adotivos, participantes da natureza divina e da vida eterna” (CIC 1996). Logo em seguida, afirma que “a graça é uma participação na vida divina” e que ela nos introduz na intimidade da vida trinitária (CIC 1997). Portanto, participar da nova vida de Cristo não significa apenas receber força moral para agir melhor, mas ser realmente elevado a uma ordem sobrenatural, na qual a alma passa a viver da própria vida de Deus (2Pd 1,4; Gl 4,6-7).

Essa doutrina está intimamente unida à justificação. A Igreja ensina que a justificação não é mera declaração exterior, como se Deus apenas cobrisse o pecado sem transformar o pecador. Ao contrário, a justificação “comporta a remissão dos pecados, a santificação e a renovação do homem interior” (CIC 2019), e é concedida pelo Batismo, que nos torna conformes à justiça de Deus (CIC 2020). O mesmo ensinamento aparece de modo admirável em São Paulo: “Se alguém está em Cristo, é nova criatura; passaram-se as coisas antigas; eis que se fez uma realidade nova” (2Cor 5,17). E ainda: “o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5,5). A graça, portanto, não é simples benevolência externa, mas vida divina infundida na alma pelo Espírito Santo, para curá-la do pecado e santificá-la (CIC 1999).

É por isso que a tradição católica chama essa graça de santificante ou até deificante. Ela santifica porque faz a alma participar da santidade do próprio Deus; e deifica não porque o homem deixe de ser criatura, mas porque é elevado, por pura misericórdia, à comunhão com a vida divina. O Catecismo diz que essa graça é um “dom habitual”, uma disposição estável e sobrenatural, que aperfeiçoa a alma e a torna capaz de viver com Deus e agir por seu amor (CIC 2000). Daí nasce toda a vida espiritual autêntica: a fé viva, a esperança sobrenatural, a caridade, a oração filial, o combate interior e o crescimento nas virtudes. O Espírito Santo, que é o “mestre interior”, gera o homem interior e conduz a alma à santificação (Rm 6,19-22; CIC 1995). Assim, a nova vida de Cristo não permanece abstrata; ela se torna princípio interior de uma existência nova, fecunda e orientada para a eternidade.

Ao mesmo tempo, a Igreja insiste que essa graça é inteiramente dom e, por isso mesmo, exclui toda pretensão de autossalvação. “A preparação do homem para acolher a graça é já uma obra da graça” (CIC 2001). Deus toma a iniciativa, previne, desperta, move e sustenta; mas não anula a liberdade humana. Antes, cura-a, eleva-a e chama-a a cooperar. Por isso o Catecismo ensina que a justificação estabelece uma colaboração entre a graça de Deus e a liberdade do homem (CIC 1993), e que ninguém pode merecer a graça primeira da conversão (CIC 2027). Eis o equilíbrio católico: tudo começa por Deus, tudo depende de sua misericórdia, mas essa misericórdia não age em nós de modo mecânico; ela pede resposta, docilidade e perseverança. Participar da nova vida de Cristo é, pois, viver da graça, deixar-se conduzir pelo Espírito e consentir diariamente que Deus forme em nós o homem novo, até que a vida da graça se transforme, um dia, na glória sem véus (Ef 2,4-6; Cl 3,3-4).

2.4. Viver como nova criatura: consequências morais, eclesiais e litúrgicas

Se a graça santificante é participação real na vida divina, então ela deve aparecer concretamente na existência cristã. A nova vida recebida no Batismo e alimentada pela graça não pode permanecer como uma verdade apenas teórica. Quem foi unido a Cristo morto e ressuscitado é chamado a viver de modo novo. Por isso São Paulo exorta: “Se ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas do alto” (Cl 3,1); e ainda: “já não vivais para vós mesmos, mas para Aquele que morreu e ressuscitou por vós” (cf. 2Cor 5,15). O Catecismo resume essa exigência ao falar de uma verdadeira “catequese da vida nova” em Cristo (Rm 6,4), que deve ser catequese da graça, do Espírito Santo, das bem-aventuranças, das virtudes, da caridade e da vida eclesial (CIC 1697). Portanto, participar da nova vida de Cristo implica abandonar o homem velho e deixar que toda a vida seja progressivamente configurada ao Senhor ressuscitado (Ef 4,22-24).

Essa novidade aparece, antes de tudo, na vida moral. A moral cristã não nasce de um moralismo frio, nem de um conjunto de proibições isoladas. Ela nasce da graça. O homem que recebeu a vida de Cristo é chamado a viver segundo essa vida. Por isso, a justificação conduz à santificação, e a santificação conduz ao agir cristão. O Catecismo ensina que “a vida moral é um culto espiritual” e que, na liturgia e na celebração dos sacramentos, oração e doutrina se conjugam com a graça de Cristo para iluminar e alimentar o agir cristão (CIC 2031). Assim, lutar contra o pecado, praticar a caridade, guardar os mandamentos, crescer nas virtudes e aceitar a cruz cotidiana não são elementos acessórios da vida nova; são seus frutos necessários. O próprio Catecismo lembra que o apelo à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade se dirige a todos os fiéis (CIC 2028), e que o caminho de Cristo é um caminho de vida, não de acomodação espiritual (Mt 16,24; Rm 6,19-22).

Mas essa nova vida não é apenas moral; ela é também profundamente eclesial. O cristão não recebe a graça para viver isoladamente, como se a santidade fosse um projeto individual. Pelo Batismo, ele é incorporado a Cristo e à Igreja. O Catecismo ensina que o batizado “não pertence mais a si mesmo, mas àquele que morreu e ressuscitou por nós” (CIC 1269), sendo chamado a servir aos outros na comunhão da Igreja, a professar a fé diante dos homens e a participar da atividade apostólica e missionária do povo de Deus (CIC 1270). Mais adiante, afirma que é “em Igreja, em comunhão com todos os batizados, que o cristão realiza sua vocação” (CIC 2030). Isso significa que a vida nova de Cristo floresce na escuta da Palavra, na obediência da fé, na comunhão dos santos, na docilidade ao Magistério e no testemunho concreto da caridade. Quem vive de Cristo não se fecha em si, mas edifica a Igreja e serve a salvação das almas (1Pd 2,9; At 2,42).

Por fim, a nova vida em Cristo tem uma dimensão eminentemente litúrgica e sacramental. A liturgia não é ornamento externo da fé, mas o lugar onde Cristo continua a agir em sua Igreja. O Catecismo afirma que a liturgia empenha os fiéis na vida nova da comunidade (CIC 1071) e produz seus frutos na vida nova segundo o Espírito, no compromisso com a missão da Igreja e no serviço da unidade (CIC 1072). E acrescenta que ela é o ápice para o qual tende a ação da Igreja e a fonte de onde emana sua força, sendo a Eucaristia “fonte e ápice de toda a vida cristã” (CIC 1324). É por isso que o domingo, dia da Ressurreição, ocupa lugar central: nele a Igreja se reúne para partir o pão, anunciar o Mistério Pascal e receber de Cristo a força para viver como nova criatura (At 20,7; 1Cor 11,26). Participar da nova vida de Cristo exige, portanto, amor à liturgia, fidelidade à Missa dominical, vida de oração e comunhão frequente com os sacramentos, porque é neles que o Ressuscitado continua a transformar os seus.

2.5. Da graça presente à glória futura: a esperança da ressurreição

Participar da nova vida de Cristo não significa apenas receber uma renovação interior para o tempo presente; significa também ser introduzido numa esperança sobrenatural que aponta para a plenitude futura. A graça santificante já nos faz viver, em germe, da própria vida divina; mas essa vida, embora real, ainda está em estado de caminho. Por isso, a fé católica ensina que a Ressurreição de Cristo não é somente a causa de nossa justificação atual, mas também o princípio e a fonte de nossa ressurreição futura. O Catecismo afirma com clareza: “Cristo ressuscitou dos mortos, primícias dos que adormeceram... assim como todos morrem em Adão, em Cristo todos receberão a vida” (1Cor 15,20-22), e acrescenta que Cristo ressuscitado é “princípio e fonte de nossa ressurreição futura” (CIC 655). Logo em seguida, ensina que Cristo, “primogênito dentre os mortos” (Cl 1,18), é o princípio de nossa própria ressurreição, “desde já pela justificação de nossa alma, mais tarde pela vivificação de nosso corpo” (CIC 658). Assim, a nova vida já começou na alma pela graça, mas tende à glorificação integral do homem, corpo e alma.

Essa verdade impede duas reduções muito comuns. A primeira seria pensar a salvação apenas como realidade futura, sem eficácia no presente; a segunda, reduzi-la a uma experiência presente, esquecendo sua consumação eterna. A fé da Igreja mantém unidas as duas dimensões. Já agora, o fiel vive de Cristo e experimenta “as forças do mundo que há de vir” (Hb 6,5), como recorda o Catecismo ao comentar a vida do Ressuscitado no coração dos fiéis (CIC 655). Já agora, também, sua vida está “escondida com Cristo em Deus” (Cl 3,3), atraída para o alto e orientada para a glória. Mas ainda não vemos a plenitude daquilo que recebemos. Por isso São João escreve: “agora somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que havemos de ser” (1Jo 3,2). A vida nova é real, mas ainda velada; verdadeira, mas ainda combatente; já possuída em esperança, mas não ainda consumada em visão.

O Catecismo desenvolve essa esperança ao ensinar: “Cremos firmemente — e assim esperamos — que, da mesma forma que Cristo ressuscitou verdadeiramente dos mortos, e vive para sempre, assim também, depois da morte, os justos viverão para sempre com Cristo ressuscitado e que Ele os ressuscitará no último dia” (CIC 989). E explica que “ressurreição da carne” significa que não haverá somente a vida da alma imortal, mas que até os nossos “corpos mortais” receberão nova vida (Rm 8,11; CIC 990). Desde os inícios, essa foi uma verdade essencial da fé cristã: “Cristo ressuscitou dos mortos, primícias dos que adormeceram” (1Cor 15,20), e é precisamente nessa vitória do Senhor que repousa a esperança dos fiéis (CIC 991). Portanto, participar da nova vida de Cristo é viver entre o já e o ainda não: já regenerados pela graça, ainda peregrinos; já filhos, ainda esperando a herança plena; já ressuscitados espiritualmente, ainda aguardando a ressurreição gloriosa do corpo.

É nesse ponto que a Oitava da Páscoa e o domingo cristão adquirem sua profundidade escatológica. O Catecismo ensina que o domingo lembra a criação nova inaugurada com a Ressurreição de Cristo (CIC 2190) e que a Igreja celebra o dia da Ressurreição “no oitavo dia”, corretamente chamado dia do Senhor (CIC 2191). Também afirma que, a partir do tríduo pascal, “o tempo novo da Ressurreição enche todo o ano litúrgico com sua claridade” e que, desde a Páscoa de Jesus e a efusão do Espírito Santo, “o fim da história é antecipado, em antegozo, e o Reino de Deus penetra nosso tempo” (CIC 1168). Isso significa que a liturgia não apenas recorda a glória futura: ela a antecipa sacramentalmente. Cada domingo, cada Eucaristia, cada celebração pascal é um anúncio e um antegozo da herança prometida. Já vivemos no tempo novo, ainda que aguardando sua manifestação plena.

São Pio X exprime isso de modo simples e profundo ao ensinar que, assim como Cristo, por sua Ressurreição, começou uma vida “nova, imortal e celestial”, também nós devemos começar uma vida nova segundo o espírito, renunciando para sempre ao pecado e amando somente a Deus e tudo o que nos leva a Deus. A vida futura, portanto, não começa apenas depois da morte: ela começa agora, na medida em que a alma vive em estado de graça. O cristão caminha para a glória não como quem espera algo totalmente estranho ao presente, mas como quem já traz em si, pela graça, o princípio da eternidade. E é justamente isso que dá firmeza ao combate espiritual: sabemos que a Páscoa não é apenas promessa distante, mas realidade já iniciada em nós, que um dia florescerá plenamente na visão de Deus e na ressurreição da carne.

 

CONCLUSÃO

Ao longo desta reflexão, tornou-se claro que participar da nova vida de Cristo não é uma fórmula piedosa, mas uma realidade objetiva da fé católica. Cristo ressuscitou não somente para manifestar sua glória, mas para comunicar aos seus os frutos de sua vitória. Por sua morte, libertou-nos do pecado; por sua Ressurreição, abriu-nos o acesso à vida eterna e fez de sua Páscoa a fonte de nossa renovação. Por isso, toda a existência cristã nasce e se compreende a partir deste mistério: o Ressuscitado quer viver em nós, conformar-nos a si e conduzir-nos da velha vida do pecado à novidade da graça.

Vimos também que essa participação se realiza de modo concreto no Batismo, que constitui o nascimento para a vida nova em Cristo e faz do homem uma nova criatura (2Cor 5,17; CIC 1277-1279). Pelo Batismo, somos sepultados com Cristo e com Ele ressuscitados (Rm 6,4; Cl 2,12); recebemos a graça santificante, que é participação na vida divina (CIC 1997), e passamos a viver como filhos adotivos do Pai, membros de Cristo e templos do Espírito Santo. Daí decorre toda a vida moral, eclesial e litúrgica do cristão: quem recebeu a vida nova é chamado a viver de acordo com ela, buscando as coisas do alto (Cl 3,1-4), guardando os mandamentos, amando a Igreja, alimentando-se da Eucaristia e santificando o dia do Senhor.

Mas essa vida nova, embora já real, ainda caminha para sua plenitude. Já agora a graça nos faz viver da própria vida de Deus; já agora somos filhos; já agora o Reino penetra o tempo da Igreja. Contudo, ainda aguardamos a manifestação plena do que recebemos em germe. Cristo ressuscitado é o princípio e a fonte de nossa ressurreição futura: desde já pela justificação de nossa alma, mais tarde pela vivificação de nosso corpo (1Cor 15,20-22; CIC 655; CIC 658). É por isso que a Oitava da Páscoa e o domingo cristão têm também um sentido escatológico: eles anunciam que a nova criação já começou e que a glória prometida já se faz presente sacramentalmente na vida da Igreja.

Diante disso, a conclusão espiritual impõe-se com força. A Páscoa não pode ser celebrada apenas com alegria exterior ou devoção momentânea. Ela exige conversão real, fidelidade batismal e vida segundo o Espírito. Se Cristo nos trasladou da morte do pecado para a vida da graça, então já não podemos pertencer ao homem velho. Somos chamados a viver como ressuscitados com Cristo, mortos para o pecado e vivos para Deus (Rm 6,11). Em uma palavra, a Páscoa não é somente o que Cristo viveu uma vez na história; é o que Ele quer continuar realizando em cada alma fiel, até que a graça se transforme em glória e a vida nova, iniciada aqui, floresça plenamente na eternidade.

 

ORAÇÃO DE ENCERRAMENTO

Senhor Jesus Cristo, Ressuscitado dos mortos, nós Vos adoramos e bendizemos, porque, por Vossa santa Cruz e gloriosa Ressurreição, vencestes o pecado e a morte e nos abristes o caminho da vida eterna. Vós que nos fizestes passar, pelo Batismo, da morte para a vida, concedei-nos a graça de permanecermos fiéis à nova condição que recebemos em Vós. Fazei morrer em nós o homem velho e renovai-nos interiormente, para que vivamos como novas criaturas, mortos para o pecado e vivos para Deus.

Derramai em nossos corações o Vosso Espírito Santo, para que a graça santificante frutifique em fé firme, esperança viva e caridade ardente. Dai-nos amar a Vossa Igreja, honrar o domingo, buscar a Eucaristia e perseverar na oração, até o dia em que a vida nova, agora escondida convosco em Deus, se manifeste plenamente na glória. Vós que viveis e reinais pelos séculos dos séculos. Amém.

REFERÊNCIAS

  • João Paulo II. Catecismo da Igreja Católica. Cidade do Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 1992.

  • Bento XVI. Compêndio do Catecismo da Igreja Católica. Cidade do Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 2005.

  • Pio X. Catecismo Maior de São Pio X. Roma: Tipografia Vaticana, 1905.

  • Council of Trent. The Catechism of the Council of Trent for Parish Priests. Translated by John A. McHugh and Charles J. Callan. 1923.

  • Denzinger, Heinrich, and Adolf Schönmetzer, eds. Enchiridion Symbolorum, Definitionum et Declarationum de Rebus Fidei et Morum. 1957.

Comentários


Receba Inspirações Diárias em Seu E-mail. Assine a Newsletter do Caminho de Fé

Permita que a Palavra de Deus ilumine sua vida! Inscreva-se e receba e-mails sempre que publicarmos novos conteúdos para enriquecer sua caminhada espiritual.

Não perca a oportunidade de transformar cada dia com fé, esperança e inspiração. Inscreva-se agora!

Obrigado(a)!

bottom of page