O Servo do Senhor em Isaías: sofrimento e redenção (Is 52,13–53,12)
- escritorhoa
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INTRODUÇÃO
Entre as páginas mais sublimes do profeta Isaías, poucas possuem a densidade teológica e a força espiritual de Is 52,13–53,12. Este quarto Cântico do Servo apresenta, com impressionante profundidade, o mistério de um enviado de Deus que não salva pela espada, pelo triunfo político ou pela glória visível, mas pela humilhação, pela obediência e pelo sofrimento oferecido em favor de muitos. O texto começa com a exaltação do Servo, desce à sua desfiguração, à rejeição e à morte, e culmina na manifestação de uma vitória que nasce precisamente da entrega. Esse paradoxo está no coração da revelação cristã: aquilo que aos olhos humanos parece derrota, no desígnio divino torna-se redenção.
A tradição católica sempre reconheceu nesta perícope uma das mais luminosas profecias da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. Nela já aparecem, em admirável unidade, grandes temas da fé: o pecado da humanidade, a inocência do Servo, o sofrimento vicário, o sacrifício expiatório, a justificação dos pecadores, a intercessão em favor dos transgressores e a exaltação final daquele que se entrega até a morte. Não se trata apenas do retrato de um justo perseguido, mas da revelação de um justo cuja dor possui eficácia salvífica.
Por isso, ao contemplar o Servo do Senhor, a Igreja contempla antecipadamente o mistério da Cruz. Isaías mostra que a salvação não virá do poder humano, mas da iniciativa misericordiosa de Deus, que faz recair sobre o Servo a iniquidade de todos, para que muitos sejam curados, reconciliados e conduzidos à paz. Assim, estudar esta passagem é entrar no centro da esperança cristã: a redenção brota do amor obediente daquele que sofre por nós e, sofrendo, nos salva. Nela, a profecia se abre como convite à fé, à conversão e à adoração do Cordeiro inocente, cuja entrega gloriosa permanece fonte perene de vida para todos.

2. O SERVO SOFREDOR
2.1 O quarto Cântico do Servo: estrutura, contexto e movimento pascal
Isaías 52,13–53,12 ocupa lugar singular em toda a profecia veterotestamentária. A tradição cristã reconhece nesta perícope o quarto Cântico do Servo, verdadeiro cume da revelação sobre o mistério da redenção. Seu movimento interno é de extraordinária força teológica: o texto começa anunciando a exaltação do Servo, desce em seguida à sua humilhação extrema e termina manifestando os frutos de sua entrega. Não se trata, portanto, de uma simples descrição de sofrimento, mas de um itinerário sagrado em que humilhação e glória, dor e vitória, morte e fecundidade aparecem inseparavelmente unidos.
O prólogo divino, em Is 52,13-15, já oferece a chave de leitura de toda a passagem. O Senhor declara que o seu Servo “prosperará”, será “exaltado, elevado e sobremaneira engrandecido”. Contudo, essa exaltação não elimina o escândalo da dor; antes, passa por ele. O mesmo Servo que será elevado é também aquele cujo aspecto se encontra desfigurado a ponto de provocar espanto. Aqui se manifesta o primeiro grande paradoxo do texto: a glória prometida por Deus não assume a forma do triunfo terreno, mas atravessa a via da humilhação. Por isso, esta abertura já antecipa, em figura profética, o movimento do mistério pascal: descida, sofrimento, oferta e exaltação.
Depois do prólogo, a perícope se desenvolve em quatro momentos. Em 53,1-3, o Servo aparece rejeitado, sem beleza exterior, desprezado e considerado sem valor. Em 53,4-6, alcançamos o núcleo teológico do poema: ele sofre não por culpa própria, mas carrega as dores e as iniquidades alheias. Em 53,7-9, destaca-se sua inocência e seu silêncio, sobretudo na imagem do cordeiro conduzido ao matadouro. Finalmente, em 53,10-12, o texto atinge sua culminância sacrificial e redentora: o Servo oferece a própria vida, justifica a muitos, intercede pelos pecadores e recebe, ao fim, a herança da vitória. A estrutura inteira confirma que o sofrimento do Servo não é acidente secundário, mas parte constitutiva de sua missão salvadora.
Dois termos merecem atenção especial já nesta etapa. O primeiro é “aspergirá”, em 52,15, preservado pela tradição latina com forte ressonância litúrgica e sacerdotal. Ele sugere purificação, expiação e comunicação de santidade, inserindo o Servo no horizonte cultual do Antigo Testamento. O segundo é “sacrifício expiatório”, em 53,10, correspondente ao conceito de oferta de reparação. Com isso, Isaías mostra que o Servo não apenas sofre: ele se oferece. Desde o início até o fim, a passagem deixa claro que sua dor possui significado redentor. A exaltação final não corrige o sofrimento, mas o coroa; não o nega, mas revela seu fruto. Por isso, o quarto Cântico do Servo pode ser lido como uma das mais luminosas antecipações da Cruz de Cristo, na qual a vitória nasce precisamente da obediência amorosa levada até o extremo.
2.2. O Servo inocente, rejeitado e silencioso
Uma das notas mais impressionantes de Isaías 53 é o modo como o Servo do Senhor aparece aos olhos humanos. Ele não corresponde às expectativas naturais de grandeza. Não surge com poder exterior, imponência visível ou prestígio mundano. Ao contrário, é apresentado como rebento frágil em terra árida, sem beleza que atraia os olhares, “desprezado e o mais rejeitado entre os homens”, homem de dores e familiarizado com o sofrimento. O profeta desconstrói, assim, qualquer expectativa de um messianismo puramente terrestre. A obra de Deus realiza-se sob aparência de fraqueza; a eleição divina reveste-se de humildade; a glória esconde-se sob a figura do desprezo. É precisamente nesse ponto que Isaías prepara o olhar da fé para o escândalo da Cruz.
Entretanto, o texto não insiste apenas na rejeição do Servo, mas também em sua inocência absoluta. Ele sofre, mas não como culpado. O próprio oráculo afirma que nele não houve injustiça, nem fraude em sua boca. Esta observação é decisiva. Se o Servo padece sem culpa, então sua dor não pode ser interpretada como mera consequência de pecado pessoal. Sua inocência o distingue do povo pecador e fortalece a leitura pessoal e messiânica da passagem. Ele não é simplesmente um membro entre outros de uma coletividade ferida; ele é o Justo que se coloca diante dos injustos, o Santo que assume a condição dos pecadores sem participar de sua culpa. A tradição cristã verá aqui um anúncio transparente de Cristo, o Inocente por excelência, que sofre pelos culpados para reconciliá-los com Deus.
A terceira característica marcante é o silêncio do Servo. Isaías o compara ao cordeiro levado ao matadouro e à ovelha muda diante dos tosquiadores. Não se trata de silêncio nascido do desespero, da resignação vazia ou da impotência pura e simples. É, antes, o silêncio da obediência, da mansidão e da entrega voluntária. A expressão “não abriu a boca” manifesta submissão filial e aceitação do desígnio divino. O Servo não se rebela contra a vontade do Pai; ele a assume livremente. Por isso, seu silêncio possui densidade sacerdotal e reparadora: onde o homem pecador resiste, protesta e se afasta de Deus, o Servo obedece, consente e se oferece.
Esta obediência silenciosa é fundamental para a leitura católica da passagem. O Catecismo ensina que Jesus, ao iniciar sua missão, aceita desde o princípio sua condição de Servo sofredor e se deixa contar entre os pecadores, antecipando já o “batismo” de sua morte sangrenta para a remissão dos pecados. Assim, o Servo de Isaías não é somente modelo moral de paciência; é a figura profética daquele que, em perfeita obediência, abraça a missão redentora até o fim. Seu silêncio não é ausência de ação, mas forma suprema de ação salvadora. Ele cala diante dos homens para obedecer plenamente a Deus; aceita ser rejeitado para que muitos sejam acolhidos; deixa-se ferir para que outros sejam curados. Neste silêncio santo, a Igreja contempla a mansidão do Cordeiro, a pureza do Justo e a força vitoriosa da obediência que salva o mundo.
2.3 O sofrimento vicário e o sacrifício expiatório: o coração teológico de Isaías 53
O centro doutrinal de Isaías 52,13–53,12 encontra-se na afirmação de que o Servo sofre não por si mesmo, mas por outros. O profeta não descreve apenas a desventura de um inocente, nem somente o drama de um justo perseguido. Ele revela algo muito mais profundo: o Servo toma sobre si aquilo que pertencia aos pecadores. Por isso o texto insiste com força incomum: “ele tomou sobre si as nossas enfermidades”, “foi traspassado por causa de nossas iniquidades”, “o Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de todos nós”. Aqui se encontra a chave da passagem: o sofrimento do Servo é vicário, isto é, substitutivo e redentor. Ele ocupa o lugar dos culpados para que os culpados recebam aquilo que não poderiam obter por si mesmos: paz, cura e reconciliação com Deus.
Essa verdade pressupõe, antes de tudo, uma visão realista da condição humana. Isaías descreve os homens como ovelhas desgarradas, cada qual seguindo seu próprio caminho. Não se trata apenas de fraqueza psicológica ou de desordem social, mas de ruptura com Deus, de afastamento da vontade divina, de culpa verdadeira. O homem ferido pelo pecado não é capaz de restabelecer, por si só, a justiça da aliança. Por isso a redenção não nasce de um esforço ascendente da humanidade, mas de uma iniciativa misericordiosa do próprio Deus. O Servo entra onde o pecador não pode entrar; assume o peso que o homem não conseguiria carregar; oferece a reparação que o culpado não poderia apresentar com suficiência. O castigo que nos traz a paz cai sobre ele, e por suas chagas somos curados. Nessa formulação admirável, o profeta une satisfação, reconciliação e cura interior.
É importante notar que Isaías ultrapassa decididamente a ideia de um sofrimento meramente exemplar. O Servo não é apenas um modelo de paciência para inspirar os aflitos; ele realiza algo objetivo em favor dos outros. A linguagem do poema é concreta e sacrificial: carregar pecados, sofrer em lugar de, oferecer a própria vida, justificar a muitos, interceder pelos transgressores. Tudo indica que sua paixão possui eficácia diante de Deus. O texto, portanto, não permite reduzir o Servo a um herói moral nem a um símbolo coletivo de dor inocente. Sua missão é verdadeiramente mediadora. Ele sofre de tal modo que o sofrimento se torna oblação; é ferido de tal modo que suas feridas curam; morre de tal modo que sua morte abre caminho para a vida de muitos. Aqui já se delineia, em figura profética, o mistério da Cruz de Cristo como redenção objetiva do gênero humano.
O versículo 53,10 aprofunda ainda mais essa realidade ao afirmar: “Se ele oferecer sua vida em sacrifício expiatório”. O termo usado pertence ao vocabulário cultual e remete à oferta de reparação. Assim, o Servo não apenas suporta dores; ele se oferece. Seu sofrimento entra no horizonte do sacrifício. Ele é apresentado como vítima santa, entregue em expiação, em favor daqueles que haviam se perdido. A tradição cristã viu nisso uma das mais claras antecipações do sacerdócio de Cristo. No Antigo Testamento, o sacerdote oferecia uma vítima distinta de si; aqui, porém, a linha profética aponta para aquele que será ao mesmo tempo sacerdote e vítima. O Servo oferece a própria vida, e precisamente por isso seu padecimento adquire densidade litúrgica, expiatória e reconciliadora.
Essa leitura é confirmada de modo luminoso pela doutrina da Igreja. O Catecismo ensina que a morte de Cristo é o sacrifício único e definitivo, pelo qual se realiza a redenção dos homens e se restabelece a comunhão entre Deus e a humanidade. Ensina também que Jesus, por sua obediência até a morte, realizou a ação substitutiva do Servo sofredor, oferecendo a sua vida como sacrifício de expiação, carregando o pecado das multidões e justificando os pecadores. Não se trata, portanto, de simples linguagem devocional, mas do coração da fé católica na Redenção: Cristo reparou as nossas faltas e satisfez ao Pai pelos nossos pecados. Isaías 53 já contém, em admirável síntese profética, essa mesma estrutura: a culpa é nossa, a oferta é dele; a ferida é dele, a cura é nossa; a obediência é dele, a paz é nossa.
Nesse ponto, convém contemplar a harmonia entre justiça e misericórdia. À luz de Isaías, Deus não trata o pecado como algo leve, irrelevante ou puramente externo. O pecado destrói a ordem querida por Deus, exige reparação e manifesta a seriedade da condição humana decaída. Mas a resposta divina não é o abandono do pecador. Em sua misericórdia, o próprio Deus provê o remédio. O Servo sofre pelos culpados, e assim a justiça não é negada, mas satisfeita na caridade perfeita; a misericórdia não é sentimentalismo, mas amor eficaz que resgata, purifica e restaura. A paz anunciada por Isaías não é mero alívio emocional: é reconciliação real com Deus, cura da alma e reabertura do caminho da vida.
Por isso, o versículo “meu Servo justo justificará a muitos” possui importância capital. O Servo é chamado justo não apenas porque é inocente, mas porque, sendo justo, comunica justiça. Ele toma sobre si as iniquidades alheias para que muitos sejam restaurados na amizade divina. A justificação aqui não é mera declaração exterior; ela brota da obra redentora daquele que carrega o pecado e obtém a reconciliação. Também por isso a tradição cristã sempre viu em Isaías 53 uma das maiores profecias da Paixão de Nosso Senhor. Cristo é o Servo inocente, o Cordeiro conduzido ao matadouro, a vítima pascal, o sacerdote que oferece a si mesmo e o Redentor que intercede pelos transgressores. Nele, a profecia se cumpre plenamente: a dor torna-se sacrifício, o sacrifício torna-se expiação, e a expiação torna-se fonte de justificação para muitos.
2.4 Os frutos da redenção: justificação, cura, universalidade e vida sacramental
Depois de revelar o caráter vicário e expiatório do sofrimento do Servo, Isaías mostra também seus frutos. O Servo não sofre inutilmente, nem sua dor permanece fechada em si mesma. De sua entrega brotam efeitos reais para os homens: cura, paz, justificação e reconciliação. Por isso o profeta afirma: “o castigo que nos trouxe a paz caiu sobre ele, e por suas chagas fomos curados”. A linguagem é ao mesmo tempo medicinal, jurídica e religiosa. O pecado havia ferido a alma, rompido a amizade com Deus e desordenado o coração humano; a paixão do Servo, porém, introduz o remédio, restaura a paz e reabre o caminho da comunhão. A tradição católica sempre viu aqui mais do que consolo moral: trata-se de uma cura espiritual profunda, operada pela graça que Cristo mereceu para nós em sua obediência redentora. O Servo justo não apenas permanece justo em meio ao sofrimento; ele “justificará a muitos”, isto é, comunicará aos pecadores os frutos de sua obra salvadora.
Essa fecundidade redentora possui ainda um alcance universal. Já em Is 52,15 o Servo aparece relacionado a “muitas nações”, e os reis se calam diante dele. A profecia, portanto, ultrapassa o horizonte de um benefício restrito ou de uma restauração apenas nacional. O Servo age em favor de muitos, e esse “muitos” deve ser lido à luz da universalidade do desígnio divino: a redenção é oferecida a todos os povos, ainda que deva ser acolhida pessoalmente na fé, vivida na caridade e conservada na perseverança. O Catecismo recorda que Deus convoca os homens dispersos pelo pecado para a unidade de sua família e que Cristo enviou os Apóstolos a todas as nações, para que a salvação realizada uma vez por todas se tornasse conhecida e presente no mundo inteiro. Assim, a universalidade insinuada por Isaías encontra sua plena manifestação na missão da Igreja, enviada a anunciar, celebrar e comunicar a redenção do Servo glorificado.
É nesse ponto que se abre a dimensão eclesial e sacramental da profecia. A obra do Servo não permanece apenas como memória venerável de um fato passado; ela se torna fonte viva de graça na Igreja. A expressão “aspergirá muitas nações” pode ser contemplada à luz da purificação sacramental e da santificação dos povos. O Batismo aparece, então, como aplicação inicial da redenção: nele o homem é lavado do pecado, regenerado como filho de Deus, incorporado a Cristo e introduzido na Igreja. A Penitência, por sua vez, manifesta a continuidade da misericórdia redentora, pois oferece ao pecador batizado a restauração da graça perdida e a reconciliação com Deus e com a Igreja. E a Eucaristia é a presença sacramental do único sacrifício de Cristo, na qual a Igreja não repete a Cruz, mas participa liturgicamente de sua eficácia perene. A salvação de Deus, realizada uma vez por todas por Jesus Cristo, torna-se presente nas ações sagradas da liturgia e, de modo eminente, nos sacramentos. Assim, a profecia de Isaías conduz não apenas à contemplação da Cruz, mas também à vida sacramental, onde os frutos da redenção alcançam concretamente os fiéis, curando-os, fortalecendo-os e configurando-os cada vez mais ao Senhor.
2.5 Cristo, a leitura da Igreja e a espiritualidade da Cruz
A Igreja sempre reconheceu em Isaías 52,13–53,12 uma das mais luminosas profecias da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. Essa leitura não nasce de uma apropriação arbitrária, mas da íntima unidade entre o Antigo e o Novo Testamento no interior da Tradição viva. A própria vida da Igreja, sua liturgia, sua catequese e sua regra de fé confirmam que as Escrituras do Antigo Testamento encontram sua plena realização no mistério pascal de Cristo. Por isso, ao contemplar o Servo desfigurado, rejeitado, silencioso, inocente, oferecido em expiação e depois exaltado, a Igreja reconhece os traços do Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. A Pontifícia Comissão Bíblica recorda que a Igreja une estreitamente o Antigo e o Novo Testamento porque Jesus e os Apóstolos reconheceram as Escrituras antigas como inspiradas e realizadas em seu mistério pascal. Assim, Isaías 53 não é lido isoladamente, mas no coração da fé eclesial.
Também a tradição patrística recebeu essa passagem como um verdadeiro “Evangelho antecipado”. Os Padres convergem em pontos fundamentais: o Servo é Cristo; sua Paixão é voluntária; seu sofrimento é vicário; sua morte é sacrifício; sua glorificação está implicada no desfecho do texto; e a Igreja nasce dos frutos de sua redenção. São Jerônimo ressalta o caráter messiânico inequívoco da passagem e insiste que o Servo não pode ser identificado simplesmente com Israel, porque ele sofre pelos pecados do povo. Santo Agostinho contempla em “por suas chagas fomos curados” a eficácia da graça que restaura a alma e reconcilia o homem com Deus. São Leão Magno, por sua vez, relaciona o texto à liturgia da Paixão e vê na Cruz o trono do Rei glorioso. Dessa forma, a leitura patrística não reduz Isaías 53 a uma análise literária ou histórica: ela o acolhe como profecia viva, contemplada à luz de Cristo crucificado e ressuscitado.
Dessa leitura brota, enfim, uma espiritualidade autenticamente católica da Cruz. Isaías 53 não convida o fiel a buscar o sofrimento por si mesmo, mas a compreender que, unido a Cristo, o sofrimento pode ser purificado, oferecido e transfigurado. Daí nascem atitudes centrais da vida espiritual: humildade, paciência, reparação, penitência, confiança em Deus e união amorosa com o sacrifício do Senhor. O Catecismo recorda que a vida moral do cristão tem sua fonte e seu ponto alto no sacrifício eucarístico e que, em comunhão com Cristo, os fiéis oferecem a própria vida como culto espiritual. Por isso, a contemplação do Servo sofredor não termina em emoção religiosa, mas conduz à conformação concreta com Cristo: carregar a cruz com fé, combater o pecado, perseverar na caridade e transformar as provações em oferenda. Assim, o quarto Cântico do Servo permanece como escola permanente de vida cristã: nele aprendemos que a glória passa pela obediência, que a vitória passa pela Cruz e que o amor redentor de Cristo continua a santificar sua Igreja até o fim dos tempos.
CONCLUSÃO
À luz de Isaías 52,13–53,12, torna-se claro que o sofrimento do Servo do Senhor não contradiz sua missão, mas a revela em sua profundidade mais alta. A humilhação que os homens julgam fracasso é, no desígnio de Deus, o caminho da vitória. O Servo é rejeitado, ferido, conduzido à morte e contado entre os transgressores; contudo, precisamente por essa entrega obediente, ele justifica a muitos, carrega suas iniquidades e lhes alcança a paz. A glória final não apaga a Cruz, mas manifesta que a Cruz, acolhida em amor e obediência, é o instrumento escolhido por Deus para redimir o mundo.
Essa profecia também nos obriga a encarar com seriedade a realidade do pecado. Isaías não apresenta o mal como simples fragilidade humana, mas como desordem real que separa o homem de Deus e exige reparação. Ao mesmo tempo, o profeta revela a superabundância da misericórdia divina: o próprio Senhor provê o remédio ao oferecer o Servo inocente em favor dos culpados. Assim, onde abundou a ferida, superabundou a cura; onde reinava a culpa, resplandeceu a reconciliação; onde havia dispersão, abriu-se novamente o caminho da comunhão com Deus.
Por isso, Isaías 53 permanece atual para a vida da Igreja e de cada fiel. Nessa passagem, contemplamos não apenas uma profecia, mas o coração da esperança cristã: Deus não nos abandona em nosso desvio, mas nos salva por meio do Servo sofredor e glorioso. Diante desse mistério, somos chamados à conversão, à confiança e à adoração. Quem contempla o Servo com fé aprende que a redenção tem um preço, que o amor de Deus é mais forte que o pecado e que a paz nasce da obediência de Cristo. Nele encontramos perdão para nossas culpas, cura para nossas feridas e a certeza de que a Cruz conduz à vida eterna.
ORAÇÃO DE ENCERRAMENTO
Senhor Jesus Cristo, Servo sofredor e glorioso, nós Vos adoramos e Vos bendizemos, porque carregastes nossas dores, tomastes sobre Vós nossas iniquidades e, por vossas santas chagas, nos alcançastes a paz. Vós, Cordeiro manso, não abriste a boca diante da violência, mas Vos oferecestes livremente ao Pai por amor de nós.
Olhai para nossa pobreza, curai nossas feridas interiores, perdoai nossos pecados e ensinai-nos a viver na obediência, na humildade e na confiança. Quando a cruz pesar sobre nossos ombros, dai-nos a graça de uni-la à vossa Cruz, sem revolta, sem desespero e sem fugir de vossa vontade.
Fazei-nos participar dos frutos de vossa redenção, guardar fidelidade à Igreja, amar os sacramentos e perseverar até o fim. Ó Servo exaltado, que intercedeis pelos pecadores, conduzi-nos à conversão sincera, à paz do coração e à alegria da vida eterna. Recebei nosso louvor e tornai-nos testemunhas fiéis de vosso amor, hoje e sempre. Amém.
Isaías 52,13–53,12 — O Servo do Senhor: sofrimento e redenção
52,13 Eis que o meu Servo prosperará; será exaltado, elevado e sobremaneira engrandecido.
14 Assim como muitos se espantaram à vista dele — tão desfigurado estava seu aspecto, a ponto de não parecer homem, e sua aparência, a de um filho dos homens —,
15 assim aspergirá muitas nações; diante dele os reis fecharão a boca, porque verão aquilo que não lhes fora anunciado e compreenderão o que não tinham ouvido.
53,1 Quem acreditou naquilo que ouvimos? E a quem foi revelado o braço do Senhor?
2 Cresceu diante dele como um rebento, como raiz em terra árida; não tinha beleza nem formosura para atrair nossos olhares, nem aparência que nos agradasse.
3 Era desprezado e o mais rejeitado entre os homens, homem de dores e experimentado nos sofrimentos; como alguém diante de quem se cobre o rosto, era desprezado, e dele não fizemos caso.
4 Verdadeiramente, ele tomou sobre si as nossas enfermidades e carregou as nossas dores; e nós o reputávamos como castigado, ferido por Deus e humilhado.
5 Mas ele foi traspassado por causa de nossas iniquidades, esmagado por nossos pecados; o castigo que nos trouxe a paz caiu sobre ele, e por suas chagas fomos curados.
6 Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas, cada qual seguia seu próprio caminho; e o Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de todos nós.
7 Foi maltratado, e submeteu-se voluntariamente, sem abrir a boca; como cordeiro levado ao matadouro e como ovelha muda diante dos que a tosquiam, ele não abriu a boca.
8 Por opressão e julgamento foi arrebatado; e dentre os de sua geração, quem considerou que ele foi eliminado da terra dos vivos por causa dos pecados do meu povo?
9 Deram-lhe sepultura entre os ímpios e com o rico esteve após a sua morte, embora não tivesse cometido injustiça nem se encontrasse fraude em sua boca.
10 Mas aprouve ao Senhor esmagá-lo pelo sofrimento. Se ele oferecer sua vida em sacrifício expiatório, verá uma descendência, prolongará seus dias, e a vontade do Senhor prosperará em suas mãos.
11 Depois do tormento de sua alma, verá a luz e ficará saciado; por seu conhecimento, o meu Servo justo justificará a muitos, tomando sobre si as suas iniquidades.
12 Por isso lhe darei muitos como herança, e com os poderosos repartirá os despojos, porque entregou sua alma à morte e foi contado entre os pecadores; ele carregou os pecados de muito se intercedeu pelos transgressores.
