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A Carta de São Tomás a Frei João: Como Estudar para Alcançar o Tesouro da Sabedoria

ARTIGO - CARTA SÃO TOMÁS A FREI JOÃOCaminho de Fé
PODCAST - CARTA SÃO TOMÁS A FREI JOÃOCaminho de Fé

INTRODUÇÃO

Há textos breves que, como uma regra monástica em miniatura, reordenam a vida inteira. A carta tradicionalmente atribuída a São Tomás de Aquino a Frei João, sobre o modo de estudar, pertence a esse gênero: poucas linhas, porém cheias de peso espiritual. Não oferece técnicas de produtividade nem truques de memória; oferece antes uma ascese do intelecto, isto é, uma disciplina interior que torna a mente apta a acolher a verdade.

Tomás parte de um princípio simples: não se passa “dos riachos ao mar”. O saber verdadeiro cresce por degraus, com paciência e humildade, porque a inteligência humana aprende por ordem. A pressa, tão comum hoje, produz opinião sem fundamento; a dispersão, tão frequente, produz leitura sem assimilação. Por isso a carta insiste em silenciar, rezar, conservar a pureza da consciência, amar o recolhimento da cela, evitar a curiosidade e as conversas inúteis. Cada conselho protege um bem: a atenção, a memória, a caridade fraterna, a liberdade interior e, sobretudo, a orientação do estudo para Deus.

Lida com olhos apenas acadêmicos, a carta parece austera; lida com olhos de fé, revela-se misericordiosa. Ela não diminui o estudo: purifica-o. Recorda que toda ciência, quando se fecha em si, tende à vaidade; quando se abre à oração, torna-se serviço. É por isso que o fruto prometido não é brilho pessoal, mas “flores e frutos úteis na vinha do Senhor”. Primeiro flores: contemplação da verdade. Depois frutos: edificação dos irmãos.

A seguir, apresentamos o texto latino tradicional com tradução fiel, e, em seguida, um comentário espiritual, apoiado na Suma Teológica e na voz dos Padres, para que esta pequena carta seja recebida como o que ela deseja ser: uma escola de sabedoria cristã. Que o leitor, guiado por essa tradição, descubra que estudar é também um ato de adoração e de caridade humilde.

Frade dominicano caminha com livro junto ao peito ao longo de um riacho que se torna rio e deságua no mar, simbolizando o progresso do estudo.

2. COMO ESTUDAR COM SÃO TOMÁS

A) Texto latino tradicional e tradução fiel

(Carta atribuída a São Tomás de Aquino — “Sobre o modo de estudar”)

LATIM (texto tradicional)

EPITOLA ASCRIPTA THOMAE AQUINATIAD FRATREM IOANNEMDE MODO STUDENDI

Quoniam me, carissime in Christo frater Ioannes, requisisti quomodo studere debeas, ut scientiae thesaurum acquiras, hoc tibi consilium trado. Noli statim de rivulis ad mare transire, quia per faciliora ad difficiliora est perveniendum. Unde haec tibi propono, quae sint admonitio mea et instructio tua:

  1. Tardus esto ad loquendum, et tardus ad accedendum ad locum colloquii.

  2. Puritatem conscientiae amplectere.

  3. Orationi vacare non omittas.

  4. Cellam tuam dilige, si vis in cellam vinariam introduci.

  5. Omnibus te exhibe affabilem.

  6. Acta aliorum nullo modo scruteris.

  7. Nulli familiariter adhaereas, quia familiaritas contemptum parit et mentem a studio avertit.

  8. De negotiis et colloquiis saecularium omnino te abstine.

  9. Colloquia inutilia devita.

  10. Sanctorum et bonorum virorum exempla imitari ne desinas.

  11. Non attendas quis loquatur, sed quid boni dicatur memoriae recommenda.

  12. Quaecumque legis vel audis, intellige; dubia resolve et ea quae potes in horreum mentis reconde.

  13. Ad ea quae facultatem tuam excedunt non te extendas.

His observatis, flores et fructus utiles afferes in vinea Domini Sabaoth omnibus diebus vitae tuae, et ad id quod desideras pervenies.

PORTUGUÊS (tradução fiel)

CARTA ATRIBUÍDA A SÃO TOMÁS DE AQUINOA FREI JOÃOSOBRE O MODO DE ESTUDAR

Visto que me perguntaste, caríssimo em Cristo, Frei João, como deves estudar para adquirir o tesouro da ciência, transmito-te este conselho. Não queiras passar imediatamente dos riachos ao mar, porque é preciso chegar às coisas mais difíceis por meio das mais fáceis. Por isso, proponho-te o que segue, para que seja minha advertência e tua instrução:

  1. Sê lento para falar e lento para ir ao lugar das conversas.

  2. Abraça a pureza da consciência.

  3. Não omitas dedicar-te à oração.

  4. Ama a tua cela, se queres ser conduzido à adega do vinho.

  5. Mostra-te afável com todos.

  6. De modo algum investigues o que os outros fazem.

  7. Não te apegues familiarmente a ninguém, porque a familiaridade gera desprezo e desvia a mente do estudo.

  8. Abstém-te por completo dos negócios e das conversas dos seculares.

  9. Evita conversas inúteis.

  10. Não deixes de imitar o exemplo dos homens santos e bons.

  11. Não atentes para quem fala, mas recomenda à memória o que quer que se diga de bom.

  12. Tudo o que lês ou ouves, procura entender; resolve as dúvidas e deposita no celeiro da mente o que puderes.

  13. Não te estendas às coisas que excedem a tua capacidade.

Observando estas coisas, produzirás flores e darás frutos úteis na vinha do Senhor dos Exércitos por todos os dias da tua vida, e alcançarás aquilo que desejas.

Notas explicativas breves

  • locus colloquii (“lugar das conversas”): expressão que remete, no contexto conventual, ao espaço destinado ao diálogo comum; aqui significa também o ambiente de dispersão e curiosidade verbal.

  • cella vinaria (“adega do vinho”): eco do Cântico dos Cânticos (Ct 2,4), imagem espiritual da intimidade com Deus e da consolação divina.

  • horreum mentis (“celeiro da mente”): metáfora para a memória e a assimilação interior; não é mero acúmulo, mas guardar de modo ordenado aquilo que foi compreendido.

 

B) Leitura espiritual: Suma Teológica e Padres da Igreja, conselho por conselho

1. “Sê lento para falar e lento para frequentar o lugar das conversas.”

São Tomás começa pelo governo da língua porque a palavra, quando se solta sem freio, arrasta consigo a atenção e esvazia o recolhimento. O estudante cristão não busca apenas informação, mas uma verdade que pede silêncio para ser assimilada. Ser “lento para falar” não é desprezar a convivência fraterna, e sim submeter a conversa ao império da prudência: falar quando convém, calar quando o silêncio é mais fecundo. O “lugar das conversas”, por sua vez, simboliza o ambiente onde o espírito se torna reativo, curioso, opinativo — e, portanto, menos dócil à luz.

Na Suma Teológica, ao tratar dos pecados da língua e da maledicência, Tomás mostra como o falar desordenado fere a caridade e a justiça (Suma Teológica, II-II, q. 72). Mas também, ao tratar da virtude que ordena o desejo de conhecer, ele distingue o estudo virtuoso da curiosidade dispersiva: a studiositas guarda a alma do excesso e da dissipação (Suma Teológica, II-II, q. 166–167). A tradição patrística ecoa a mesma sabedoria: “Sê pronto para ouvir, tardio para falar” (Tg 1,19); e Santo Agostinho observa que o coração inquieto se derrama “nas coisas exteriores” e perde a interioridade onde Deus fala ao homem (cf. Confissões, X). Assim, o silêncio torna-se não vazio, mas vigilância amorosa que prepara a mente para a verdade.

2. “Guarda com zelo a pureza da consciência.”

Ao recomendar a pureza de consciência, São Tomás recorda que o estudo, para ser luminoso, requer retidão interior. A inteligência não é uma máquina neutra: ela é atravessada por afetos, desejos e escolhas. Quando a consciência se turva, a mente tende a justificar-se, a buscar aplauso, a defender posições — e o amor à verdade enfraquece. A pureza aqui é mais ampla que a castidade: é integridade moral, simplicidade de intenção, ausência de duplicidade diante de Deus.

Na perspectiva tomista, o pecado não apenas viola a lei divina; ele desordena as potências da alma. Por isso, Tomás ensina que a vida virtuosa dispõe a pessoa à clareza do juízo e à docilidade diante de Deus. A consciência reta é guardada pela prudência e pela temperança, que ordenam o agir e pacificam o interior (cf. Suma Teológica, I-II, q. 57–61; II-II, q. 47). Nessa linha, a Tradição vê uma conexão íntima entre pureza e visão: “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus” (Mt 5,8). São Gregório Magno, ao falar da vida espiritual, insiste que a mente só contempla com firmeza quando é purificada das paixões e do amor desordenado às coisas inferiores (cf. Moralia in Iob). Não se trata de moralismo, mas de realismo espiritual: uma consciência limpa é como vidro transparente — deixa passar a luz. Por isso, a pureza de consciência não é adorno do estudante; é condição de fecundidade para que a ciência não se converta em vaidade, mas em serviço.

3. “Nunca deixes de dedicar tempo à oração.”

A oração aparece como eixo porque, para São Tomás, o estudo cristão não se fecha na razão: ele se abre à Sabedoria que vem do alto. Rezar não é “parar de pensar”, mas colocar o pensar sob Deus, para que a inteligência permaneça humilde, agradecida e livre. Sem oração, a ciência pode inflar; com oração, ela se purifica e se ordena ao fim: conhecer para amar. A carta, assim, ensina que o estudo deve respirar num clima de graça, como uma lâmpada que precisa de óleo.

Tomás descreve a oração como ato próprio da religião, pela qual o homem se submete a Deus e reconhece sua dependência (Suma Teológica, II-II, q. 83). E lembra que toda verdade, ainda que alcançada por via racional, encontra seu termo em Deus, que é a Verdade primeira. Por isso, o estudante que reza não abandona a inteligência; ele a coloca no seu lugar: instrumento nobre, mas não absoluto. Entre os Padres, São João Crisóstomo insiste que a oração “ilumina a alma” e a torna forte contra as distrações e tentações; e Santo Agostinho confessa que o coração humano permanece inquieto até repousar em Deus (Confissões, I). Assim, a oração não concorre com o estudo: ela o cura da soberba, sustenta a perseverança e faz o saber tornar-se contemplativo. Quando a mente se ajoelha, não diminui: ela se torna mais verdadeira, porque aprende a receber.

4. “Ama permanecer longamente em tua cela, se desejas ser conduzido à adega do vinho.”

Este conselho é, ao mesmo tempo, ascético e místico. A cela não é apenas um lugar físico: é a figura do recolhimento onde a alma se reencontra e se torna disponível à verdade. São Tomás supõe o princípio já enunciado no início da carta: não se chega ao “mar” senão pela via ordenada; e essa ordem pede interioridade. A expressão “adega do vinho” retoma a linguagem do Cântico dos Cânticos (“Introduziu-me na adega do vinho”, Ct 2,4), isto é, a intimidade do amor divino que consola e fortalece. O estudo, quando verdadeiramente cristão, não é inimigo da contemplação: ele se purifica nela.

Na Suma Teológica, ao tratar do estado religioso, Tomás indica como a separação de certos ruídos do mundo — não por desprezo, mas por finalidade superior — favorece a união com Deus e a estabilidade do espírito (Suma Teológica, II-II, q. 188). A cela representa essa estabilidade: não é fuga, mas guarda do coração. Entre os Padres, São João Cassiano descreve a perseverança na cela como remédio contra a instabilidade interior: nela se aprende a combater as tentações e a adquirir a paz da mente (Cassiano, Instituições / Conferências, sobre a vida monástica). Assim, a cela é escola do silêncio fecundo: nela, o intelecto deixa de ser inquieto e torna-se capaz de receber a Sabedoria.

5. “Mostra-te afável com todos.”

São Tomás não separa ciência de caridade. A afabilidade é a forma concreta pela qual a caridade regula o trato cotidiano, impedindo que o estudo gere dureza, superioridade ou isolamento orgulhoso. Ser afável não significa superficialidade, nem concessão à vaidade humana; significa uma disposição estável de benevolência no convívio, capaz de acolher o outro com urbanidade e paz. A verdade, quando é amada, não produz aspereza; e a inteligência, quando é purificada, aprende a servir.

A própria Suma Teológica trata da affabilitas como virtude anexa à justiça: ela torna agradáveis as relações humanas sem cair na adulação nem na rudeza (Suma Teológica, II-II, q. 114). O estudante cristão, portanto, não deve usar o saber como instrumento de domínio, mas como serviço humilde. Entre os Padres, São João Crisóstomo insiste que a mansidão e a doçura no trato não diminuem a firmeza da verdade; antes, tornam-na mais persuasiva, porque refletem o modo de Cristo (Crisóstomo, homilias sobre a vida cristã e as virtudes). Santo Agostinho, por sua vez, recorda que a ciência sem caridade pode inflar, enquanto a caridade edifica (cf. 1Cor 8,1; Agostinho, comentários morais). Assim, a afabilidade não é ornamento: é sinal de que o estudo permanece sob o governo da caridade.

6. “Não te ocupes em investigar o que os outros fazem.”

Aqui São Tomás atinge uma das grandes tentações do intelecto: a curiosidade desordenada. Investigar “o que os outros fazem” pode parecer inofensivo, mas facilmente se converte em dispersão, comparação, julgamento e até maledicência. O espírito passa a viver do exterior — do movimento alheio — e perde a unificação interior necessária ao estudo e à oração. O verdadeiro estudante busca a verdade; o curioso, muitas vezes, busca matéria para excitação da mente e alimento do ego.

Na Suma Teológica, Tomás trata diretamente da curiosidade (curiositas) como vício oposto à virtude do estudo (studiositas): o desejo de conhecer deve ser ordenado pela razão e pelo fim reto; quando se torna devassamento do inútil ou do impróprio, desvia a alma (Suma Teológica, II-II, q. 167). Além disso, a inclinação a sondar e comentar a vida alheia roça o pecado da detração, que fere a justiça e a caridade (Suma Teológica, II-II, q. 73). Entre os Padres, São Basílio adverte que a vigilância deve começar por si mesmo: o coração se corrompe quando se entretém em julgar o próximo em vez de purificar-se diante de Deus (Basílio, Regras / exortações ascéticas). Assim, Tomás ensina uma liberdade interior: deixar o supérfluo para guardar o essencial, e conservar a mente simples para que a verdade habite nela.

7. “Não sejas excessivamente familiar com ninguém…”

São Tomás não condena a amizade — ao contrário, a tradição cristã a reconhece como bem precioso quando ordenada pela caridade —, mas alerta contra a familiaridade indiscreta, aquela proximidade que se torna possessiva, trivial, ruidosa, e acaba por corroer dois bens: o respeito (que protege a alma do desprezo) e a atenção interior (sem a qual o estudo se dispersa). A familiaridade excessiva reduz tudo ao imediato, ao comentário, ao afeto instável; e, pouco a pouco, o estudante perde o “centro” onde a verdade se recolhe e amadurece.

Na Suma Teológica, Tomás ensina que a caridade possui uma ordem: amar retamente é amar com medida, segundo Deus e segundo o fim último (Suma Teológica, II-II, q. 26). Quando um vínculo, ainda que lícito, passa a governar o coração, a ordem se rompe e a alma se torna menos livre para Deus. De modo correlato, ao tratar da studiositas, ele recorda que o desejo de conhecer e o uso do tempo precisam ser moderados para não cair em dispersão (Suma Teológica, II-II, q. 166–167). Entre os Padres, São Jerônimo adverte que a conversa frequente e a intimidade sem vigilância facilmente abrem portas a distrações e quedas, especialmente na vida consagrada (Jerônimo, cartas ascéticas). Assim, Tomás propõe uma sobriedade afetiva: não frieza, mas liberdade interior, para que a amizade permaneça santa e o estudo, recolhido.

8. “Não te envolvas nas discussões e negócios dos leigos.”

Este conselho não nasce de desprezo pelo mundo, mas de uma compreensão espiritual do fim próprio do religioso e do estudante sagrado. Há discussões e negócios que, mesmo legítimos, exigem uma atenção fragmentada e um espírito de disputa; e isso contraria a unidade interior necessária ao estudo e, sobretudo, à contemplação. Para São Tomás, a mente que se consagra ao conhecimento das coisas divinas precisa proteger o “interior”, onde a verdade é recebida com reverência, não com agitação.

Na Suma Teológica, ao tratar do estado religioso, Tomás observa que ele se ordena à perfeição da caridade e, por isso, implica certa separação das solicitações seculares que impedem a mente de tender com simplicidade a Deus (Suma Teológica, II-II, q. 188). E, quando distingue vida ativa e contemplativa, indica que as ocupações exteriores podem ser boas, mas frequentemente dispersam e diminuem a quietude necessária à contemplação (Suma Teológica, II-II, q. 179–182). Entre os Padres, São Gregório Magno, ao comentar o contraste entre Marta e Maria, recorda que a melhor parte é aquela que fixa o coração em Deus e não se deixa arrastar por preocupações múltiplas (Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos). Assim, o conselho de Tomás é uma pedagogia de prioridade espiritual: guardar a alma para o serviço maior, sem se deixar absorver por contendas e cuidados alheios ao próprio chamado.

9. “Evita conversas inúteis e dispersivas.”

A conversa inútil parece leve, mas age como vento contínuo que apaga a chama: ela desgasta a atenção, rouba a memória e faz o espírito perder gravidade. São Tomás conhece a fragilidade da mente humana: ela não consegue permanecer profunda quando vive de estímulos verbais constantes. Além disso, o falatório costuma escorregar para a crítica, a comparação e a malícia — e o estudo, que deveria elevar, torna-se ocasião de soberba e julgamento.

Na Suma Teológica, ao abordar os pecados da língua, Tomás mostra como a palavra desordenada pode ferir a justiça e a caridade, especialmente quando se transforma em detração ou murmuração (Suma Teológica, II-II, q. 73). E, ao tratar da curiosidade, ele revela o mecanismo interior da dissipação: a mente, ao buscar o supérfluo, perde o essencial (Suma Teológica, II-II, q. 167). Entre os Padres, a disciplina do silêncio é uma constante: a Regra de São Bento dedica capítulo específico à contenção da língua, por reconhecer que o excesso de palavras enfraquece a vida interior (Regra, cap. 6). São João Cassiano também descreve a tagarelice como porta de dispersão e como inimiga da oração (Cassiano, Conferências). Assim, evitar conversas inúteis é proteger a alma para que a palavra — quando vier — seja verdadeira, e para que o estudo permaneça unido à sabedoria.

10. “Imita o exemplo dos homens bons e santos.”

São Tomás insere aqui uma regra de ouro: a ciência cresce melhor quando é cultivada dentro de uma vida virtuosa. O estudante cristão não aprende apenas por conceitos, mas por exemplos; e os santos são exemplos providenciais, porque neles a verdade não permanece abstrata: torna-se forma de vida. Imitar os bons e santos não é copiar temperamentos, mas acolher um princípio: a inteligência floresce quando o coração é purificado, e a doutrina amadurece quando é vivida.

Na Suma Teológica, Tomás ensina que as virtudes se formam e se fortalecem por atos repetidos e bem ordenados: a vida moral educa a alma e dá estabilidade ao espírito (Suma Teológica, I-II, q. 63, a. 2). Por isso, a companhia e o exemplo dos virtuosos servem como escola concreta da prudência e da caridade. A tradição patrística insiste no mesmo caminho: Santo Agostinho reconhece que Deus nos atrai muitas vezes pelo testemunho de vidas transformadas, que despertam o desejo do bem (Agostinho, Confissões, VIII). São Basílio, ao formar os monges, recomenda observar os irmãos provados para aprender não só o que fazer, mas como perseverar (Basílio, Regras). Assim, a carta sugere que o estudo se torna verdadeiramente fecundo quando é conduzido sob a luz dos santos: neles vemos a união entre ciência e humildade, entre saber e amor.

11. “Não consideres quem é aquele que fala…”

Este conselho é uma lição de humildade intelectual. A verdade não se mede pelo prestígio do mensageiro, mas pelo bem que ela contém. Quem está preso às pessoas — à simpatia, à reputação, ao partido, ao “nome” — perde a liberdade interior necessária para reconhecer o verdadeiro. São Tomás pede ao estudante que seja dócil ao bem, mesmo quando vem de quem é simples, desconhecido ou pouco estimado. E pede também que não se deixe seduzir por palavras brilhantes, se nelas não houver substância.

A Suma Teológica mostra que a humildade resiste ao vício que intoxica o saber: a soberba, que prefere vencer a compreender, e brilhar a servir (Suma Teológica, II-II, q. 161). Por isso, acolher a verdade “onde quer que esteja” é um exercício de retidão do coração, que busca Deus — não a própria imagem. Entre os Padres, Santo Agostinho adverte que não se deve amar “o mestre” mais do que a verdade, pois todos os homens são falíveis, e a verdade pertence a Deus (Agostinho, De Magistro). São João Crisóstomo, ao exortar os fiéis, insiste que o cristão deve reter o que é bom e verdadeiro, sem deixar que a vaidade ou o preconceito fechem os ouvidos (Crisóstomo, homilias). Assim, Tomás forma um discípulo livre: atento ao conteúdo, não ao espetáculo; à luz, não ao aplauso.

12. “Procura compreender tudo o que lês e ouves… resolve as dúvidas… deposita no celeiro da mente…”

Aqui a carta descreve o coração do verdadeiro estudo: compreender, não apenas passar os olhos; resolver dúvidas, não acumular confusões; guardar, não deixar dissipar. São Tomás trata o intelecto como um “celeiro” (horreum mentis): uma imagem de assimilação ordenada, na qual o conhecimento não se perde porque foi incorporado com inteligência e método interior. O conselho, portanto, não celebra a pressa, mas a profundidade; não a quantidade, mas a verdade possuída com firmeza.

Na Suma Teológica, Tomás expõe a virtude que ordena o desejo de aprender, evitando a curiosidade dispersiva: a studiositas governa o estudo para que ele seja reto e frutífero (Suma Teológica, II-II, q. 166–167). E, ao tratar da prudência, ele enumera disposições essenciais para aprender bem: memória, inteligência dos princípios, docilidade e razão — como partes integrais da prudência prática e, por analogia, do bom juízo no estudo (Suma Teológica, II-II, q. 49). Entre os Padres, Santo Agostinho insiste que a compreensão pede ordem e paciência, e que as dificuldades devem ser enfrentadas com humildade e perseverança (Agostinho, De doctrina christiana). Assim, o “celeiro da mente” não é arquivo morto: é interioridade viva, onde a verdade se torna alimento.

13. “Não te ocupes de coisas que ultrapassem a tua capacidade.”

São Tomás encerra a série de conselhos com uma virtude silenciosa e raríssima: a humildade intelectual que sabe respeitar a própria medida. Não é convite à mediocridade, mas ao caminho seguro. O estudo tem uma ordem: “dos riachos ao mar”. Quem tenta abarcar o que ainda não pode, frequentemente cai em duas armadilhas opostas: ou se enche de presunção (pensando saber), ou se desencoraja (por não conseguir dominar de imediato). Em ambos os casos, perde-se o fruto. O Doutor Angélico, que foi um dos mais altos gênios da cristandade, recomenda precisamente o contrário do impulso vaidoso: paciência, progressão, fidelidade ao método.

Na Suma Teológica, a humildade é apresentada como virtude que modera o apetite de excelência e impede o homem de ultrapassar desordenadamente sua condição (Suma Teológica, II-II, q. 161). E, quando Tomás descreve a prudência, indica como ela exige atenção ao real e ao possível, julgando segundo a reta razão e não segundo o desejo (Suma Teológica, II-II, q. 47). Aplicado ao estudo, isso significa: aprender com ordem, consolidar fundamentos, aceitar que certas questões pedem maturidade intelectual e moral. Entre os Padres, São Gregório Magno adverte contra a soberba que leva o homem a buscar alturas sem base, e afirma que a verdadeira sabedoria cresce em humildade (Gregório Magno, Moralia in Iob). Assim, “não te ocupes do que excede tua capacidade” é um ato de fé na pedagogia de Deus: Ele conduz a mente passo a passo, para que a verdade não seja apenas tocada, mas possuída com firmeza.

14. Fruto final: “Produzirás flores e darás frutos úteis…”

O último conselho é uma promessa: se o estudo for governado por silêncio, pureza, oração, recolhimento e humildade, ele se tornará fecundo. São Tomás fala em “flores” e “frutos”. As flores evocam o esplendor interior da contemplação: a alegria serena de ver a verdade, de saboreá-la com reverência, de deixar-se elevar por ela. Os frutos evocam a utilidade eclesial: o conhecimento que não termina em si mesmo, mas serve à vinha do Senhor — isto é, à edificação da Igreja, ao bem das almas, à defesa da fé e ao consolo dos fiéis. A ciência, para Tomás, não é fim último: ela é instrumento de caridade.

Na Suma Teológica, ao tratar da vida contemplativa e de sua relação com a ativa, Tomás ensina que é mais perfeito comunicar aos outros aquilo que se contemplou (contemplata aliis tradere) do que apenas contemplar, pois a caridade tende a difundir o bem (Suma Teológica, II-II, q. 188, a. 6; cf. também II-II, q. 182). Eis a unidade das “flores” e dos “frutos”: contemplação verdadeira que transborda em serviço. Entre os Padres, São Gregório Magno descreve a contemplação como fonte de onde brota um agir mais puro e mais reto, porque nasce da união com Deus (Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos). Assim, o objetivo do estudo cristão não é vencer debates, mas produzir vida: uma mente iluminada que se torna humilde; um coração pacificado que se torna fecundo; e uma palavra que edifica porque foi amadurecida no silêncio e na oração.

 

CONCLUSÃO

Ao término desta carta, percebe-se que São Tomás não nos entrega um método externo, mas uma forma interior. O estudo, para ele, é um caminho de ordenação: ordenar a língua, os afetos, a curiosidade, o tempo, a memória e a própria ambição. Assim, o intelecto deixa de ser um palco e volta a ser instrumento; deixa de buscar aplauso e aprende a buscar a verdade. E a verdade, quando é buscada com retidão, conduz inevitavelmente a Deus.

Os conselhos parecem simples, mas se enraízam numa visão robusta da vida espiritual: a mente só se torna clara quando o coração é puro; a palavra só edifica quando nasce do silêncio; a leitura só frutifica quando é compreendida e guardada; e a contemplação só permanece quando é defendida da dispersão. A tradição patrística e a doutrina tomista convergem aqui: a graça não substitui o esforço, mas o purifica; a razão não é negada, mas elevada; a disciplina não é rigidez, mas liberdade.

Por isso, a promessa final não é triunfalista, e sim eclesial. “Flores e frutos” descrevem dois movimentos inseparáveis: primeiro, a beleza interior de uma inteligência pacificada pela oração; depois, a utilidade humilde de um saber que se oferece à vinha do Senhor. Em um tempo marcado por excesso de informação e pobreza de sabedoria, a carta nos devolve o essencial: estudar para servir, conhecer para amar, aprender para adorar.

Se estes conselhos forem acolhidos como regra de espírito, o leitor perceberá que a verdadeira ciência não é acumulada, mas convertida. Ela se torna luz para o caminho, alimento para a fé, e instrumento discreto de caridade. Assim, aquilo que começou nos “riachos” do esforço cotidiano pode, por misericórdia, desembocar no “mar” da Sabedoria que permanece. E então, sem ruído, o estudante participa da missão da Igreja: transmitir Cristo, a Verdade.

 

ORAÇÃO DE ENCERRAMENTO

Senhor Deus, fonte de toda sabedoria, nós Vos bendizemos, porque toda luz verdadeira vem de Vós e para Vós retorna. Purificai o nosso coração, para que a busca do conhecimento não se torne vaidade, mas serviço; não seja inquietação, mas paz; não seja curiosidade, mas amor à verdade. Concedei-nos o silêncio que recolhe, a oração que ilumina, e a humildade que sustenta o caminho “dos riachos ao mar”. Guardai-nos da dispersão, da palavra inútil e do desejo desordenado de brilhar. Fazei que o nosso estudo produza flores de contemplação e frutos úteis na vinha do Senhor, para edificação da Igreja e salvação das almas. Pela intercessão de São Tomás de Aquino, dai-nos perseverança e retidão de intenção, para que em tudo busquemos a Vossa glória e a fidelidade à fé. Amém.

REFERÊNCIAS

  • Agostinho de Hipona. Confessions. Traduzido por J. G. Pilkington. In Nicene and Post-Nicene Fathers, First Series, vol. 1. Editado por Philip Schaff. Buffalo, NY: Christian Literature Publishing Co., 1887. Acesso em 24 jan. 2026.

  • Agostinho de Hipona. On Christian Doctrine. Traduzido por J. Shaw. In Nicene and Post-Nicene Fathers, First Series, vol. 2. Editado por Philip Schaff. Buffalo, NY: Christian Literature Publishing Co., 1887. Acesso em 24 jan. 2026.

  • Agostinho de Hipona. Against the Academicians and The Teacher. Traduzido, com introdução e notas, por Peter King. Indianapolis: Hackett Publishing Company, 1995.

  • Aquinas, Thomas (atribuído). “De modo studendi (A Letter to Brother John on How to Study).” In Catholic Library (texto online). Acesso em 24 jan. 2026.

  • Aquinas, Thomas. Summa Theologica. Traduzido por Fathers of the English Dominican Province. New York: Benziger Brothers, 1947. Acesso em 24 jan. 2026.

  • Basil of Caesarea. The Ascetic Works of Saint Basil. Traduzido, com introdução e notas, por W. K. Lowther Clarke. London: Society for Promoting Christian Knowledge; New York: Macmillan, 1925.

  • Benedict of Nursia. The Rule of Saint Benedict. Traduzido para o inglês. Prefácio de W. K. Lowther Clarke. London: Society for Promoting Christian Knowledge, 1931. Acesso em 24 jan. 2026.

  • Bíblia. Nova Vulgata: Bibliorum Sacrorum Editio. Editio typica altera. Cidade do Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 1986. Acesso em 24 jan. 2026.

  • Cassian, John. Conferences. Traduzido por C. S. Gibson. In Nicene and Post-Nicene Fathers, Second Series, vol. 11. Editado por Philip Schaff e Henry Wace. Buffalo, NY: Christian Literature Publishing Co., 1894. Acesso em 24 jan. 2026.

  • Chrysostom, John. Homilies on the Gospel of John. Traduzido por Charles Marriott. In Nicene and Post-Nicene Fathers, First Series, vol. 14. Editado por Philip Schaff. Buffalo, NY: Christian Literature Publishing Co., 1889. Acesso em 24 jan. 2026.

  • Gregory the Great. Morals on the Book of Job. 3 vols. Oxford: John Henry Parker; London: J. G. F. & J. Rivington, 1844–1845. Acesso em 24 jan. 2026.

  • Gregory the Great. Forty Gospel Homilies. Traduzido por David Hurst, O.S.B. Cistercian Studies Series 123. Kalamazoo, MI: Cistercian Publications, 1990.

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