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A Apresentação do Senhor: Luz para as Nações e Obediência Perfeita ao Pai


ARTIGO - APRESENTAÇÃO DO SENHORCaminho de Fé

INTRODUÇÃO

A Festa da Apresentação do Senhor, celebrada quarenta dias após o Natal, conduz-nos ao Templo de Jerusalém para contemplar um mistério de luz e obediência. O Filho eterno do Pai, feito homem por nós, é levado nos braços de Maria e José para ser “apresentado ao Senhor”, segundo a Lei. À primeira vista, o gesto parece simples: uma família piedosa cumpre prescrições religiosas. Porém, sob o véu do rito, revela-se a profundidade do plano divino: o Redentor entra na casa de Deus e começa a manifestar, desde a infância, a lógica de sua missão — a oferta de si mesmo ao Pai para a salvação do mundo.

Por isso, esta celebração reúne em si três dimensões inseparáveis. É, antes de tudo, uma festa cristológica: na Apresentação, o Primogênito consagrado inaugura, no Templo, a oblação que alcançará sua plenitude no Calvário. É também uma festa de humildade: Cristo, autor da Lei, submete-se a ela; Maria, a Puríssima, cumpre as prescrições legais, ensinando-nos que a santidade verdadeira não procura pretextos para dispensas, mas ama a fidelidade. E é, enfim, uma festa de luz: Simeão proclama o Menino como “luz para iluminação das nações”, e a tradição litúrgica faz resplandecer esse símbolo na procissão das velas.

O Catecismo Romano sintetiza o núcleo espiritual desta solenidade ao afirmar que nela se contempla “o encontro do Redentor com o Seu povo e a obediência perfeita à Lei de Deus” (I IV 11). Simeão e Ana representam o Israel fiel que espera, ora e reconhece o Salvador quando Ele chega na humildade. Também nós, ao ouvir este Evangelho, somos convidados a ir ao encontro de Cristo, acolher sua luz e aprender com Ele a obedecer por amor.

Guiados pela Escritura e pela Tradição, percorreremos passo a passo a narrativa de Lucas, para que a liturgia não fique apenas na memória, mas desça ao coração e se torne vida.
Apresentação do Senhor no Templo: Maria entrega o Menino Jesus a Simeão, com José e a profetisa Ana, sob luz sagrada, segundo Lc 2,22–40.

O ENCONTRO DO REDENTOR COM SEU POVO

1) ORIGEM DA FESTA

A Festa da Apresentação do Senhor tem sua origem direta no acontecimento narrado pelo Evangelho segundo São Lucas (Lc 2,22–40), quando o Menino Jesus é levado ao Templo de Jerusalém para ser apresentado ao Senhor, conforme as prescrições da Lei mosaica. Celebrada quarenta dias após o Natal, esta solenidade ocupa um lugar singular no ciclo litúrgico, pois une o mistério da Encarnação ao prenúncio da Paixão, manifestando desde o início da vida terrena de Cristo o sentido sacrificial de sua missão redentora.

Ao longo da tradição da Igreja, a festa recebeu diferentes nomes, cada qual ressaltando um aspecto teológico do mesmo mistério. O título Apresentação do Senhor sublinha a centralidade cristológica do evento: o Primogênito eterno do Pai é oferecido no Templo, não porque pertença à Lei, mas porque voluntariamente se submete a ela. A designação Purificação da Santíssima Virgem Maria destaca a obediência humilde da Mãe de Deus, que, embora Imaculada, aceita cumprir os ritos legais para ensinar aos fiéis o valor da submissão às disposições divinas. Já o nome popular Candelária ou Festa das Luzes deriva da procissão das velas, símbolo de Cristo como a verdadeira Luz que vem iluminar todos os povos.

Desde os primeiros séculos, a liturgia da Igreja interpretou este acontecimento não como um simples cumprimento ritual, mas como um verdadeiro encontro: o Redentor entra no Templo e encontra o povo que O espera. Simeão e Ana personificam o Israel fiel, que vive da promessa e reconhece o Messias quando Ele se manifesta na humildade. Por isso, o Catecismo Romano ensina que nesta festa se contempla “o encontro do Redentor com o seu povo e a obediência perfeita à Lei de Deus” (I IV 11).

Assim, a Apresentação do Senhor não recorda apenas um fato do passado, mas ilumina a vida cristã: chamados a levar Cristo como luz, os fiéis são convidados a apresentarem-se a Deus com corações obedientes, vigilantes e cheios de esperança.

2) NARRATIVA DA APRESENTAÇÃO (Lucas 2,22–40)

22 E quando se completaram os dias da purificação deles, segundo a Lei de Moisés, levaram-no a Jerusalém para o apresentar ao Senhor, 23 conforme está escrito na Lei do Senhor: Todo primogênito do sexo masculino será consagrado ao Senhor, 24 e para oferecerem o sacrifício prescrito na Lei do Senhor: um par de rolas ou dois pombinhos.

25 Ora, havia em Jerusalém um homem chamado Simeão; este homem era justo e piedoso, esperando a consolação de Israel, e o Espírito Santo estava sobre ele.

26 Fora-lhe revelado pelo Espírito Santo que não veria a morte antes de ver o Cristo do Senhor.

27 Movido pelo Espírito, foi ao Templo; e quando os pais trouxeram o Menino Jesus para cumprir a respeito dele o costume da Lei, 28 Simeão tomou-o em seus braços, bendisse a Deus e disse: 29 “Agora, Senhor, deixais partir em paz o vosso servo, segundo a vossa palavra, 30 porque meus olhos viram a vossa salvação, 31 que preparastes diante de todos os povos: 32 luz para iluminação das nações e glória de Israel, vosso povo.”

33 Seu pai e sua mãe admiravam-se do que se dizia dele.34 Simeão os abençoou e disse a Maria, sua mãe: “Eis que este Menino está destinado à queda e à elevação de muitos em Israel, e a ser sinal de contradição —35 e uma espada traspassará a tua própria alma — para que se revelem os pensamentos de muitos corações.”

36 Havia também uma profetisa, Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser; era avançada em idade: depois de ter vivido sete anos com seu marido desde a virgindade,37 permanecera viúva até os oitenta e quatro anos; não se afastava do Templo, servindo a Deus noite e dia com jejuns e orações.38 Chegando naquela mesma hora, dava graças a Deus e falava do Menino a todos os que esperavam a redenção de Jerusalém.

39 E depois de terem cumprido tudo segundo a Lei do Senhor, voltaram à Galileia, à sua cidade de Nazaré.40 O Menino crescia e se fortalecia, cheio de sabedoria, e a graça de Deus estava sobre ele.

Tendo diante de nós a narrativa completa, a Igreja nos convida a contemplá-la como um único mistério em vários movimentos: a obediência humilde da Sagrada Família, o reconhecimento profético do Messias, o anúncio da universalidade da salvação e o prenúncio da Paixão. Nada aqui é mero rito externo: cada gesto “segundo a Lei do Senhor” torna-se anúncio da economia da Redenção. Por isso, seguiremos o texto passo a passo, começando pela submissão de Cristo à Lei nos versículos 22–24, onde o Autor da Lei se coloca sob a Lei para nos ensinar a obediência que salva e a humildade que agrada a Deus.

3) A submissão de Cristo à Lei (vv. 22–24)

Os versículos iniciais da narrativa da Apresentação do Senhor colocam em evidência um dado fundamental da economia da salvação: a livre submissão de Cristo à Lei mosaica. São Lucas insiste duas vezes na expressão “segundo a Lei do Senhor”, sublinhando que nada neste gesto é acidental ou meramente cultural. O Menino Jesus, verdadeiro Filho de Deus, é levado ao Templo não por necessidade, mas por obediência voluntária. Aquele que é o Autor da Lei aceita colocar-Se sob a Lei, antecipando, desde a infância, o caminho de humildade que culminará na obediência da Cruz.

Essa submissão manifesta, antes de tudo, a verdadeira humanidade do Verbo encarnado. Cristo não assume uma humanidade aparente ou incompleta, mas entra plenamente na condição humana, submetendo-Se às estruturas religiosas e sociais do seu povo. Como ensina o Catecismo Romano, Jesus quis submeter-Se à Lei “para nos dar exemplo de obediência e humildade” (I IV 7). Ele não vem abolir a Lei, mas cumpri-la desde dentro, santificando-a pela sua presença e orientando-a para sua plenitude redentora.

Ao mesmo tempo, a participação de Maria neste rito reveste-se de profundo significado espiritual. Embora isenta de toda mancha do pecado original, a Santíssima Virgem aceita cumprir os ritos de purificação prescritos pela Lei. Não o faz por obrigação, mas por amor e docilidade à vontade divina. O Catecismo Romano recorda que Maria quis obedecer às prescrições legais para ensinar aos fiéis a importância de cumprir os deveres religiosos sem buscar dispensas indevidas (III I 8). Sua obediência silenciosa revela que a santidade autêntica não se afirma pela exceção, mas pela fidelidade humilde.

O sacrifício oferecido — “um par de rolas ou dois pombinhos” — confirma ainda a pobreza santa da Sagrada Família. Trata-se da oferta permitida aos pobres, conforme a Lei (Lv 12,8). Assim, obediência e pobreza caminham juntas, preparando o coração para acolher a Luz que vem ao mundo. Cristo é apresentado como dom total ao Pai, e este primeiro oferecimento no Templo antecipa sacramentalmente o sacrifício perfeito que Ele consumará no Calvário.

Para o fiel, esta cena torna-se um convite concreto: aprender de Cristo a obedecer não por medo, mas por amor; apresentar a Deus a própria vida com simplicidade, aceitando que a salvação se constrói na fidelidade cotidiana à vontade divina.

4) Simeão: figura da esperança de Israel (vv. 25–32)

A figura de Simeão emerge no Evangelho como um retrato luminoso do Israel fiel, aquele que vive da promessa e persevera na esperança. São Lucas descreve-o como “justo e piedoso”, qualidades que, na Escritura, designam o homem que conforma sua vida à vontade de Deus e se mantém vigilante diante de Suas promessas. Simeão não espera sinais extraordinários nem se apoia em cálculos humanos: ele “esperava a consolação de Israel”, sustentado pela fé e pela ação silenciosa do Espírito Santo.

A presença do Espírito é determinante em toda a sua atuação. O Espírito repousa sobre ele, revela-lhe o cumprimento da promessa e o move a ir ao Templo no momento exato. O encontro com Cristo não é fruto do acaso, mas da docilidade interior de quem vive em escuta. Simeão ensina que a verdadeira esperança nasce da oração perseverante e da fidelidade cotidiana, que tornam o coração capaz de reconhecer o Salvador quando Ele se manifesta na humildade.

O ponto culminante de sua experiência é o cântico conhecido como Nunc dimittis. Ao tomar o Menino nos braços, Simeão proclama que seus olhos viram a salvação. A redenção deixa de ser apenas promessa futura: torna-se realidade visível, concreta, oferecida por Deus à humanidade. Conforme ensina o Catecismo Romano, Cristo é reconhecido como o Salvador prometido desde o Paraíso e anunciado pelos Patriarcas e Profetas (I III 4; I IV 1). A salvação não é uma ideia, mas uma Pessoa.

O cântico de Simeão revela ainda a dimensão universal da missão de Cristo. Ele é “luz para iluminação das nações” e, ao mesmo tempo, “glória de Israel”. Essas duas expressões não se opõem, mas se completam. Aos gentios, Cristo traz a luz que dissipa as trevas da ignorância; a Israel, concede a glória do cumprimento das promessas. Assim, o Antigo Testamento encontra sua realização plena no Menino apresentado no Templo.

Simeão, por fim, ensina ao cristão a arte de esperar. Sua esperança não é passiva, mas vigilante; não é ansiosa, mas confiante. Quem aprende a esperar como Simeão está preparado para reconhecer Cristo e, tendo-O encontrado, pode partir em paz, pois já possui, pela fé, o bem supremo da salvação.

5) O sinal de contradição e Maria corredentora (vv. 34–35)

Após o cântico de louvor, Simeão dirige-se a Maria com palavras que introduzem uma nota dramática no mistério da Apresentação. A bênção se transforma em profecia, e a alegria do encontro com o Messias é imediatamente acompanhada pelo anúncio da provação. O Menino apresentado no Templo não será apenas consolação, mas também causa de divisão: “Eis que este Menino está destinado à queda e à elevação de muitos em Israel, e a ser sinal de contradição”. Com isso, Simeão revela que a missão de Cristo implica julgamento, discernimento e decisão.

Cristo é chamado de “sinal de contradição” porque, diante d’Ele, os corações são desnudados. Sua presença não permite neutralidade. Alguns se elevarão pela fé e pela humildade; outros cairão por causa do orgulho e da incredulidade. O Evangelho, ao mesmo tempo em que salva, revela as disposições interiores do homem. Conforme a profecia, em Cristo se manifestam os pensamentos ocultos dos corações: Ele é luz que ilumina, mas também luz que acusa e julga. Assim, já no início de sua vida terrena, o Senhor aparece como aquele que provoca uma crise espiritual, separando a verdade do erro e a fé da recusa.

É nesse contexto que Simeão anuncia a Maria: “uma espada traspassará a tua própria alma”. A imagem da espada (ῥομφαία) indica uma dor profunda, penetrante, que não se limita a um sofrimento exterior, mas alcança o íntimo da pessoa. A Tradição da Igreja sempre reconheceu nessas palavras a antecipação da participação singular da Santíssima Virgem na Paixão de seu Filho. Maria não é mera espectadora do drama da Redenção; ela está interiormente associada ao sacrifício de Cristo, unindo sua dor materna à oferta redentora do Filho ao Pai.

O Catecismo Romano, ao tratar da Paixão, recorda que a Virgem sofreu com o Filho e participou, de modo único, de seus padecimentos. Essa compaixão não diminui a obra de Cristo, único Redentor, mas manifesta a eficácia da graça divina naquela que foi plenamente unida a Ele. Falar de Maria como corredentora, em sentido tradicional e subordinado, significa reconhecer sua cooperação real e voluntária no plano salvífico, sempre dependente e ordenada à única mediação de Cristo.

Para o fiel, esta profecia permanece atual. Seguir Cristo implica aceitar a contradição, carregar a cruz e permitir que a luz do Evangelho revele o que há no coração. Unidos a Maria, os cristãos aprendem a permanecer firmes junto ao Senhor, mesmo quando a fidelidade se torna dolorosa, certos de que a cruz é sempre caminho de vida.

6) Ana, a profetisa (vv. 36–38)

A narrativa lucana apresenta, após Simeão, uma segunda testemunha do Messias: Ana, a profetisa. Sua presença confirma, por uma nova voz, a identidade do Menino apresentado no Templo e completa o quadro do Israel fiel que reconhece a ação de Deus. Se Simeão representa a esperança perseverante, Ana personifica a fidelidade longa e silenciosa, sustentada pela oração constante.

São Lucas descreve Ana com detalhes que sublinham sua perseverança espiritual. Avançada em idade, viúva há muitos anos, ela “não se afastava do Templo, servindo a Deus noite e dia com jejuns e orações”. Sua vida é marcada pela constância e pela entrega total. Longe de se tornar estéril ou amarga, sua longa espera transforma-se em disponibilidade interior. Ana ensina que o tempo, quando vivido na presença de Deus, amadurece a fé e purifica o coração.

A Escritura destaca dois elementos essenciais de sua espiritualidade: o jejum e a oração. Essas práticas não são apresentadas como mero ascetismo exterior, mas como expressão de uma alma inteiramente voltada para Deus. O Catecismo Romano ensina que a oração perseverante dispõe o homem a receber os bens celestes e a reconhecer os mistérios divinos que a razão, sozinha, não pode alcançar (IV I 2). Ana reconhece o Messias não por erudição, mas porque seu coração foi moldado por anos de intimidade com Deus.

Ao encontrar o Menino, Ana reage com ação de graças e anúncio. Ela “falava do Menino a todos os que esperavam a redenção de Jerusalém”. A contemplação desemboca naturalmente na missão. Quem reconhece Cristo não pode guardá-Lo apenas para si. Assim, Ana torna-se figura da Igreja, que nasce da oração e é enviada ao anúncio. Seu testemunho mostra que a evangelização brota de uma vida profundamente enraizada em Deus.

Ana também simboliza a continuidade entre o Antigo e o Novo Testamento. Como profetisa, ela pertence à antiga economia da promessa; ao reconhecer Jesus, ela testemunha sua realização. Em sua pessoa, o passado de espera encontra o presente da salvação. Para o cristão de hoje, Ana permanece modelo de fidelidade perseverante: uma fé que não se cansa, uma esperança que atravessa os anos e uma caridade que se expressa no louvor e no anúncio do Salvador.

7) Crescimento humano e graça divina (vv. 39–40)

Os versículos finais desta perícope conduzem o olhar do leitor do Templo para Nazaré, do gesto litúrgico para o cotidiano. “Depois de terem cumprido tudo segundo a Lei do Senhor, voltaram à Galileia, à sua cidade de Nazaré” (v. 39). São Lucas retoma, pela terceira vez, a nota da obediência: a Sagrada Família não age por improviso nem por entusiasmo passageiro, mas por fidelidade concreta às determinações de Deus. A santidade que o Evangelho descreve aqui não se manifesta em exceções espetaculares, mas na constância do dever religioso, cumprido com coração simples e íntegro. Essa insistência confirma o que a tradição catequética ensina: na Festa da Apresentação, contempla-se “o encontro do Redentor com o Seu povo e a obediência perfeita à Lei de Deus” (Catecismo Romano, I IV 11). O mesmo Cristo que é Luz e Salvação entra na história pelo caminho da obediência.

Ao mencionar o retorno a Nazaré, o Evangelho abre a grande escola da vida oculta. Deus quis que o Redentor passasse a maior parte de sua existência terrena no silêncio, no trabalho e na vida familiar. Não se trata de um intervalo inútil, mas de uma pedagogia: Cristo santifica o ordinário e mostra que o Reino cresce como semente escondida. A vida oculta de Nazaré ensina ao fiel que a verdadeira transformação espiritual se dá, muitas vezes, na repetição fiel dos deveres: oração diária, retidão no trabalho, caridade nas relações, paciência nas provações. É também por isso que o Catecismo Romano propõe a imitação de Cristo nessa humildade perseverante, vendo nela um caminho real de crescimento na justiça e na graça.

Então Lucas afirma: “O Menino crescia e se fortalecia, cheio de sabedoria, e a graça de Deus estava sobre ele” (v. 40). Essas palavras são teologicamente densas. Elas atestam, sem ambiguidade, o crescimento verdadeiro de Jesus segundo a natureza humana. O Verbo encarnado não assumiu uma humanidade fictícia: Ele cresceu, aprendeu, fortaleceu-se, avançou na expressão de suas faculdades humanas. Ao mesmo tempo, “a graça de Deus estava sobre ele”: sua humanidade é plenamente habitada pela vida divina, não como acréscimo externo, mas em virtude da união hipostática, pela qual a natureza humana pertence à Pessoa do Filho. Não há oposição entre crescimento humano e plenitude divina; há harmonia no desígnio de Deus, que quis salvar o homem por um Salvador verdadeiramente homem e verdadeiramente Deus.

Para nós, esses versículos são um chamado à perseverança: assim como Cristo cresceu na vida oculta, também o cristão é convidado a crescer em sabedoria e graça. Não se amadurece espiritualmente por saltos, mas por fidelidade; não se fortalece a alma sem disciplina, sacramentos e oração. A graça que repousou sobre o Menino continua a agir na Igreja, formando santos no cotidiano. E quem, como Simeão e Ana, reconheceu a Luz no Templo, aprende agora a guardá-la acesa em Nazaré: na casa, no trabalho, na rotina, até que toda a vida se torne uma apresentação agradável a Deus.

 

CONCLUSÃO

Ao contemplarmos a Apresentação do Senhor, vemos reunir-se, em um único acontecimento, a simplicidade do rito e a grandeza do mistério. Cristo entra no Templo como Menino, mas já se apresenta como Salvador. O gesto exterior — cumprir a Lei — torna-se revelação interior: o Redentor encontra o povo que O espera e, ao mesmo tempo, inicia sua oblação ao Pai. Por isso, com razão a Igreja reconhece nesta festa “o encontro do Redentor com o Seu povo e a obediência perfeita à Lei de Deus” (Catecismo Romano, I IV 11). No Templo, a promessa encontra seu cumprimento; na humildade, a glória se manifesta.

Cada personagem e cada palavra do Evangelho iluminam a vida cristã. Na submissão de Cristo e de Maria à Lei, aprendemos a obediência que não é servil, mas amorosa; na pobreza do sacrifício oferecido, descobrimos que Deus se agrada de corações simples. Em Simeão, contemplamos a esperança perseverante que espera o tempo de Deus e reconhece a salvação quando ela se faz próxima. Em sua profecia, ouvimos que Cristo é “sinal de contradição”: Ele revela os pensamentos do coração e exige decisão. E, junto à espada anunciada a Maria, compreendemos que a fidelidade passa pela cruz, mas nunca é estéril. Em Ana, a Igreja encontra o retrato da alma orante: jejum, oração e gratidão que transbordam em anúncio. Por fim, ao voltar a Nazaré, vemos que o mistério da salvação amadurece na vida oculta, e que o crescimento em sabedoria e graça se dá na perseverança do cotidiano.

A procissão das velas, tão ligada a esta solenidade, resume tudo em um sinal: Cristo é a Luz; nós caminhamos com Ele. Porém, a vela acesa na mão pede uma chama ainda mais verdadeira no coração — fé viva, inflamada pela caridade, capaz de iluminar as escolhas, purificar as intenções e sustentar a constância. Hoje, a Apresentação do Senhor nos chama a apresentar a Deus a própria vida: oferecer-lhe o que somos, confiar-lhe o que sofremos e deixar que sua luz se torne obras. Assim, nossa existência inteira se fará templo e oblação.

 

ORAÇÃO DE ENCERRAMENTO

Senhor Jesus Cristo, Luz verdadeira que vieste ao mundo para iluminar todos os povos, nós Te adoramos e bendizemos. Tu, Primogênito do Pai, quiseste ser apresentado no Templo e submeter-Te à Lei por amor a nós, ensinando-nos o caminho da obediência que salva. Recebe hoje, Senhor, a oferta de nossas vidas: tudo o que somos, tudo o que vivemos, tudo o que sofremos.

Concede-nos um coração humilde como o Teu, dócil à vontade do Pai em todas as circunstâncias. Dá-nos a esperança perseverante de Simeão, para esperar Tuas promessas com fé firme, e a fidelidade orante de Ana, para reconhecer-Te na perseverança da oração. Pela intercessão da Santíssima Virgem Maria, que teve sua alma traspassada pela espada da dor, ensina-nos a permanecer contigo quando fores sinal de contradição.

Que a chama da fé, acesa em nossos corações, seja inflamada pela caridade, para que nossas obras glorifiquem o Pai. Tu que vives e reinas para sempre. Amém.

Leitura complementar

REFERÊNCIAS

Sagrada Escritura

  • Bíblia Sacra. Nova Vulgata. Editio typica altera. Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 1986.

  • The Society of Biblical Literature. The SBL Greek New Testament. Edited by Michael W. Holmes. Atlanta: SBL Press, 2010.

  • Bíblia. Sagrada Escritura. Tradução própria do autor a partir do texto grego (SBL Greek New Testament) e da Nova Vulgata, com consulta à Septuaginta.

Catecismos e Magistério

  • Igreja Católica. Catecismo Romano: Segundo o Decreto do Concílio de Trento. Tradução portuguesa. São Paulo: Permanência, 2000.

  • Igreja Católica. Catecismo da Igreja Católica. 2ª ed. São Paulo: Loyola, 2000.

  • Igreja Católica. Compêndio do Catecismo da Igreja Católica. Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 2005.

  • Pio X, São. Catecismo Maior. Tradução portuguesa. São Paulo: Paulinas, 1957.

Santos Padres e Tradição

  • Tomás de Aquino, São. Catena Aurea: Comentário aos Quatro Evangelhos. Vol. 3: Evangelho segundo São Lucas. Campinas: Ecclesiae, 2013.

  • Agostinho, Santo. Sermões. Obras completas. São Paulo: Paulus, 1996.

  • João Crisóstomo, São. Homilias sobre o Evangelho de São Lucas. Tradução portuguesa. Lisboa: Rei dos Livros, 2004.

Teologia e Exegese

  • Aquinas, Thomas. Compendium of Theology. Translated by Richard J. Regan. Oxford: Oxford University Press, 2009.

  • Brown, Raymond E. The Birth of the Messiah: A Commentary on the Infancy Narratives in the Gospels of Matthew and Luke. New Updated Edition. New York: Doubleday, 1993.

Liturgia

  • Igreja Católica. Missal Romano. 3ª ed. típica em português. São Paulo: CNBB, 2019.

  • Igreja Católica. Liturgia das Horas. Vol. I. São Paulo: Paulus, 1995.

Documentos Doutrinais

  • Denzinger, Heinrich, e Peter Hünermann, eds. Compêndio dos Símbolos, Definições e Declarações de Fé e Moral. São Paulo: Loyola, 2007.

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