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A imagem de Nossa Senhora Aparecida: origem, significado, manto, coroa e restauração

12 de out. de 2023
19 min de leitura

Atualizado: 14 de set.

ARTIGO - NSA SRA APARECIDA - IMAGEMCaminho de Fé

INTRODUÇÃO

Milhões de brasileiros reconheceriam imediatamente a pequena figura coberta por um manto azul-escuro e coroada de ouro. Poucos, porém, tiveram ocasião de contemplar com atenção a escultura que existe sob esse manto. A imagem original de Nossa Senhora da Conceição Aparecida é muito menor do que sua presença na história brasileira poderia fazer imaginar: mede aproximadamente 36 centímetros, sem considerar o pedestal acrescentado posteriormente, e pesa cerca de dois quilos e meio. Moldada em terracota, traz Maria de pé, com as mãos unidas em oração, os cabelos trabalhados, o manto esculpido sobre a túnica e a meia-lua aos pés.

Também sua aparência atual é resultado de uma longa história. A escultura encontrada no rio Paraíba do Sul em 1717 provavelmente havia sido policromada; perdeu grande parte desse acabamento antes ou durante o período em que esteve submersa e, depois de retirada das águas, sofreu os efeitos do tempo e da exposição prolongada à fumaça de velas, lamparinas e candeeiros. Mantos de tecido e coroas foram acrescentados pela devoção dos fiéis. No século XIX, a Princesa Isabel ofereceu peças que se tornariam particularmente célebres. Em 1978, depois de um grave atentado, a terracota foi reduzida a mais de duzentos fragmentos e precisou ser pacientemente restaurada.

Conhecer essa história ajuda a distinguir três realidades que às vezes são confundidas: a antiga escultura de Nossa Senhora da Conceição, as transformações materiais que sofreu ao longo do tempo e os sentidos espirituais e culturais que gerações de devotos passaram a reconhecer nela. Uma interpretação piedosa pode ser legítima e fecunda sem constituir necessariamente um dado histórico; do mesmo modo, um significado adquirido posteriormente pode integrar verdadeiramente a história da devoção sem ter sido concebido pelo escultor do século XVII.

Essa distinção não empobrece a piedade. Ao contrário, permite contemplar Nossa Senhora Aparecida com maior profundidade: primeiro como uma antiga obra de arte sacra; depois, como objeto cercado por uma história singular de veneração; e, acima de tudo, como imagem cristã cuja honra se dirige à Virgem Maria e, por meio dela, conduz a Jesus Cristo.
Escultura de Nossa Senhora Aparecida sem manto e com manto azul e coroa, mostrando a continuidade histórica da mesma imagem devocional.

A HISTÓRIA E O SIGNIFICADO DA IMAGEM

Uma pequena imagem com uma história muito anterior a 1717

Quando João Alves retirou das águas do Paraíba o corpo da pequena imagem e, depois, sua cabeça, ele não encontrou uma escultura recém-feita nem uma representação criada especificamente para aquele acontecimento. A peça já pertencia a uma tradição artística e religiosa anterior. Tratava-se de uma imagem de Nossa Senhora da Conceição, confeccionada provavelmente durante o século XVII, décadas antes da pescaria de 1717.

A imagem foi feita em terracota — literalmente, barro modelado e submetido à queima. No Brasil colonial, esse material adquiriu particular importância em regiões nas quais a importação de esculturas europeias ou mesmo o acesso a certas madeiras e oficinas especializadas era mais difícil. Desenvolveu-se assim, especialmente em São Paulo e áreas próximas, uma significativa produção de imaginária religiosa em barro.

É nesse contexto artístico que aparece a tradicional atribuição da imagem de Aparecida a frei Agostinho de Jesus, monge beneditino do século XVII e um dos nomes mais importantes da escultura sacra paulista daquele período. Estudos comparativos realizados a partir da matéria-prima, das proporções da peça, da modelagem das vestes, do rosto e de outras características formais levaram pesquisadores a relacionar a imagem ao universo artístico do religioso e de sua escola.

A palavra “atribuição”, entretanto, deve ser conservada. A escultura de Aparecida não possui assinatura conhecida, e não se dispõe de documento de encomenda ou registro equivalente que permita afirmar, com absoluta certeza, que frei Agostinho de Jesus a modelou pessoalmente. A semelhança estilística torna sua autoria uma hipótese historicamente consistente, mas também é possível que a peça tenha sido executada por alguém ligado ao mesmo ambiente artístico ou influenciado por ele.

Também permanece desconhecido o caminho percorrido pela escultura até chegar ao rio Paraíba. Não sabemos quem a lançou ou perdeu nas águas, durante quanto tempo permaneceu submersa nem por que estava com a cabeça separada do corpo. A condição em que foi encontrada favoreceu diferentes hipóteses ao longo do tempo, entre elas a possibilidade de descarte depois de algum dano anterior. Nenhuma delas, contudo, dispõe de documentação capaz de transformá-la em certeza histórica.

O que se pode afirmar com segurança começa com a pescaria de 1717. Segundo a tradição documental de Aparecida, João Alves encontrou primeiramente o corpo e depois a cabeça da imagem. A partir desse momento, a pequena escultura deixou o anonimato e começou uma história completamente diferente daquela para a qual provavelmente havia sido confeccionada.

Fisicamente, a imagem é pequena e muito elaborada para suas dimensões. As medições variam discretamente segundo a inclusão ou não de bases e acréscimos posteriores, mas a escultura propriamente dita possui cerca de 36 centímetros. A escala corresponde muito mais facilmente a uma imagem destinada a uma residência, pequeno oratório ou capela do que à monumentalidade do atual Santuário Nacional.

Esse contraste é um dos aspectos mais impressionantes da história de Aparecida. No centro de uma imensa basílica visitada por multidões encontra-se uma pequena peça de barro concebida no ambiente religioso do Brasil colonial. Nada em suas dimensões materiais fazia prever o lugar que ocuparia posteriormente na história da Igreja no país.

Depois de retirada do Paraíba, a imagem entrou primeiro na vida doméstica dos pescadores e de seus familiares. Em torno dela começaram a realizar-se encontros de oração. Antes das grandes procissões, da coroação e das multidões de peregrinos, houve casas simples, famílias reunidas, terços e ladainhas.

Essa origem doméstica ajuda a compreender a força de Aparecida. A história não começou com uma instituição nacional previamente organizada em torno da imagem, mas com uma pequena escultura acolhida por pessoas comuns e progressivamente cercada pela oração dos fiéis. Somente depois a devoção ultrapassaria o ambiente familiar, chegaria a um oratório público, receberia capela própria e seria ordenada pastoralmente pela autoridade da Igreja.

O que a escultura representa: Nossa Senhora da Conceição

O próprio nome da devoção oferece a primeira chave para compreender a imagem: Nossa Senhora da Conceição Aparecida.

“Aparecida” não designava originalmente uma iconografia mariana distinta. A palavra nasceu da maneira pela qual aquela antiga imagem de Nossa Senhora da Conceição entrou na história dos pescadores: ela foi encontrada, ou “apareceu”, nas águas do Paraíba. A invocação completa preservou as duas dimensões — aquilo que a escultura representa e o acontecimento pelo qual se tornou conhecida.

Iconograficamente, portanto, a pequena imagem representa Nossa Senhora da Conceição, isto é, a Virgem Maria contemplada à luz do mistério de sua Imaculada Conceição.

É importante distinguir a Imaculada Conceição da concepção virginal de Jesus. O dogma não se refere diretamente ao momento em que Cristo foi concebido pelo Espírito Santo no seio de Maria, mas à própria concepção da Santíssima Virgem. A Igreja professa que Maria, desde o primeiro instante de sua existência, por singular graça e privilégio de Deus onipotente e em consideração aos méritos de Jesus Cristo, Salvador do gênero humano, foi preservada imune de toda mancha do pecado original.

Essa verdade possui uma história doutrinal muito anterior à sua definição solene. O Concílio de Trento, ao promulgar em 1546 seu decreto sobre o pecado original, declarou expressamente que não pretendia incluir nesse decreto a Bem-aventurada e Imaculada Virgem Maria e determinou que fossem observadas as constituições de Sisto IV relativas à matéria. Trento, portanto, constitui um importante testemunho da singular consideração dispensada à Santíssima Virgem no desenvolvimento da doutrina, mas a definição dogmática propriamente dita ocorreu três séculos depois.

Em 08/12/1854, o Papa Pio IX, mediante a constituição apostólica Ineffabilis Deus, definiu solenemente que a doutrina segundo a qual a Bem-aventurada Virgem Maria foi preservada de toda mancha do pecado original desde o primeiro instante de sua concepção é revelada por Deus e deve, por isso, ser firmemente e constantemente crida por todos os fiéis.

A imagem encontrada no Paraíba é muito anterior a essa definição de 1854. Isso não causa qualquer dificuldade histórica. A devoção à Imaculada Conceição, sua celebração litúrgica e sua expressão na arte cristã precedem em séculos o ato solene de Pio IX. A definição dogmática não criou a fé na Imaculada Conceição; confirmou com autoridade suprema uma verdade amadurecida ao longo da vida doutrinal, litúrgica e espiritual da Igreja.

Também Portugal possuía forte tradição de devoção à Imaculada Conceição, circunstância que ajuda a compreender a presença de tantas imagens desse tipo no mundo luso-brasileiro.

A iconografia da Imaculada desenvolveu-se ao longo dos séculos e admitiu diversas variações. Entre os elementos recorrentes encontram-se Maria de pé, as mãos postas em oração, túnica e manto, a lua sob os pés e, conforme a composição, anjos, coroa, estrelas e outros símbolos provenientes da tradição artística e da leitura cristã das Escrituras.

Na imagem de Aparecida, Maria aparece com as mãos unidas diante do peito. É um gesto simples e ao mesmo tempo profundamente expressivo. Materialmente, pertence à concepção artística da escultura; espiritualmente, tornou-se fácil para os fiéis reconhecer nele a atitude de oração de Maria e recordar sua intercessão materna.

Abaixo dos pés encontra-se a meia-lua, elemento característico de muitas representações da Imaculada. A tradição cristã aproximou essa iconografia da grande figura apresentada pelo Apocalipse: “uma mulher vestida de sol, tendo a lua debaixo dos pés e sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas” (Ap 12,1).

Isso não significa que cada componente da escultura deva ser entendido como tradução literal de um versículo. A iconografia mariana foi formada pelo encontro entre Sagrada Escritura, liturgia, reflexão teológica, tradição devocional e convenções artísticas desenvolvidas ao longo dos séculos. A lua ajuda a identificar a linguagem visual da Conceição dentro desse repertório.

A própria imagem possui muito mais detalhes do que normalmente se vê quando ela está coberta pelo manto de tecido. Os cabelos são trabalhados, as vestes apresentam pregas modeladas no barro e há ornamentação em relevo. A figura traz seu próprio manto esculpido sobre a túnica. A meia-lua e outros elementos completam a composição.

Isso significa que o conhecido manto triangular azul não constitui a roupa original da escultura. Ele é uma veste acrescentada posteriormente sobre uma imagem que, artisticamente, já se encontra vestida.

Essa distinção permite contemplar Aparecida em duas dimensões complementares. Sem o revestimento posterior, encontra-se uma antiga representação colonial da Imaculada Conceição. Com os mantos e a coroa, contempla-se a mesma escultura como foi progressivamente recebida, adornada e venerada por gerações de fiéis.

Também é necessário conservar prudência diante de interpretações simbólicas muito detalhadas. Flores, pregas, gestos e ornamentos podem favorecer legítimas meditações espirituais, mas nem sempre é possível provar que cada um deles tenha sido concebido pelo escultor como representação consciente de uma determinada verdade teológica.

A imagem não precisa transformar-se em um código secreto para ser rica em significado. Ela representa Maria; suas mãos postas evocam oração; a lua pertence à iconografia da Imaculada; sua própria existência recorda uma tradição de fé que atravessou séculos. A contemplação cristã pode partir desses elementos e elevar-se ao mistério representado sem atribuir ao artista intenções que a documentação não permite demonstrar.

Vistas frontal e lateral da escultura original de Nossa Senhora Aparecida sem manto, destacando mãos postas, túnica, meia-lua e base de terracota.

Por que Nossa Senhora Aparecida é escura?

Poucas características da imagem despertam tanta curiosidade quanto sua tonalidade atual. A pergunta “por que Nossa Senhora Aparecida é negra?” tornou-se uma das mais frequentes quando se fala da Padroeira do Brasil.

A resposta exige distinguir cuidadosamente três elementos: o barro utilizado na escultura, a provável policromia original da peça e as transformações sofridas depois de sua confecção.

A imagem é de terracota. Isso, por si só, já significa que sua matéria básica possui a tonalidade própria do barro queimado. Entretanto, imagens sacras desse período normalmente não eram necessariamente apresentadas apenas com a superfície do barro exposta. Há fortes razões para considerar que a escultura de Aparecida tenha sido originalmente policromada, isto é, recebesse acabamento pictórico em diferentes cores.

Vestígios, comparações estilísticas e reconstruções histórico-artísticas permitem admitir uma aparência original mais colorida do que aquela atualmente contemplada pelos peregrinos. Rosto, mãos, túnica e manto provavelmente possuíam pigmentação própria. Contudo, não se pode reconstituir com igual segurança cada tonalidade exata da peça tal como teria saído das mãos de seu escultor.

O período de permanência no rio provavelmente contribuiu para alterar sua superfície e para a perda de parte do acabamento. Depois de retirada das águas, iniciou-se outro processo de transformação. Durante décadas e depois séculos, a imagem permaneceu em ambientes iluminados por velas, lamparinas e candeeiros. A fumaça produzida por essas fontes depositava fuligem sobre as superfícies próximas.

No Brasil, essa camada escura proveniente da fumaça é muitas vezes chamada de picumã. Sua deposição progressiva sobre a terracota contribuiu para o escurecimento da imagem.

Documentação antiga mostra que essa transformação não é recente. Já no século XVIII, poucas décadas depois de 1717, testemunhos relacionados à devoção mencionavam a aparência escura da imagem. Isso torna improvável qualquer explicação que atribua sua tonalidade atual exclusivamente a uma intervenção realizada nos séculos XIX ou XX.

O mais seguro, portanto, é compreender a cor de Aparecida como resultado de uma história material complexa. A peça provavelmente foi policromada; sofreu os efeitos da água e do tempo; perdeu parte de seu acabamento; recebeu sobre a superfície resíduos produzidos pelo ambiente em que permaneceu exposta e atravessou diferentes intervenções de conservação.

Essa explicação material, entretanto, não encerra toda a história.

A pequena imagem escura tornou-se progressivamente parte da identidade religiosa do Brasil. Num país marcado por séculos de escravidão africana, pela presença decisiva da população negra na formação nacional e por profundas desigualdades raciais, a aparência de Nossa Senhora Aparecida adquiriu significados culturais e espirituais muito fortes.

Para incontáveis fiéis, a Virgem de rosto escuro tornou-se expressão de proximidade, consolo e maternidade. Sua imagem foi particularmente acolhida por populações que reconheceram nela uma figura não distante de sua própria aparência e de sua experiência histórica.

É legítimo reconhecer essa dimensão, desde que não se transforme uma recepção posterior em afirmação sobre a intenção original do escultor.

Não há documentação que permita afirmar que a imagem tenha sido criada com aparência escura para representar especificamente os escravizados ou a população negra do Brasil. A escultura pertence à iconografia seiscentista de Nossa Senhora da Conceição, e sua tonalidade atual parece resultar principalmente das transformações materiais sofridas depois de confeccionada.

Outra coisa é o significado que essa tonalidade adquiriu no decorrer da história. Os símbolos não permanecem necessariamente limitados à intenção inicial de quem os produziu. Uma comunidade pode reconhecer novos sentidos numa obra à medida que ela atravessa acontecimentos, culturas e gerações.

No caso de Aparecida, a cor escura passou a integrar de modo inseparável sua identidade devocional. Hoje seria impossível narrar plenamente sua recepção no Brasil ignorando a maneira pela qual muitos fiéis negros se reconheceram e continuam se reconhecendo naquela representação da Mãe de Cristo.

Essa distinção é ainda mais importante porque nenhuma imagem mariana deve ser confundida com um retrato fotográfico de Maria de Nazaré. A arte cristã representou a Mãe de Jesus em culturas muito diferentes: com características europeias, africanas, asiáticas, indígenas e mestiças. Essas representações não pretendem necessariamente reconstruir seus traços físicos históricos, mas tornam visível, em linguagens artísticas distintas, a mesma pessoa venerada pela Igreja.

A cor de Aparecida possui, portanto, duas histórias relacionadas. Uma pertence à matéria: barro, pigmentos, água, fuligem, tempo e conservação. A outra pertence às pessoas que contemplaram aquela matéria escurecida e passaram a reconhecer nela uma presença particularmente próxima de sua própria história.

Não é preciso escolher entre uma explicação e outra. Basta respeitar a natureza de cada uma. A primeira procura compreender como a peça se transformou fisicamente; a segunda procura compreender como aquela aparência foi recebida espiritualmente e culturalmente pelo povo brasileiro.

Mantos e coroas: como se formou a imagem que o Brasil reconhece

A figura que hoje identificamos imediatamente como Nossa Senhora Aparecida resulta da união visual entre a antiga escultura de terracota e elementos que lhe foram acrescentados ao longo da história da devoção.

O grande manto triangular e a coroa não pertencem à modelagem original do barro. A pequena Nossa Senhora da Conceição possui vestes integralmente esculpidas: túnica, manto e ornamentos fazem parte da própria peça. Os tecidos são colocados sobre essa escultura completa.

O costume de vestir imagens religiosas é muito anterior à história de Aparecida. Em diferentes regiões católicas, mantos, vestidos, joias e coroas foram oferecidos como manifestações de honra, gratidão e devoção. Algumas imagens foram concebidas especificamente para receber roupas; outras, embora inteiramente esculpidas, também passaram a ser revestidas.

Em Aparecida, a prática surgiu cedo. Inventários antigos indicam a presença de mantos destinados à imagem já no século XVIII. Isso mostra que a tradição de revesti-la não nasceu quando a devoção adquiriu projeção nacional; formou-se ainda nas primeiras décadas de sua veneração pública.

Com o passar do tempo, o manto transformou profundamente a aparência pública da escultura. Sua forma triangular cobre quase todo o corpo de terracota e deixa visíveis principalmente o rosto e as mãos. A cor azul tornou-se predominante, enquanto bordados, pedras, símbolos e ornamentos variaram conforme épocas, ocasiões e doadores.

A conhecida silhueta de Aparecida — rosto pequeno, mãos postas, grande manto triangular e coroa — é, portanto, resultado de uma história acumulativa. A escultura do século XVII permaneceu no centro, mas sua apresentação exterior foi progressivamente transformada pela devoção.

Entre os episódios mais importantes dessa história encontram-se as visitas da Princesa Isabel.

Em dezembro de 1868, a princesa e seu marido, o Conde d’Eu, estiveram no Santuário de Aparecida. A tradição histórica relaciona essa peregrinação ao desejo de Isabel de alcançar a graça da maternidade. Na ocasião, ela ofereceu um rico manto à imagem.

Anos depois, em 1884, a princesa retornou a Aparecida, agora acompanhada dos filhos. A essa segunda visita é tradicionalmente associada a oferta da célebre coroa de ouro que seria utilizada na coroação solene de Nossa Senhora Aparecida em 1904.

As fontes históricas nem sempre apresentam de maneira uniforme todos os detalhes relativos aos presentes imperiais. Por isso, é mais seguro conservar a distinção sustentada pela cronologia mais consistente: o manto ligado à visita de 1868 e a coroa associada à peregrinação de 1884.

Em 08/09/1904, a coroa oferecida pela Princesa Isabel foi solenemente colocada na imagem durante a cerimônia de coroação autorizada por São Pio X. A data não foi escolhida por acaso: naquele ano a Igreja celebrava o cinquentenário da definição dogmática da Imaculada Conceição.

A coroação consolidou ainda mais a forma visual de Aparecida. A partir daí, a combinação entre manto e coroa passou a marcar reproduções, estampas, medalhas, imagens domésticas e esculturas espalhadas por todo o território brasileiro.

A linguagem da coroa, entretanto, precisa ser compreendida dentro da fé cristã.

Quando a tradição católica chama Maria de Rainha, não lhe atribui uma divindade própria nem um poder concorrente com Cristo. Toda dignidade de Maria procede da graça de Deus e de sua relação singular com Jesus. Ela é Mãe daquele cujo reino não terá fim (cf. Lc 1,32–33). Sua realeza é inteiramente dependente do Filho e participa, de maneira criada, da vitória daquele que é verdadeiramente Senhor e Rei.

A própria iconografia cristã há muito utiliza coroas para expressar santidade, vitória, dignidade e participação na glória celestial. Coroar uma imagem de Nossa Senhora significa manifestar exteriormente a veneração devida à Mãe de Cristo; não significa transformá-la em deusa.

Também os mantos receberam novos significados ao longo da história. Elementos relacionados à identidade brasileira e à comunhão com a Igreja passaram a aparecer em diferentes versões, incluindo símbolos nacionais e pontifícios.

A imagem pública de Aparecida tornou-se, assim, uma espécie de memória visual acumulada. A escultura colonial da Imaculada Conceição permaneceu como núcleo da devoção; os mantos oferecidos pelos fiéis acrescentaram novas camadas de significado; a coroa associada à Princesa Isabel e à cerimônia de 1904 consolidou sua apresentação régia; e os bordados posteriores passaram a expressar a condição de Padroeira do Brasil e a ligação da devoção com a Igreja universal.

Nada disso altera a identidade essencial da pessoa representada. São camadas históricas da maneira pela qual os fiéis passaram a honrar Nossa Senhora.

Estudar a escultura sem o manto permite redescobrir a linguagem artística do século XVII. Contemplá-la revestida permite enxergar a história de sua recepção. As duas perspectivas não competem entre si: uma revela a obra original; a outra, aquilo que séculos de devoção acrescentaram ao seu modo de apresentação.

Quebrada e restaurada: o atentado de 1978

Na noite de 16/05/1978, a imagem sofreu o acontecimento materialmente mais destrutivo de sua história desde que fora encontrada no Paraíba.

Durante uma celebração na Basílica Histórica, um homem conseguiu alcançar a escultura e retirá-la de seu lugar. Na sequência, a imagem caiu. A antiga terracota se fragmentou em mais de duzentas partes, algumas muito pequenas. A região da cabeça sofreu danos particularmente graves.

O acontecimento provocou profunda comoção. Para os devotos, não se tratava simplesmente do dano causado a um objeto histórico. Aquela era a mesma imagem associada ao episódio de 1717, conservada e venerada durante mais de dois séculos e meio.

A dificuldade técnica era enorme. Seria possível reconstruir uma peça de barro reduzida a tantos fragmentos?

O trabalho acabou sendo confiado ao Museu de Arte de São Paulo. Pietro Maria Bardi, então diretor do MASP, encaminhou a restauração para Maria Helena Chartuni, responsável pelo setor de conservação e restauro da instituição.

Diante da restauradora havia peças de diferentes tamanhos, fragmentos minúsculos e zonas em que o material havia praticamente se pulverizado. O trabalho começou pela identificação, classificação e montagem progressiva das partes.

A cabeça constituía uma das dificuldades mais delicadas. Havia perdas importantes de matéria e era necessário reconstruir a continuidade da forma sem apagar aquilo que ainda restava da escultura original.

O restauro exigiu trinta e três dias de trabalho intenso.

Não se tratava simplesmente de colar fragmentos. Era necessário preservar o máximo possível da matéria antiga, reconstruir a estabilidade da peça e recuperar sua unidade visual respeitando as marcas de uma obra que já havia atravessado séculos de alterações, reparos, fuligem, pigmentação e uso religioso.

Havia ainda uma particularidade que dificilmente poderia ser ignorada: Maria Helena Chartuni não trabalhava sobre uma peça destinada apenas à contemplação museológica. Diante dela estava um objeto religioso venerado por milhões de pessoas e ligado à memória espiritual do país.

Em 19/08/1978, a imagem restaurada retornou a Aparecida e foi recebida por uma grande multidão.

A restauração não apagou aquilo que havia acontecido. A pequena terracota continuou sendo a peça antiga, mas agora carregava também as marcas de sua reconstrução.

O episódio alterou profundamente os cuidados de conservação. A proteção física da imagem tornou-se ainda mais rigorosa, e os procedimentos posteriores procuraram diminuir riscos de manipulação, ação ambiental e novos danos.

A história de 1978 oferece também oportunidade para compreender melhor aquilo que a Igreja ensina sobre as imagens sagradas.

Se o católico sabe que aquela pequena escultura de barro não é Nossa Senhora, por que sua destruição provocou tamanha dor?

A resposta depende da distinção entre a realidade material da imagem e a pessoa por ela representada.

Desde os primeiros séculos, a Igreja precisou enfrentar questões relacionadas ao uso cristão de imagens. A controvérsia iconoclasta alcançou especial gravidade no Oriente, onde houve destruição de representações de Cristo, da Virgem e dos santos.

O II Concílio de Niceia, celebrado em 787, ensinou legitimamente a veneração das imagens sagradas, distinguindo-a cuidadosamente da adoração que pertence somente a Deus. A honra demonstrada diante da imagem dirige-se à pessoa nela representada. A tradição católica conservaria esse princípio ao longo dos séculos.

O Catecismo da Igreja Católica o expressa de modo claro: “a honra prestada a uma imagem se dirige ao modelo original”; quem venera uma imagem venera a pessoa nela representada (CIC 2132). Essa veneração não é a adoração devida exclusivamente à Santíssima Trindade.

O Catecismo Maior de São Pio X ensina a mesma doutrina: as imagens de Jesus Cristo, da Santíssima Virgem e dos santos podem ser honradas porque a honra prestada à imagem se refere à pessoa representada.

Por isso, a terracota de Aparecida possui valor real. É uma antiga obra sacra. É testemunha material de mais de três séculos de devoção. Está ligada ao acontecimento que deu origem ao culto de Nossa Senhora da Conceição Aparecida. Pode e deve ser conservada com extraordinário cuidado e tratada com respeito.

Entretanto, ela não possui divindade. Não contém um poder mágico. Não é fonte autônoma de graças. Não substitui Maria, assim como Maria jamais substitui Deus.

Toda graça provém de Deus.

Maria intercede porque vive inteiramente da graça de Cristo e permanece unida a ele. A imagem apenas auxilia o fiel a dirigir seu pensamento e seu coração à pessoa representada.

Essa distinção protege a devoção contra a superstição.

Um cristão pode beijar uma medalha de Nossa Senhora, colocar flores diante de uma imagem, acender uma vela, carregar um escapulário ou caminhar até um Santuário. Esses atos possuem sentido quando expressam fé, confiança, veneração e oração.

Mas o objeto não se transforma em amuleto.

Uma vela não obriga Deus a atender determinado pedido. Uma imagem não concede graças por uma força contida em sua matéria. Uma promessa não estabelece um contrato mágico com o céu.

A piedade católica encontra sua verdade quando os sinais exteriores conduzem a uma vida interior de fé, conversão e caridade.

Aparecida manifesta esse princípio de maneira especialmente bela. A imagem original poderia ter sido perdida em 1978 e ainda seria perfeitamente possível venerar Nossa Senhora da Conceição Aparecida por meio de outras representações. Maria não depende daquela terracota para existir nem para interceder.

Ao mesmo tempo, preservar aquela peça específica possui enorme valor histórico e devocional porque ela está ligada fisicamente às origens da devoção.

A pequena imagem passou pelas mãos dos pescadores, permaneceu nos primeiros oratórios familiares, recebeu mantos e a coroa, atravessou a história dos antigos templos de Aparecida e, depois de quebrada em 1978, pôde ser reconstruída e devolvida à veneração dos peregrinos.

Sua materialidade, portanto, importa, embora não seja objeto de adoração.

E justamente sua fragilidade ajuda a compreender seu verdadeiro lugar. Barro pode quebrar, pigmentos desaparecem, tecidos se desgastam e o ouro precisa ser conservado. Tudo aquilo que pertence ao mundo material permanece sujeito ao tempo.

A fé, porém, não termina na matéria. A imagem remete a Maria, Maria remete a Cristo, e Cristo conduz ao Pai. Essa ordem é essencial para compreender a verdadeira devoção a Nossa Senhora Aparecida.

CONCLUSÃO

Contemplar a imagem original de Nossa Senhora Aparecida depois de conhecer sua história produz uma impressão diferente daquela oferecida pelas incontáveis reproduções presentes nas igrejas e casas brasileiras.

O que parece, à primeira vista, uma figura absolutamente invariável possui na realidade várias camadas de tempo.

Sob o manto triangular encontra-se uma pequena Nossa Senhora da Conceição modelada em terracota no século XVII. Sua autoria é tradicionalmente atribuída a frei Agostinho de Jesus ou ao ambiente artístico ligado à sua escola, embora não exista documentação que permita transformar essa atribuição em certeza absoluta.

A escultura provavelmente recebeu policromia e sofreu alterações materiais antes e depois de ser encontrada no Paraíba. Sua tonalidade escura formou-se ao longo dessa história e, com o tempo, adquiriu significados culturais e espirituais que passaram a aproximar Nossa Senhora Aparecida de diferentes grupos do povo brasileiro, de modo particularmente expressivo entre muitos fiéis negros.

Mantos e coroas acrescentaram novas camadas. A prática de vestir a imagem começou cedo e se desenvolveu durante os séculos seguintes. As visitas da Princesa Isabel deixaram presentes que se tornaram inseparáveis da memória de Aparecida, e a coroação de 08/09/1904 consolidou a representação da pequena Virgem com manto e coroa que se espalharia por todo o país.

O atentado de 1978 revelou dramaticamente a fragilidade da matéria. A imagem se partiu em mais de duzentos fragmentos, foi reconstruída pelas mãos de Maria Helena Chartuni e retornou aos peregrinos depois de um dos processos de restauração mais conhecidos da arte sacra brasileira.

Mas a fé católica impede que a história termine no barro, no tecido ou no ouro.

O II Concílio de Niceia e o ensinamento constante da Igreja recordam que a veneração passa pela imagem e se dirige à pessoa representada. O cristão não adora a escultura de Aparecida. Ele honra nela a Mãe do Senhor.

E também não se detém em Maria como se ela fosse o termo último da fé. Toda verdadeira devoção mariana conduz a Jesus Cristo.

Assim, depois de examinar terracota, iconografia, pigmentos, mantos, pedras preciosas e cicatrizes de uma restauração, encontramos novamente uma realidade muito simples.

Diante daquela pequena imagem, o cristão é convidado a fazer aquilo que Maria fez durante sua vida: acolher a graça de Deus, guardar sua Palavra, permanecer em oração e obedecer ao Filho.

A escultura pode ser pequena, mas sua mensagem remete ao centro da vida cristã: “Fazei o que ele vos disser” (Jo 2,5).

ORAÇÃO DE ENCERRAMENTO

Senhora Aparecida, Mãe de Deus e nossa Mãe, recebe nossa gratidão e conduz nosso olhar a Jesus. Ensina-nos a venerar tua memória com fé reta, coração humilde e vida santa. Que tua imagem nos recorde tua presença materna e desperte em nós amor ao Evangelho e aos sacramentos da Igreja.

Virgem Imaculada, que foste honrada por gerações de fiéis diante desta pequena imagem de barro, intercede por nossas famílias e por nosso povo. Guarda-nos da superstição e da indiferença, fortalece nossa esperança nas provações e alcança-nos a graça de buscar sempre em Cristo a fonte de toda salvação e santidade.

Mãe Aparecida, ajuda-nos a compreender que toda beleza verdadeira conduz a Deus. Diante de tua imagem, ensina-nos a rezar, a obedecer ao teu Filho e a servir os irmãos com caridade. Que nossa devoção produza conversão sincera, perseverança na graça e fidelidade até alcançarmos, por Cristo, a alegria eterna. Amém.

Leitura Complementar:

REFERÊNCIAS

  • BISINOTO, Eugênio, C.Ss.R. “Aparecida: Histórico e Mensagem.” Academia Marial de Aparecida, A12, 27 de setembro de 2016. Atualizado em 25 de setembro de 2018.

  • GOMES, Daniel. “O restauro da imagem e de uma vida de fé.” O São Paulo, 10 de outubro de 2021.

  • IGREJA CATÓLICA. Catecismo da Igreja Católica. Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 1992. Especialmente nn. 971 e 2131–2132.

  • JOÃO PAULO II. Duodecimum Saeculum. Carta apostólica sobre a veneração das imagens por ocasião do XII centenário do II Concílio de Niceia. 4 de dezembro de 1987. Santa Sé.

  • MOREIRA, Fuviane Galdino. “Entre bandeiras e mantos: Aparecida e a identidade nacional brasileira.” Visualidades 15, nº 2 (2017): 191–208. doi:10.5216/vis.v15i2.47916.

  • PIO IX. Ineffabilis Deus. Constituição apostólica sobre a Imaculada Conceição da Bem-aventurada Virgem Maria. 8 de dezembro de 1854. Santa Sé.

  • SCHERER, Odilo Pedro. “Restauração da imagem.” Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, 27 de agosto de 2018.

  • SCHUNK, Rafael. Frei Agostinho de Jesus e as tradições da imaginária colonial brasileira: séculos XVI–XVII. São Paulo: Cultura Acadêmica, 2013.

  • SANTUÁRIO NACIONAL DE APARECIDA. “História de Nossa Senhora Aparecida — 1800: Devoção.” A12. Acesso em 10 de setembro de 2026.

  • SANTUÁRIO NACIONAL DE APARECIDA. “História de Nossa Senhora Aparecida — 1900: Padroeira do Brasil.” A12. Acesso em 10 de setembro de 2026.

  • SANTUÁRIO NACIONAL DE APARECIDA. “Mantos e Coroas da Mãe Aparecida.” A12. Acesso em 10 de setembro de 2026.

1 comentário


Hálisson Andrade
Hálisson Andrade
21 de nov. de 2023

Maria concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a vós!

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