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A Sabedoria como dom de Deus e temor do Senhor e vida reta (Pr 1,1-7; Sb 7–9)

há 11 minutos
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ARTIGO - A SABEDORIA COMO DOM DE DEUSCaminho de Fé

INTRODUÇÃO

Vivemos cercados de informações. Em poucos instantes, podemos consultar livros, notícias, opiniões, estatísticas e explicações sobre quase qualquer assunto. No entanto, ter acesso a muitos dados não significa necessariamente saber viver bem. Uma pessoa pode possuir grande conhecimento técnico e, ainda assim, tomar decisões moralmente desastrosas; pode compreender processos complexos e não saber ordenar os próprios desejos; pode aconselhar outros e permanecer incapaz de reconhecer o caminho que conduz a Deus. A Sagrada Escritura distingue, portanto, o simples acúmulo de conhecimento daquela sabedoria que ilumina a inteligência e orienta a existência.

O início do livro dos Provérbios apresenta essa sabedoria como verdadeira formação do homem. Seus ensinamentos destinam-se a fazer conhecer “sabedoria e disciplina”, compreender palavras de inteligência e receber instrução para viver com justiça, juízo e retidão (Pr 1,2–3). Não se trata somente de aprender ideias. O discípulo deve tornar-se capaz de julgar, escolher e agir bem. Por isso, o prólogo culmina numa afirmação que governa toda a tradição sapiencial: “O temor do SENHOR é o princípio do conhecimento” (Pr 1,7).

O livro da Sabedoria aprofunda essa verdade de modo admirável. Nos capítulos 7–9, o sábio reconhece que a verdadeira Sabedoria vale mais do que poder, riqueza, saúde e beleza; compreende que ela produz virtudes e orienta o governo da vida; e finalmente descobre que não pode possuí-la por suas próprias forças. É necessário pedi-la: “Dá-me a Sabedoria” (Sb 9,4).

Forma-se, assim, um itinerário espiritual muito preciso. A sabedoria começa no temor do Senhor, cresce na humildade e na docilidade, aprende a ordenar os bens, transforma-se em vida virtuosa e culmina na oração. Ser sábio, segundo a Bíblia, é aprender diante de Deus a conhecer o verdadeiro bem e receber dele a luz necessária para caminhar retamente.

Homem em oração ao amanhecer no antigo Israel, diante de caminho iluminado, simbolizando temor do Senhor, sabedoria divina e vida reta.

2. SABEDORIA COMO DOM DE DEUS

2.1. O temor do Senhor: o princípio que ordena o conhecimento

Os primeiros versículos de Provérbios são como a porta de entrada de uma escola. Neles aparecem repetidamente atitudes próprias de quem deseja aprender: conhecer, compreender, receber instrução, ouvir, aumentar o saber, adquirir direção segura. Até mesmo aquele que já é sábio deve continuar ouvindo: “Ouça o sábio, e aumentará sua instrução” (Pr 1,5). Isso revela uma característica essencial da sabedoria bíblica: o sábio não é aquele que considera concluída sua formação, mas aquele que permanece ensinável.

Essa pedagogia alcança seu fundamento em Pr 1,7: “O temor do SENHOR é o princípio do conhecimento; os insensatos desprezam a sabedoria e a disciplina”. A oposição é significativa. O contrário do sábio não é simplesmente quem possui pouca instrução intelectual. O insensato é aquele que despreza a sabedoria e se recusa a receber disciplina. Sua dificuldade mais profunda não está na falta de capacidade, mas na indisposição para submeter o próprio juízo à verdade.

Por isso, o “temor do Senhor” não deve ser entendido como terror irracional diante de Deus. Na linguagem sapiencial, ele exprime a reverência própria da criatura diante do Criador, o reconhecimento de sua santidade, soberania e justiça, acompanhado da disposição concreta para obedecer. Jó exprime a mesma verdade: “O temor do Senhor, eis a sabedoria; afastar-se do mal, eis a inteligência” (Jó 28,28). O conhecimento de Deus e a retidão da vida aparecem unidos.

A tradição espiritual católica distingue o medo puramente servil, centrado no castigo, daquele temor filial que evita o pecado sobretudo porque não deseja ofender a Deus. O Catecismo ensina que a vida cristã madura ultrapassa uma relação fundada apenas no medo e é movida pela caridade própria dos filhos de Deus; ao mesmo tempo, reconhece o temor de Deus entre os dons do Espírito Santo (CIC 1828; 1831). Não há contradição entre amor e santo temor. Quanto mais alguém ama a Deus, mais considera grave afastar-se dele.

O temor do Senhor também cura uma das grandes tentações da inteligência: fazer de si mesma a medida última do verdadeiro e do bom. Quando o homem começa por si mesmo, corre o risco de chamar bem àquilo que deseja e verdade àquilo que lhe convém. O sábio, ao contrário, aceita que a realidade possui uma ordem anterior às suas preferências. Ele não inventa o bem; procura reconhecê-lo.

Por isso, o princípio da sabedoria é também princípio de humildade. O homem sábio pode estudar, investigar, argumentar e crescer em conhecimento; a fé católica jamais exige desprezo pela razão. Mas ele sabe que sua inteligência é criada e limitada. Não se aproxima da verdade como proprietário, mas como discípulo.

Essa disposição tem consequências muito concretas. Diante de uma decisão, a pergunta sapiencial não é simplesmente: “O que eu quero fazer?”, mas: “O que é verdadeiro? O que é justo? O que Deus quer de mim?”. Quando essa pergunta se torna habitual, o temor do Senhor deixa de ser uma ideia abstrata e começa a ordenar a existência.

2.2. “Invoquei, e veio a mim a Sabedoria”: um dom maior que todos os bens

O capítulo 7 do livro da Sabedoria começa de modo surpreendente. Aquele que fala em linguagem salomônica, como rei e sábio, insiste primeiramente em sua condição comum: “Também eu sou homem mortal, semelhante a todos” (Sb 7,1). Ele nasceu como qualquer outro, precisou de cuidados, chorou ao entrar no mundo e está sujeito à mesma morte. “Para todos há uma só entrada na vida e uma saída semelhante” (Sb 7,6).

Antes de falar de grande sabedoria, portanto, o texto desfaz qualquer ilusão de superioridade natural. Nem posição social, nem inteligência, nem autoridade tornam o homem autossuficiente. O rei permanece criatura. Essa humildade prepara o versículo decisivo: “Desejei, e foi-me dado entendimento; invoquei, e veio a mim o espírito da sabedoria” (Sb 7,7).

Dois movimentos devem permanecer unidos: o homem deseja e invoca; Deus dá. A sabedoria não dispensa a busca humana, mas tampouco é produto autônomo dessa busca. Não existe oposição entre esforço e dom. O sábio estuda, reflete, procura, exerce sua inteligência; porém reconhece que o bem mais elevado não pode ser tratado como conquista da própria suficiência. Ele o recebe.

Essa descoberta modifica também sua relação com os outros bens. O autor afirma ter preferido a Sabedoria aos cetros e aos tronos; diante dela, considerou as riquezas como nada. Ouro, prata, pedras preciosas, saúde e beleza aparecem subordinados a um bem superior (Sb 7,8–10). O texto não ensina que tais realidades sejam más. Ensina algo mais exigente: elas precisam ocupar o lugar correto.

Grande parte da desordem moral nasce justamente de uma hierarquia de bens invertida. O dinheiro é um bem quando serve às necessidades legítimas, à família, à justiça e à caridade; torna-se ocasião de escravidão quando é amado acima da verdade. A saúde é um grande bem, mas não justifica qualquer ato para preservá-la. O reconhecimento humano pode ser recebido com gratidão, mas não deve ser comprado ao preço da consciência. A sabedoria ensina quais bens podem ser desejados e qual bem deve ser preferido quando não é possível conservar todos.

O paradoxo de Sb 7 é que, depois de preferir a Sabedoria às riquezas, o sábio declara: “Com ela me vieram todos os bens” (cf. Sb 7,11). Quando os bens inferiores deixam de ocupar o lugar de Deus, podem finalmente ser recebidos como bens, e não como ídolos. A sabedoria não empobrece a existência; purifica a maneira de possuí-la.

Mais ainda, ela é chamada de “tesouro inesgotável” e conduz aqueles que dela participam à amizade com Deus (cf. Sb 7,14). Aqui aparece o verdadeiro horizonte da sabedoria bíblica. Seu objetivo último não é tornar alguém brilhante, admirado ou eficiente. É ordenar o homem para Deus.

Isso muda também nossa maneira de rezar. Frequentemente pedimos soluções, resultados, oportunidades ou a remoção de dificuldades. Essas petições podem ser legítimas. Sabedoria 7, porém, ensina a formular uma súplica anterior: antes de pedir que determinada situação termine como desejamos, pedir a graça de julgá-la segundo Deus. Antes de pedir o bem que escolhemos, pedir luz para saber qual bem merece realmente ser escolhido.

2.3. A luz que não se apaga: a Sabedoria e a ordem de Deus

Depois de mostrar que a Sabedoria é recebida e deve ser preferida aos bens passageiros, o livro eleva o olhar para sua extraordinária dignidade. Sb 7,22–30 contém um dos elogios mais elevados da Sabedoria em todo o Antigo Testamento. Ela é descrita como pura, luminosa, amante do bem, penetrante e benfazeja. O texto a chama de “sopro do poder de Deus”, “emanação pura da glória do Onipotente”, “esplendor da luz eterna”, “espelho sem mancha” do poder divino e “imagem de sua bondade” (cf. Sb 7,25–26).

Essas expressões não apresentam a sabedoria como simples habilidade psicológica. Sua grandeza está em sua relação íntima com Deus. Ela manifesta a ordem divina, ilumina a criação e permite perceber as coisas não apenas em sua utilidade imediata, mas na verdade mais profunda de sua relação com o Criador.

Por isso, o texto afirma que, permanecendo una, a Sabedoria “tudo renova” e, passando às almas santas, “faz amigos de Deus e profetas” (cf. Sb 7,27). A verdadeira sabedoria possui uma fecundidade moral e espiritual. Quem recebe sua luz não deveria simplesmente pensar melhor; deveria também tornar-se melhor. Conhecer segundo Deus exige progressivamente querer segundo Deus e agir segundo Deus.

O início do capítulo seguinte amplia essa perspectiva: a Sabedoria “alcança com vigor de uma extremidade à outra e dispõe todas as coisas com suavidade” (Sb 8,1). A tradição cristã encontrou nessa linguagem uma expressão particularmente bela da ordem providencial. O Catecismo ensina que Deus criou o universo segundo sua sabedoria e que a criação possui ordem, verdade e bondade próprias, todas dependentes do Criador (CIC 295–299).

Isso significa que a vida moral não é a imposição arbitrária de regras sobre uma realidade indiferente. Se Deus criou com sabedoria, viver bem significa aprender a reconhecer e respeitar a ordem do bem querida por ele. Os mandamentos não são obstáculos colocados entre o homem e sua felicidade; indicam o caminho segundo o qual a liberdade criada encontra sua verdadeira perfeição.

Para o cristão, a linguagem sapiencial do Antigo Testamento recebe ainda uma nova luz na plenitude da Revelação. São Paulo chama Cristo de “poder de Deus e sabedoria de Deus” (1Cor 1,24) e afirma que ele se tornou para nós “sabedoria da parte de Deus” (1Cor 1,30). O Novo Testamento apresenta também o Filho em relação à criação e à plenitude do conhecimento divino (cf. Cl 1,15–17; Hb 1,1–3).

É importante, contudo, respeitar o desenvolvimento da Revelação. O sentido literal de Sb 7 não deve ser reduzido a uma formulação trinitária completa que o autor ainda não possuía. A leitura cristã não apaga o Antigo Testamento; reconhece que suas palavras alcançam, em Cristo, uma plenitude que só se torna manifesta posteriormente.

Aquele que encontra Cristo, Sabedoria de Deus, descobre também que a vida sábia não consiste meramente em dominar conceitos religiosos. Trata-se de deixar a inteligência ser iluminada pela verdade revelada e permitir que essa verdade configure a própria existência. A Sabedoria divina não foi dada para alimentar orgulho intelectual, mas para produzir comunhão, santidade e amizade com Deus.

2.4. Da luz à vida: Sabedoria, virtudes e retidão moral

O livro da Sabedoria não deixa seu ensinamento no plano da contemplação. Em Sb 8, a Sabedoria aparece como alguém cuja companhia deve ser desejada. O sábio afirma que a amou, procurou e desejou tê-la consigo; mais adiante, resolve trazê-la para viver com ele, pois seria “conselheira dos bens” e consolação nas preocupações e fadigas (cf. Sb 8,2.9).

A imagem é muito expressiva. A sabedoria não deveria ser consultada apenas em momentos extraordinários, como se fosse recurso reservado às grandes crises. Ela deve tornar-se companheira habitual. O fiel precisa aprender a levá-la para as pequenas decisões, para o modo de falar, trabalhar, usar o dinheiro, ordenar o tempo, exercer autoridade, reagir às ofensas e escolher aquilo que alimenta sua inteligência e seus afetos.

Essa passagem para a vida concreta aparece explicitamente em Sb 8,7: “Se alguém ama a justiça, os trabalhos da sabedoria são virtudes: ela ensina temperança e prudência, justiça e fortaleza”. A tradição cristã reconhece nessas quatro disposições as virtudes cardeais. O Catecismo, ao apresentá-las, cita justamente esse versículo e explica que tais virtudes desempenham papel fundamental na vida moral (CIC 1805).

A prudência dispõe a razão prática a discernir o verdadeiro bem em cada circunstância e escolher os meios adequados para realizá-lo (CIC 1806). Não deve ser confundida com esperteza ou habilidade para escapar de dificuldades. A pessoa esperta pode perguntar: “Como consigo aquilo que desejo?”. A prudente pergunta primeiro: “Aquilo que desejo é realmente bom?”. Somente depois procura os meios moralmente adequados para alcançá-lo.

A justiça orienta a vontade a dar a Deus e ao próximo aquilo que lhes é devido. A fortaleza sustenta a fidelidade ao bem quando surgem medo, sofrimento, oposição ou cansaço. A temperança modera a atração dos prazeres e impede que desejos legítimos se convertam em senhores da pessoa. Juntas, essas virtudes demonstram que sabedoria bíblica e caráter moral não podem ser separados.

Alguém pode possuir grande inteligência e utilizá-la para justificar o egoísmo. Pode conhecer muito bem a doutrina moral e inventar exceções para si próprio. Pode compreender as consequências de uma ação e, ainda assim, escolher o mal. A sabedoria, ao contrário, busca uma integração entre verdade conhecida e bem praticado.

É precisamente nesse ponto que Sb 8 alcança sua descoberta decisiva. Depois de considerar a excelência e os frutos da Sabedoria, o autor reconhece que não poderia possuí-la “se Deus não a concedesse” (cf. Sb 8,21). E perceber de quem vem o dom já é, em si, um ato de sabedoria.

A doutrina católica da graça encontra aqui uma profunda consonância. O dom de Deus não torna inútil a cooperação humana; torna-a possível, fecunda e corretamente orientada. O cristão precisa formar a consciência, estudar, adquirir bons hábitos, combater vícios e exercitar as virtudes. Mas não deve imaginar que a santidade seja produto de engenharia moral realizada independentemente de Deus.

A vida reta nasce, portanto, da cooperação entre o dom recebido e a resposta livre. E, quando o homem reconhece que necessita receber aquilo que não pode fabricar sozinho, a reflexão inevitavelmente se transforma em oração.

2.5. “Dá-me a Sabedoria”: a oração que endireita os caminhos

Sabedoria 9 é o ponto culminante dos capítulos anteriores. Aquilo que começou como desejo em Sb 7,7 e foi aprofundado como busca e companhia em Sb 8 torna-se agora súplica explícita. O sábio não termina sua reflexão dizendo: “Agora compreendi suficientemente a Sabedoria”. Ele se dirige a Deus: “Dá-me a Sabedoria” (Sb 9,4).

A oração começa contemplando o Criador. Deus fez todas as coisas por sua palavra e, em sua Sabedoria, formou o homem para governar as criaturas com santidade e justiça (cf. Sb 9,1–3). Essa abertura é decisiva porque coloca a missão humana dentro de uma ordem recebida. O homem não é senhor absoluto do mundo nem de si mesmo. Sua autoridade é verdadeira, mas participada; sua liberdade é real, mas encontra sua perfeição quando se conforma ao bem.

É nesse contexto que surge o pedido. O orante necessita da Sabedoria porque possui uma missão que excede sua suficiência. Ele deverá julgar, governar e agir, mas sabe que uma decisão exteriormente eficiente pode ser profundamente injusta. Por isso, não pede apenas capacidade; pede participação no discernimento de Deus.

A humildade dessa oração se torna ainda mais clara quando o rei se chama “servo”, “filho de tua serva”, homem fraco e de vida breve (cf. Sb 9,5). Mesmo aquele que possui autoridade precisa reconhecer sua condição de criatura. O texto chega a declarar que, ainda que alguém fosse considerado perfeito entre os homens, nada seria se lhe faltasse a Sabedoria procedente de Deus (cf. Sb 9,6).

Não há aqui desprezo pelas capacidades naturais. O próprio livro valoriza conhecimento, inteligência, experiência e governo prudente. O que se rejeita é a pretensão de autossuficiência. A razão humana é verdadeira e capaz de conhecer; porém é limitada. Sb 9,13–16 descreve pensamentos inseguros, raciocínios sujeitos à incerteza e a dificuldade própria de nossa condição. A humildade intelectual, portanto, não significa ceticismo. Significa reconhecer que não sabemos tudo e que precisamos ser iluminados.

A oração chega então a uma de suas formulações mais profundas: “Quem conhecerá teu conselho, se tu não deres a Sabedoria e não enviares do alto teu Espírito Santo?” (Sb 9,17). No sentido próprio do texto veterotestamentário, Sabedoria e Espírito aparecem intimamente relacionados como dons que permitem conhecer e cumprir o querer de Deus. Não se deve projetar sobre o autor uma formulação trinitária plenamente desenvolvida. Contudo, à luz da Revelação cristã, a Igreja reconhece legitimamente nessa passagem uma preparação para compreender a ação iluminadora e santificadora do Espírito Santo. O Catecismo do Concílio de Trento recorre precisamente a Sb 9,17 ao tratar do Espírito Santo.

O Catecismo da Igreja Católica, por sua vez, ensina que a vida moral dos cristãos é sustentada pelos dons do Espírito, entre os quais estão a sabedoria e o temor de Deus (CIC 1830–1831). Assim, os dois grandes temas de nosso percurso voltam a encontrar-se: o temor com que Provérbios abre a escola sapiencial e a Sabedoria pedida em oração pertencem à existência de quem deseja deixar-se conduzir por Deus.

O último versículo de Sb 9 mostra o fruto desse dom: os caminhos dos homens foram endireitados, eles aprenderam o que agrada a Deus e “foram salvos pela Sabedoria” (Sb 9,18). Eis a finalidade. A sabedoria não termina numa biblioteca, numa discussão ou numa inteligência satisfeita consigo mesma. Ela endireita caminhos.

Por isso, uma prática simples pode transformar profundamente o discernimento cristão: antes de decisões importantes, examinar honestamente os fatos, confrontar as possibilidades com os mandamentos e as virtudes, buscar conselho quando necessário e então rezar: “Senhor, não permitas que eu apenas encontre argumentos para aquilo que já decidi. Dá-me a Sabedoria para reconhecer e querer aquilo que é agradável a ti”.

 

CONCLUSÃO

O itinerário de Pr 1,1–7 e Sb 7–9 oferece uma resposta muito diferente daquela que o mundo frequentemente dá à pergunta sobre quem é sábio. A sabedoria bíblica não começa na superioridade intelectual, mas na reverência: “O temor do SENHOR é o princípio do conhecimento” (Pr 1,7). Antes de aprender muitas coisas, o homem precisa aprender qual é seu lugar diante de Deus.

Esse temor torna a inteligência dócil. O sábio aceita ouvir, receber instrução e ser corrigido. Descobre então que nem todos os bens possuem o mesmo valor. Como ensina Sb 7, riqueza, prestígio, saúde e beleza não são necessariamente males; tornam-se desordenados quando são preferidos àquilo que conduz à verdade e à amizade com Deus. A Sabedoria restitui a cada coisa seu lugar.

Em Sb 8, aquilo que foi contemplado começa a modelar o caráter. Prudência, justiça, fortaleza e temperança mostram que a sabedoria precisa tornar-se vida. Não basta saber definir o bem: é preciso escolhê-lo. Não basta reconhecer a verdade quando nada custa: é preciso permanecer nela quando exige renúncia.

Finalmente, Sb 9 conduz o homem ao gesto mais sábio de todos: pedir. Aquele que compreende verdadeiramente seus limites deixa de procurar em si mesmo a fonte última da luz e diz a Deus: “Dá-me a Sabedoria”. Nessa súplica, a inteligência humana não é destruída; é purificada de sua pretensão de autossuficiência e aberta ao dom.

Também nós precisamos reaprender essas perguntas fundamentais. Isto é verdadeiro ou apenas conveniente? Isto é bom ou apenas agradável? Esta escolha me aproxima de Deus ou simplesmente satisfaz uma paixão? Estou disposto a aceitar correção? Procuro conhecer a vontade divina ou apenas peço que Deus confirme a minha?

O verdadeiro sábio não é quem imagina possuir todas as respostas, mas quem aprendeu diante de quem deve buscá-las. Ele teme ao Senhor, deseja a verdade, recebe a correção, ordena os bens, cultiva as virtudes e reza antes de decidir. E, iluminado pela graça, transforma aquilo que conhece em caminho de fidelidade.

 

ORAÇÃO DE ENCERRAMENTO

Senhor Deus, fonte de toda verdade e Sabedoria, reconhecemos diante de ti nossa pequenez e nossos limites. Livra-nos da presunção de fazer de nossos desejos a medida do bem. Dá-nos o santo temor que nasce do amor, para que te reconheçamos como Senhor e permaneçamos dóceis à tua verdade.

Dá-nos a Sabedoria que vem do alto. Ilumina nossa inteligência, purifica nossas intenções e ordena nossos afetos. Concede-nos prudência para discernir, justiça para agir retamente, fortaleza para perseverar no bem e temperança para governar nossos desejos. Ensina-nos a querer aquilo que é agradável a ti.

Envia sobre nós o teu Espírito Santo e endireita nossos caminhos. Que tua Palavra forme nossas decisões, que tua graça sustente nossas obras e que toda a nossa vida caminhe para a amizade contigo. Por Jesus Cristo, teu Filho, Sabedoria eterna, que contigo vive e reina na unidade do Espírito Santo. Amém.

Provérbios 1,1–7

1  Provérbios de Salomão, filho de Davi, rei de Israel:

2  para conhecer a sabedoria e a disciplina, para compreender palavras de prudência;

3  para acolher a instrução que forma, a justiça, o juízo e a equidade;

4  para dar sagacidade aos simples, e ao jovem conhecimento e reflexão.

5  Ouça o sábio, e aumentará sua instrução; e o inteligente adquirirá direção segura,

6  para compreender o provérbio e a linguagem figurada, as palavras dos sábios e seus enigmas.

7  O temor do Senhor é o princípio do conhecimento; os insensatos desprezam a sabedoria e a disciplina.

Sabedoria 7

1 Também eu sou homem mortal, semelhante a todos, descendente daquele primeiro que foi formado da terra; no ventre de minha mãe fui formado em carne.

2 Durante o tempo da gestação fui formado no sangue, da semente de homem e do prazer que acompanha o sono.

3 Ao nascer, respirei o ar comum e caí sobre a terra que a todos acolhe, e meu primeiro som foi um choro igual ao de todos.

4 Fui criado em faixas e cuidados;

5 pois nenhum rei teve outro princípio de nascimento.

6 Para todos há uma só entrada na vida e uma saída semelhante.

7 Por isso desejei, e foi-me dado entendimento; invoquei, e veio a mim o espírito da sabedoria.

8 Preferi-a aos cetros e aos tronos e, comparadas com ela, julguei as riquezas como nada.

9 Não a comparei à pedra preciosa, porque todo o ouro diante dela é como pouca areia, e a prata será tida como lama.

10 Amei-a mais do que a saúde e a beleza e resolvi tê-la por luz, porque sua claridade é inextinguível.

11 Com ela vieram-me ao mesmo tempo todos os bens, e incontáveis riquezas estavam em suas mãos.

12 Alegrei-me em todos eles, porque a sabedoria os precede; eu não sabia, porém, que ela é mãe de todos eles.

13 Aprendi-a sem fingimento e a comunico sem inveja; não escondo suas riquezas.

14 Ela é tesouro inesgotável para os homens; os que a adquirem se dispõem para a amizade com Deus, recomendados pelos dons da disciplina.

15 Que Deus me conceda falar conforme o seu pensamento e pensar de modo digno dos dons recebidos, pois ele é guia da sabedoria e corretor dos sábios.

16 Em sua mão estamos nós, nossas palavras, toda sabedoria e o conhecimento das obras.

17 Foi ele quem me deu verdadeiro conhecimento das coisas, para conhecer a disposição do mundo e as forças dos elementos,

18 o começo, o fim e o meio dos tempos, as mudanças das estações e as variações dos tempos,

19 os ciclos do ano e as disposições das estrelas,

20 as naturezas dos animais e os impulsos das feras, a força dos ventos, os pensamentos dos homens, as diferenças das plantas e as virtudes das raízes.

21 Aprendi tudo o que é oculto e manifesto, pois a Sabedoria, artífice de todas as coisas, me ensinou.

22 Nela há um espírito inteligente, santo, único, múltiplo, sutil, móvel, límpido, imaculado, luminoso, inocente, amante do bem, penetrante,

23 irresistível, benfazejo, amigo dos homens, benigno, estável, seguro, livre de inquietação, todo-poderoso, que tudo contempla e penetra todos os espíritos inteligentes, puros e sutis.

24 A Sabedoria é mais móvel do que todo movimento; por sua pureza atravessa e penetra todas as coisas.

25 Ela é sopro do poder de Deus e emanação pura da glória do Onipotente; por isso nada impuro nela se introduz.

26 É esplendor da luz eterna, espelho sem mancha do poder de Deus e imagem de sua bondade.

27 Sendo uma, tudo pode; permanecendo em si mesma, tudo renova; passando de geração em geração às almas santas, faz amigos de Deus e profetas.

28 Pois Deus nada ama senão aquele que habita com a sabedoria.

29 Ela é mais bela do que o sol e supera toda a ordem das estrelas; comparada com a luz, é mais esplêndida,

30 porque à luz sucede a noite, mas a maldade não prevalece contra a sabedoria.

Sabedoria 8

1 Ela alcança com vigor de uma extremidade à outra e dispõe todas as coisas com suavidade.

2 Eu a amei e procurei desde a juventude; busquei tomá-la por esposa e tornei-me amante de sua beleza.

3 Sua nobreza resplandece por viver em comunhão com Deus, e o Senhor de todas as coisas a ama.

4 Ela é iniciada no conhecimento de Deus e escolhe as obras dele.

5 Se as riquezas são desejáveis na vida, que há de mais rico do que a sabedoria, que tudo opera?

6 E, se a inteligência realiza obras, quem, entre os seres, é mais artífice do que ela?

7 Se alguém ama a justiça, os trabalhos da sabedoria são virtudes: ela ensina temperança e prudência, justiça e fortaleza; nada há mais útil aos homens na vida.

8 Se alguém deseja grande experiência, ela conhece o passado e conjectura o futuro; conhece as sutilezas dos discursos e a solução dos enigmas; prevê sinais e prodígios e os acontecimentos dos tempos e das épocas.

9 Resolvi, portanto, trazê-la para viver comigo, sabendo que seria conselheira dos bens e consolação nas preocupações e fadigas.

10 Por causa dela terei honra entre as multidões e, embora jovem, respeito entre os anciãos.

11 Serei encontrado perspicaz no julgamento e admirável diante dos poderosos.

12 Se eu me calar, esperarão por mim; se falar, prestarão atenção; e, se me alongar no discurso, porão a mão sobre a boca.

13 Por ela alcançarei imortalidade e deixarei memória eterna aos que vierem depois de mim.

14 Governarei povos e nações me serão sujeitas.

15 Reis terríveis temerão ao ouvir falar de mim; no meio do povo parecerei bom e na guerra, forte.

16 Entrando em minha casa, descansarei com ela, pois sua convivência não tem amargura nem sua companhia, tédio, mas alegria e gozo.

17 Considerando estas coisas e refletindo em meu coração que na comunhão com a sabedoria há imortalidade,

18 em sua amizade, deleite bom; nos trabalhos de suas mãos, riqueza inesgotável; no exercício de sua palavra, inteligência; e na comunicação com ela, glória, eu percorria caminhos buscando recebê-la.

19 Eu era uma criança de boa índole e havia recebido uma alma boa;

20 ou melhor, sendo bom, vim a um corpo sem mancha.

21 Mas, sabendo que eu não poderia possuir continência se Deus não a concedesse — e já era sabedoria saber de quem vinha esse dom —, dirigi-me ao Senhor, supliquei-lhe e disse de todo o coração:

Sabedoria 9

1 Deus de meus pais e Senhor de misericórdia, que fizeste todas as coisas por tua palavra

2 e, por tua sabedoria, estabeleceste o homem para dominar as criaturas feitas por ti,

3 para governar o mundo em santidade e justiça e exercer o julgamento com retidão de coração,

4 dá-me a Sabedoria, que assiste junto de teus tronos, e não me excluas do número de teus servos;

5 porque sou teu servo e filho de tua serva, homem fraco e de vida breve, pequeno para compreender o juízo e as leis.

6 Ainda que alguém seja perfeito entre os filhos dos homens, se lhe faltar tua sabedoria, será tido por nada.

7 Tu me escolheste rei de teu povo e juiz de teus filhos e filhas;

8 disseste que eu edificasse um templo em teu monte santo e um altar na cidade de tua morada, à semelhança da tenda santa que preparaste desde o princípio.

9 Contigo está a Sabedoria, que conhece tuas obras; ela estava presente quando fazias o mundo e sabia o que era agradável a teus olhos e reto segundo teus mandamentos.

10 Envia-a de teus santos céus e manda-a do trono de tua grandeza, para que esteja comigo e trabalhe comigo, e eu saiba o que é agradável a ti.

11 Pois ela tudo sabe e compreende; há de guiar-me prudentemente em minhas obras e guardar-me em sua glória.

12 Assim minhas obras serão aceitas, julgarei teu povo com justiça e serei digno do trono de meu pai.

13 Pois que homem pode conhecer o conselho de Deus? Ou quem pode conceber o que o Senhor quer?

14 Os pensamentos dos mortais são tímidos e incertas são nossas previsões,

15 porque o corpo corruptível pesa sobre a alma, e a morada terrena oprime a mente carregada de muitos pensamentos.

16 Com dificuldade conjecturamos o que está sobre a terra e com esforço descobrimos o que está diante de nós; mas quem investigará as coisas do céu?

17 Quem conhecerá teu conselho, se tu não deres a Sabedoria e não enviares do alto teu Espírito Santo?

18 Assim foram endireitados os caminhos dos que estão sobre a terra; os homens aprenderam o que te agrada e foram salvos pela Sabedoria.

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