Jesus Cristo, Rei do Universo: Uma Celebração de Fé e Soberania
- escritorhoa
- 26 de nov. de 2023
- 11 min de leitura
Atualizado: 20 de dez. de 2025
INTRODUÇÃO
Na festa de Cristo Rei, a Igreja contempla o ápice do Evangelho: o Filho eterno, feito homem, reina pela Cruz e conduz toda a criação ao Pai. Não celebramos um poder mundano, mas a soberania do Amor que cria, redime e julga. Num tempo que exalta autonomias sem Deus, esta solenidade recorda que a história tem um centro e um fim: Jesus. Diante d’Ele, a liberdade humana não é esmagada; é curada, ordenada e elevada, para que o coração encontre a paz do Reino. Ele é o Rei prometido pelos profetas, confessado no Credo, presente na Eucaristia para sempre.
Em 1925, o Papa Pio XI instituiu a festa por meio da encíclica Quas Primas, como remédio contra a secularização e o anticlericalismo que expulsavam Cristo da vida pública. Ele advertiu que, quando indivíduos e Estados recusam submeter-se ao Salvador, a paz torna-se frágil e ilusória, e a sociedade se desagrega em rivalidades, egoísmos e crises familiares. Por isso, proclamar Cristo Rei não é nostalgia política, mas ato de fé: reconhecer o direito do Criador e Redentor sobre inteligências, vontades e costumes. Essa celebração forma católicos corajosos, capazes de adorar, obedecer e testemunhar, até que o Reino se manifeste plenamente.
Neste artigo, aprofundaremos os fundamentos bíblicos, patrísticos e doutrinais da realeza de Jesus, com especial atenção à luz da Tradição perene da Igreja, do Magistério e do testemunho dos Santos Padres. Veremos como o “Meu reino não é deste mundo” não nega a autoridade de Cristo sobre o mundo, mas purifica a ideia de poder. Consideraremos o tríplice múnus do Messias — Sacerdote, Profeta e Rei — e sua realização na Igreja, Reino espiritual e visível.
Por fim, colheremos implicações práticas: entronizar Cristo no lar, na consciência e na vida social, com humildade e firmeza. Que esta leitura renove esperança e nos disponha a viver como súditos do Cordeiro.

A REALEZA DE CRISTO NA ESCRITURA, NA TRADIÇÃO E NA VIDA CRISTÃ
1. Promessa e figura no Antigo Testamento
A realeza de Cristo não nasce como metáfora tardia, mas como promessa divina que atravessa a história da salvação. No Antigo Testamento, Deus educa o seu povo por sinais: reis, tronos, alianças e cânticos reais não são apenas política de Israel, mas pedagogia providencial que prepara a inteligência para reconhecer o verdadeiro Rei. A promessa feita a Davi — de que sua casa permaneceria e que um descendente reinaria de modo firme — abre o horizonte de um reinado que supera o tempo. Nessa linha, os Salmos reais cantam um Ungido que recebe as nações por herança e governa com justiça, indicando que a realeza messiânica não será capricho de homem, mas expressão da retidão de Deus.
O profeta Daniel, por sua vez, contempla em visão o “Filho do Homem” recebendo domínio, glória e reino que não passará. Essa imagem é decisiva: o Reino não é apenas continuidade de Israel, mas soberania universal conferida por Deus, superior aos impérios que surgem e caem. O Antigo Testamento, assim, cria um contraste: os reinos terrenos, mesmo quando legítimos, são limitados, sujeitos ao pecado e à morte; o reinado prometido por Deus é definitivo, justo e pacificador. Por isso, a esperança bíblica não é a nostalgia de uma monarquia idealizada, mas a expectativa de um governo santo que restaura a ordem do amor.
Ao mesmo tempo, a Escritura insinua que esse Rei não dominará como os príncipes deste mundo. O “pastor” prometido não esmagará a cana rachada; o servo do Senhor assumirá a dor do povo; a vitória de Deus aparece como triunfo da fidelidade, não como espetáculo de força. Assim, desde cedo, a realeza messiânica é apresentada com uma nota paradoxal: é verdadeira e abrangente, mas será exercida por caminhos que o mundo não compreende. Esse pano de fundo é indispensável para entender por que a Igreja proclama Cristo Rei do Universo: Ele é a plenitude das promessas, o cumprimento das figuras e o sentido final de toda autoridade legítima.
2. O Rei diante de Pilatos e o trono da Cruz
Quando o Evangelho mostra Jesus diante de Pilatos, estamos no centro dramático do tema: a realeza de Cristo é confessada no momento em que o mundo a ridiculariza. A pergunta do governador — “És tu rei?” — nasce de uma lógica política: realeza é ameaça, disputa de poder, risco de revolta. Jesus, porém, responde deslocando o eixo: seu Reino não “é deste mundo” (Jo 18,36). Isso não significa que o Reino seja irrelevante para a vida humana, nem que se restrinja ao íntimo; significa, antes, que não tem origem mundana e não opera segundo os métodos do mundo. Se fosse um reino feito de violência, propaganda e coerção, seus servos lutariam. Mas o Rei escolhe o testemunho da verdade, não a espada.
Aqui a teologia católica é cuidadosa: “não é deste mundo” purifica a ideia de poder sem abolir a soberania de Cristo. O Reino vem do Alto, e por isso é capaz de julgar e corrigir todas as realidades terrenas. Ao recusar o caminho da força, Cristo não renuncia ao direito; Ele revela o fundamento do verdadeiro direito: a verdade sobre Deus e sobre o homem. Pilatos pergunta “o que é a verdade?”, e essa pergunta permanece no coração do século moderno. Cristo responde não com uma definição abstrata, mas com a própria Pessoa: Ele é a Verdade encarnada, e sua realeza começa quando as consciências se submetem ao que Deus revelou.
O ápice desse ensinamento é a Cruz. O mundo vê derrota; a fé vê entronização. O letreiro real sobre a cabeça de Jesus, as vestes repartidas, a coroa de espinhos: tudo isso, embora nascido de escárnio, torna-se sinal de um reinado que se estabelece pela oblação. É significativo que, no Calvário, apareça a súplica do bom ladrão: “Lembra-te de mim quando vieres com o teu Reino” (Lc 23,42). A resposta de Cristo — “Hoje estarás comigo no Paraíso” — mostra que o Reino se abre pela misericórdia. A Cruz é trono porque nela o Rei governa perdoando, atraindo e reconciliando. Assim, a festa de Cristo Rei não pode ser compreendida sem este núcleo: o Rei reina como Cordeiro, e sua soberania se manifesta na caridade que se entrega até o fim.
3. Doutrina da realeza de Cristo e o tríplice múnus
A Tradição católica sempre contemplou a realeza de Cristo como parte do mistério total do Salvador. Ele é Rei porque é o Verbo eterno — e, portanto, Criador e Senhor de tudo — e também porque, como homem, foi constituído Cabeça da nova humanidade mediante a Redenção. Essa dupla base (natureza e conquista redentora) impede reducionismos: não se trata de uma honra simbólica, mas de um direito real; e não se trata de um direito frio, mas do governo misericordioso daquele que pagou o preço de nosso resgate.
O Catecismo de São Pio X ajuda com clareza popular e fidelidade doutrinal: Cristo é “ungido” porque, na antiga economia, ungiam-se reis, sacerdotes e profetas; e Jesus é, ao mesmo tempo, Rei, Sacerdote e Profeta. Essa tríplice função é uma chave segura. Como Profeta, Ele ensina a verdade que salva; como Sacerdote, oferece o sacrifício perfeito e comunica a graça; como Rei, governa e ordena todas as coisas ao fim último, estabelecendo a lei do Evangelho e conduzindo o povo santo. A realeza, portanto, não é apenas “autoridade”; é direção salvífica: Cristo governa para santificar.
Daí decorre um ponto essencial: o Reino de Cristo não é só futuro, nem apenas interior; é presente e eclesial. A Tradição perene insiste que o Reino é espiritual — porque nasce da graça e se dirige ao fim eterno —, universal — porque abraça todas as nações — e perpétuo — porque não se extingue com a morte. A Igreja aparece, então, como o âmbito visível em que o reinado de Cristo se faz operante no tempo: nela o Rei fala (magistério), age (sacramentos) e governa (disciplina e pastoreio). Essa visão também protege contra um erro frequente: imaginar que “Cristo reina” apenas quando há emoção religiosa. Não: Ele reina quando a fé ilumina a inteligência, quando a vontade aceita a lei divina, quando a vida sacramental sustenta a virtude, quando a caridade se torna norma concreta.
Por fim, a doutrina lembra que o Rei também julga. A realeza de Cristo inclui o Juízo, e o Evangelho aponta o critério desse julgamento: a caridade praticada (Mt 25). Isso dá à festa de Cristo Rei uma seriedade luminosa: não é apenas consolação, mas chamado à conversão. O Rei é manso, mas não é neutro; Ele salva, mas também separa luz e trevas, verdade e mentira, amor e egoísmo.
4. Leitura patrística: o Reino que nasce do amor
Os Padres da Igreja aprofundaram a realeza de Cristo com um olhar pastoral e contemplativo, sempre enraizado na Escritura. Um fio recorrente neles é a afirmação de que o Reino não é uma “estrutura”, mas um governo de Deus sobre a criatura racional, realizado pela graça e confirmado pela liberdade obediente. Por isso, ao comentar a Paixão, os Padres veem na Cruz não um fracasso, mas o triunfo paradoxal: Cristo reina porque ama até o fim, e seu poder se mostra na capacidade de transformar o inimigo em amigo, o pecador em filho.
Santo Agostinho, ao distinguir a Cidade de Deus e a cidade terrena, ilumina a dimensão escatológica e moral do tema. Os reinos do mundo nascem e passam; mesmo quando buscam justiça, carregam ambivalências e fragilidades. O Reino de Cristo, porém, se identifica com a ordem do amor: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo por Deus. Quando esse amor governa, nasce uma paz que não depende de propaganda nem de medo. Assim, Cristo Rei não é bandeira de superioridade humana, mas critério de humildade: quem pertence ao Reino aprende a servir.
São João Crisóstomo frequentemente insiste que a majestade de Cristo se manifesta na mansidão e na verdade. O Rei não precisa violentar; Ele convence, chama, corrige, perdoa. Esse aspecto é decisivo para evitar caricaturas: a realeza de Cristo não legitima agressividade religiosa. Pelo contrário, ela desautoriza toda forma de domínio que contradiga o Evangelho. O súdito de Cristo é firme na fé, mas paciente e longânimo no trato, porque aprendeu com o Rei que preferiu sofrer a fazer sofrer.
São Leão Magno, ao contemplar o mistério pascal, reforça a ideia de “triunfo” da Cruz: a humilhação é a passagem para a exaltação. Nessa perspectiva, a festa de Cristo Rei forma mártires e confessores: pessoas que preferem perder status, vantagens ou aplausos a negar o Senhorio de Jesus. Assim, a patrística oferece ao fiel moderno um caminho seguro: viver a realeza de Cristo é permitir que Ele governe interiormente por meio das virtudes — especialmente a humildade, a castidade, a justiça e a caridade — e exteriormente por meio do testemunho perseverante, sem mundanismo e sem sectarismo.
5. Pio XI e a realeza social de Cristo
A instituição da festa por Pio XI não foi apenas um ato devocional; foi uma resposta magisterial a uma crise cultural. O Papa viu crescer uma visão de sociedade que pretendia organizar o humano “como se Deus não existisse”, relegando a fé ao privado e tratando a Igreja como mera associação tolerada. Contra isso, ele proclamou um princípio: Cristo tem direitos sobre pessoas e sociedades, porque é Criador e Redentor. Negar isso não produz neutralidade, mas idolatria: quando Cristo é expulso, algo ocupa seu lugar — o Estado absoluto, o nacionalismo, o dinheiro, o prazer, a ideologia.
A expressão “realeza social” precisa ser entendida corretamente para não ser distorcida. Ela não significa coerção de consciência nem teocracia política. Significa, antes, que o Evangelho tem consequências públicas: a lei moral natural é reconhecível pela razão, e a Revelação confirma e eleva o bem humano. Assim, uma sociedade não deve legislar como se o homem fosse deus, nem como se o bem e o mal fossem convenções. Pio XI associa a recusa do reinado de Cristo à fragilidade da paz: sem verdade e sem lei moral, os pactos se tornam utilitários, as famílias se desestruturam, e o convívio vira disputa.
Nesse horizonte, a festa educa o católico para uma presença pública equilibrada: não confundir o Reino com projetos terrenos, mas também não aceitar a mutilação da fé. Cristo Rei exige que a consciência permaneça íntegra e que a ação social seja animada pela caridade e pela justiça. O fiel não idolatra partidos, nem absolutiza identidades terrenas; mas tampouco se omite quando a dignidade humana, a família e a liberdade da Igreja são feridas. A realeza de Cristo é, portanto, um princípio de ordem e de esperança: há um Senhor acima de todos, e nenhuma força histórica pode destronar o Cordeiro.
6. Viver sob o reinado de Cristo
A festa de Cristo Rei pede uma resposta concreta: entronizar Jesus na vida real. O primeiro campo é interior. Cristo reina na inteligência quando o fiel acolhe a doutrina da Igreja com espírito de fé e rejeita o relativismo; reina na vontade quando a pessoa aceita os mandamentos não como fardos, mas como caminho de liberdade; reina no coração quando a caridade governa afetos, desejos e ambições. Esse reinado cresce pela oração diária, pela leitura reverente da Escritura e pela decisão de praticar o bem mesmo quando custa.
O segundo campo é sacramental e eclesial. O Rei governa sua Igreja de modo visível e invisível: pela Palavra anunciada, pelo perdão que restaura, pelo Sacrifício eucarístico que alimenta, pela disciplina que orienta. Viver sob seu reinado implica amar a Missa, buscar a Confissão, sustentar a vida paroquial e cultivar devoções sólidas, especialmente aquelas que apontam para o coração do Evangelho: a Eucaristia e o Sagrado Coração. Aqui se compreende por que tantas tradições católicas associam Cristo Rei ao entronizamento no lar: não como enfeite, mas como pacto de fidelidade.
O terceiro campo é familiar e social. O cristão vive no mundo, mas não segundo o mundo: trabalha com honestidade, promove a justiça sem ódio, socorre os pobres sem ideologia, defende a verdade com caridade. O reinado de Cristo aparece quando a família reza unida, quando pais educam filhos com firmeza e ternura, quando o perdão vence ressentimentos, quando a castidade protege o amor, quando a fé inspira coragem. Assim, a solenidade deixa de ser apenas “uma data” e se torna programa de vida: servir ao Rei é participar, já agora, do Reino que um dia se manifestará em plenitude.
CONCLUSÃO
Celebrar Jesus Cristo, Rei do Universo, é confessar que a realidade não é governada pelo acaso, mas pelo Deus que se fez próximo e venceu pelo amor. A festa, instituída por Pio XI para curar a sociedade que expulsava Cristo, recorda que não haverá paz estável onde a lei do Evangelho é desprezada. Contudo, a resposta da Igreja não é violência, e sim culto, catequese e santidade: levar o Rei oculto na Eucaristia ao centro da vida, para que mentes, vontades e corações se submetam à verdade. Nisso, devoção a Cristo Rei vira exame de consciência e conversão diária.
A tradição perene oferece uma harmonia segura. O Catecismo de São Pio X chama Jesus de Ungido “Rei dos reis” e ensina que seu Reino é “espiritual, universal e perpétuo”: a própria Igreja Católica, onde a graça governa por sacramentos e disciplina. A Escritura confirma: o Rei vem como testemunha da verdade, e seu trono é a cruz. A patrística acrescenta: na humilhação está a majestade. Logo, entronizar Cristo não é colocar uma imagem na sala apenas, mas acolher seu senhorio sobre nossas escolhas, com docilidade e firmeza. Ele reinando, a vida se ordena e medo recua.
Esta solenidade nos pede decisão. Se Cristo é Rei, então não há área neutra: pensamento, afetos, dinheiro, sexualidade, trabalho e política devem ser iluminados pelo Evangelho, sem fanatismo e sem vergonha. O cristão aprende a rezar e agir como súdito livre, lembrando que o Reino não vem de lutas carnais, mas do Espírito que faz novas todas as coisas. Quando as crises parecem dominar, Cristo Rei recorda o último horizonte: Ele julgará com justiça, recompensará a caridade escondida e reunirá os eleitos. Portanto, caminhemos com confiança, sob o estandarte do Rei crucificado, até que Ele seja tudo em todos eternamente.
ORAÇÃO DE ENCERRAMENTO
Senhor Jesus Cristo, Rei manso e glorioso, eu Vos adoro presente na Eucaristia e entronizado na cruz. Tomai minha mente para a verdade, minha vontade para a obediência, meu coração para a caridade. Que eu viva hoje sob o vosso doce jugo e me façais servo fiel.
Reinai em minha casa: abençoai minha família, curai divisões, sustentai os que sofrem. Fazei de nós súditos livres, que perdoam e servem, e dai coragem para confessar-vos em público sem orgulho. Guardai a vossa Igreja na unidade e na santidade, para que o mundo creia até o dia da vinda.
No fim, ó Cristo Rei, lembrai-vos de mim como lembrastes do bom ladrão. Concedei-me perseverar na graça, receber vosso julgamento com esperança e entrar no Paraíso, onde o Pai, o Filho e o Espírito Santo são adorados para sempre. Amém. Fazei que eu trabalhe por vosso Reino enquanto tenho tempo.
Leitura Complementar
Para aprofundar o tema da Cidade de Deus e da cidade terrena, leia nosso artigo: A Dualidade do Amor: Análise das Duas Cidades em “A Cidade de Deus” de Santo Agostinho
REFERÊNCIAS
Agostinho. A Cidade de Deus.
Ambrósio. Exposição do Evangelho segundo Lucas.
Aquinas, Thomas. Catena Aurea.
Aquinas, Thomas. Compendium of Theology. Translated by Cyril Vollert, S.J. St. Louis and London: B. Herder Book Co., 1947.
Denzinger, Heinrich. Enchiridion Symbolorum (excerto 1–836).
Pio X, São. Catecismo de São Pio X. 1905.
Pio XI. Quas Primas: Encyclical on the Feast of Christ the King. 11 December 1925. Libreria Editrice Vaticana.
United States Conference of Catholic Bishops. “Solemnity of Christ the King: Background.” Accessed December 20, 2025.




Comentários