O Tempo do Advento: Espera, Reflexão e Preparação para o Natal
- escritorhoa
- 27 de nov. de 2023
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Atualizado: 19 de dez. de 2025
INTRODUÇÃO
O Advento inaugura o Ano Litúrgico e convida a Igreja a renovar sua esperança na vinda do Salvador. Trata-se de um tempo profundamente marcado pela vigilância espiritual, pela sobriedade interior e pela alegre expectativa, em que os fiéis são chamados a contemplar o mistério de Cristo que veio, que vem e que virá. Essa tríplice dimensão, frequentemente destacada pelos Padres da Igreja, recorda que o Advento não é apenas preparação histórica para o Natal, mas um itinerário espiritual contínuo que atravessa toda a vida cristã.
Na primeira vinda, celebrada no Natal, o Filho de Deus assumiu nossa humanidade, fazendo-se criança em Belém para redimir o mundo. Sua encarnação, como ensina o Magistério, manifesta a misericórdia divina que irrompe na história como luz para aqueles que estavam “nas sombras da morte” (cf. Lc 1,79). O Advento retoma esse acontecimento como fonte de conversão e reconhecimento da grandeza do amor de Deus.
A segunda vinda, futura e gloriosa, ocupa lugar central na liturgia das primeiras semanas. Cristo adverte: “Vigiai, porque não sabeis quando virá o Senhor” (Mc 13,35). Esta vigilância, longe de gerar temor, sustenta a esperança dos que aguardam o cumprimento definitivo das promessas divinas. A Igreja, como Esposa, permanece em atitude de expectativa e fidelidade, repetindo: “Vem, Senhor Jesus!” (Ap 22,20).
Há ainda a vinda cotidiana, interior e silenciosa, quando Cristo visita a alma pela graça. Cada gesto de fé, cada ato de caridade, cada oração sincera abre espaço para que Ele nasça novamente no coração humano.
Assim, o Advento é tempo de promessa e de renovação, em que a liturgia e a vida espiritual se unem para preparar dignamente o fiel para acolher o Senhor que vem. Neste artigo, contemplaremos sua história, significado teológico, práticas litúrgicas e implicações para a vida cristã atual.

2. FUNDAMENTOS HISTÓRICOS, TEOLÓGICOS E LITÚRGICOS DO ADVENTO
2.1. História e Origem do Advento
O Advento, tal como hoje o celebramos na liturgia romana, é fruto de um longo processo histórico que atravessa séculos, culturas e expressões diversas da fé cristã. Diferentemente das grandes solenidades já bem estabelecidas desde os primeiros séculos, como a Páscoa e Pentecostes, o Advento não possui uma origem imediata ou uniforme. Ele brota progressivamente da vida da Igreja, à medida que o Mistério da Encarnação vai sendo celebrado de modo mais explícito e estruturado no Ocidente.
Nos três primeiros séculos, não há evidências claras de um período específico de preparação para o Natal. A atenção da Igreja primitiva se concentrava sobretudo no Mistério Pascal, a fonte e o ápice da vida cristã. Todavia, à medida que a celebração do nascimento de Cristo se torna mais difundida, especialmente a partir do século IV, surgem práticas regionais de preparação espiritual e ascética.
A primeira grande influência histórica para o Advento vem das Igrejas orientais, sobretudo da tradição síria e bizantina, que celebravam um período de preparação para a Natividade conhecido como Jejum de São Filipe, anterior ao Natal. Esse período, mais longo — cerca de quarenta dias — tinha caráter penitencial e guardava certa analogia com a Quaresma. Embora o Ocidente não tenha adotado esse modelo integralmente, certos elementos dele influenciaram a espiritualidade preparatória que se desenvolveria posteriormente.
No ambiente ocidental, as primeiras manifestações do Advento aparecem na Península Ibérica e, sobretudo, nas regiões da Gália. O Concílio de Saragoça (380) menciona a necessidade de maior assiduidade litúrgica entre 17 de dezembro e a Epifania, o que indica uma preocupação pastoral com a preparação espiritual para as celebrações da Encarnação. Pouco depois, diversas dioceses das Gálias começam a estabelecer períodos de jejum e penitência que se estendiam por três ou até seis semanas antes do Natal.
Um marco importante ocorre no Concílio de Tours (567), que determina que os monges deveriam jejuar três vezes por semana desde o dia de São Martinho (11 de novembro) até o Natal. Este período ficou conhecido como Quadragésima de São Martinho, tornando-se uma espécie de mini-quaresma, com forte tonalidade ascética. Nessa época, o Advento no rito galicano possuía caráter mais penitencial do que propriamente escatológico, sublinhando a necessidade de purificação interior para acolher a vinda do Salvador.
A estabilização litúrgica do Advento no rito romano ocorre gradualmente entre os séculos VI e VII. É comum atribuir-se ao papa São Gregório Magno a fixação das quatro semanas do Advento, ainda que a estrutura definitiva tenha se consolidado plenamente apenas nos séculos seguintes. O rito romano, ao contrário do galicano, desenvolveu desde o início uma tônica mais escatológica nas primeiras semanas, centrada nas palavras de Cristo sobre vigilância e juízo final, como em Mateus 24–25, e posteriormente um enfoque mais direto no mistério da Encarnação, a partir das antífonas e leituras próximas ao Natal.
Também florescem neste período os primeiros formulários litúrgicos próprios do Advento: orações, prefácios, antífonas e leituras que evidenciam a tensão sagrada entre promessa e cumprimento, entre expectativa e realização. A espiritualidade do Advento se consolida, assim, como um convite a contemplar tanto a humildade da primeira vinda de Cristo — “nascido de mulher” (Gl 4,4) — quanto a majestade de Sua vinda futura, quando virá “com grande poder e glória” (Mt 24,30).
A história do Advento revela, portanto, que este tempo não nasceu por determinação única ou diretiva pontual, mas pela progressiva maturação da fé da Igreja, que, iluminada pelo Espírito Santo, reconheceu a necessidade de preparar o coração dos fiéis para acolher dignamente o Mistério da Encarnação e manter viva a vigilância para a vinda gloriosa do Senhor.
2.2. Significado Teológico do Advento
A compreensão teológica do Advento fundamenta-se no próprio significado da palavra “adventus”, que no latim clássico indica chegada, presença ou vinda de alguém importante. Para a Igreja, essa palavra assume um sentido profundamente cristológico: o Advento é o tempo em que se contempla a vinda do Filho de Deus em sua plenitude de mistério — passado, presente e futuro.
A dimensão teológica mais fundamental do Advento é a afirmação da dupla vinda de Cristo, verdade professada pela Igreja desde os primeiros séculos. Por um lado, celebramos a vinda histórica do Verbo eterno que “se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14), realizada na humildade do presépio. Por outro, professamos com fé que Ele virá novamente, “para julgar os vivos e os mortos”, conforme proclama o Símbolo Niceno-Constantinopolitano. Essas duas vindas constituem o eixo que estrutura toda a espiritualidade do Advento.
Os Padres da Igreja frequentemente oferecem uma perspectiva complementar ao falar de uma “vinda intermediária”, em que Cristo visita e transforma a alma pela graça. Esta presença espiritual — silenciosa e misteriosa — faz do Advento um tempo privilegiado de conversão interior. Cristo vem a nós quando abrimos o coração à Sua palavra, recebemos os sacramentos e vivemos segundo os Seus mandamentos. Desse modo, o Advento remete não apenas a eventos passados ou futuros, mas também ao dinamismo atual da vida cristã.
Além dessa dimensão tripla, o Advento possui uma forte tonalidade escatológica. As leituras das primeiras semanas frequentemente dirigem o olhar para o fim dos tempos, ecoando palavras de Jesus como: “Vigiai, porque não sabeis em que dia virá o vosso Senhor” (Mt 24,42). Esta vigilância não tem caráter de temor ansioso, mas de esperança ativa e confiante, sustentada pela certeza de que Cristo, Juiz e Salvador, vem instaurar a plenitude do Reino.
O Advento também é iluminado pela promessa messiânica do Antigo Testamento. Os profetas anunciam a chegada do Salvador com imagens de grande beleza espiritual. Isaías proclama que “uma virgem conceberá e dará à luz um filho” (Is 7,14) e que uma voz clama no deserto: “Preparai o caminho do Senhor” (Is 40,3). Ao reler essas palavras à luz de Cristo, a Igreja reconhece na história da salvação a contínua fidelidade de Deus, que prepara Seu povo para acolher o Messias.
A doutrina da Encarnação, como afirma o Magistério, dá o fundamento teológico mais profundo ao Advento. O Filho, consubstancial ao Pai, assume nossa natureza para redimir a humanidade e conduzi-la à comunhão divina. Celebrar o Advento é, portanto, contemplar o desígnio amoroso de Deus, que “tanto amou o mundo que entregou o seu Filho unigênito” (Jo 3,16), manifestando Sua misericórdia e Sua justiça.
Há também no Advento uma dimensão moral e espiritual essencial. A expectativa da vinda de Cristo conduz o fiel à prática das virtudes teologais: a fé que reconhece a presença do Senhor, a esperança que se apoia em Suas promessas e a caridade que transforma o coração. A vigilância espiritual implica combater o pecado, exercitar o arrependimento e cultivar a pureza do coração. Esse caminho de conversão é descrito pelos mestres espirituais como preparação da “manjedoura interior” onde Cristo deseja nascer.
Assim, o Advento é mais do que um simples período litúrgico: é uma síntese da vida cristã. Nele ressoam a verdade da Encarnação, a esperança da glória futura e o chamado diário à conversão. É um tempo em que a Igreja, como Esposa vigilante, clama com ardor: “Vem, Senhor Jesus!” (Ap 22,20).
2.3. Práticas Litúrgicas e Símbolos do Advento
As práticas litúrgicas do Advento expressam visivelmente a espiritualidade própria desse tempo, conduzindo o fiel à vigilância, à conversão e à esperança. Cada elemento presente na liturgia manifesta um aspecto do mistério celebrado, e sua compreensão adequada ajuda o cristão a entrar mais profundamente na dinâmica da preparação para o Natal.
A cor litúrgica roxa, utilizada nos paramentos e nos adornos do altar, indica sobriedade, penitência e expectativa. Embora o Advento não tenha o mesmo caráter penitencial da Quaresma, conserva um tom de recolhimento que lembra ao fiel a necessidade de preparar o coração para acolher a vinda do Senhor. A ausência do Glória nas Missas, retomado apenas na Noite do Natal, reforça essa expectativa reverente: a Igreja silencia esse hino para que seu retorno seja experimentado com maior intensidade na celebração do nascimento do Salvador.
Entre os símbolos mais conhecidos está a Coroa do Advento, composta geralmente por ramos verdes em forma circular e quatro velas. O círculo simboliza a eternidade de Deus, que não tem princípio nem fim; o verde expressa a esperança que não desfalece; e cada vela representa as quatro semanas do Advento, indicando o progresso da luz que cresce à medida que se aproxima o Natal, lembrando que Cristo é a luz verdadeira “que ilumina todo homem” (Jo 1,9).
Outro elemento profundamente teológico são as Antífonas do Ó, entoadas entre os dias 17 e 23 de dezembro. Cada antífona invoca o Messias com um título bíblico — Sabedoria, Adonai, Raiz de Jessé, Chave de Davi, Oriente, Rei das Nações, Emanuel — revelando o cumprimento das profecias e despertando no fiel uma ardente expectativa. A liturgia também coloca grande ênfase nas leituras proféticas, especialmente de Isaías, que anunciam a vinda do Salvador com imagens de consolação e justiça.
Assim, a liturgia do Advento, através de sinais e palavras, educa o coração cristão na espera vigilante, convidando-o a caminhar na luz que se aproxima e a preparar-se dignamente para acolher o Senhor que vem.
2.4. Vivendo o Advento na Atualidade
Viver o Advento na atualidade exige recuperar seu sentido original diante de um contexto marcado pelo imediatismo e pelo consumismo. Enquanto o mundo antecipa o Natal reduzindo-o muitas vezes a aspectos puramente comerciais, a Igreja convida o fiel a um caminho interior de preparação, silêncio e expectativa. Assim, o Advento torna-se um tempo de renovação espiritual que inspira atitudes concretas de conversão.
A primeira dimensão essencial é o silêncio interior. Em meio ao ritmo acelerado da vida moderna, reservar momentos diários de recolhimento permite escutar a voz de Deus que, como recordam os mestres espirituais, fala suavemente ao coração. A leitura orante da Escritura, especialmente dos Evangelhos e dos profetas, ajuda a reconhecer os sinais da presença do Senhor e fortalece a vigilância recomendada por Cristo: “Estai preparados, porque na hora em que não pensais virá o Filho do Homem” (Mt 24,44).
Outra prática indispensável é a busca do sacramento da Reconciliação, que permite ao fiel acolher a graça purificadora de Deus. A confissão, realizada com sincero arrependimento, restaura a amizade com o Senhor e prepara mais plenamente o coração para celebrar o mistério da Encarnação.
O Advento também convida ao exercício da caridade concreta, especialmente para com os mais necessitados. Obras de misericórdia realizadas com discrição e generosidade refletem o amor de Cristo e tornam visível Sua presença no mundo. Como ensinavam os Padres, nenhuma preparação é mais agradável ao Senhor do que um coração que pratica a caridade.
Nas famílias, pequenas práticas ajudam a cultivar o espírito do Advento: a oração ao acender as velas da Coroa, a leitura de passagens bíblicas nas refeições, a criação de um ambiente doméstico de serenidade e esperança. Para os jovens, propostas de serviço e momentos de adoração podem reacender o ardor missionário. Para todos, o Advento é um convite a recentrar a vida em Cristo, permitindo que Ele encontre em cada alma um espaço humilde, mas preparado, onde possa nascer novamente.
CONCLUSÃO
O Advento, ao longo de sua história e riqueza teológica, revela-se como um tempo privilegiado de encontro com o mistério de Cristo. Ele nos lembra que a salvação não é um evento distante, mas uma realidade sempre atual, que exige do fiel uma resposta concreta de fé, esperança e caridade. A liturgia, com sua sabedoria milenar, nos chama à sobriedade, à vigilância e à conversão, indicando que a preparação para a vinda do Senhor começa no coração de cada cristão.
Diante da primeira vinda, contemplamos a humildade do Verbo feito carne. Diante da segunda vinda, reconhecemos o chamado à responsabilidade moral e ao testemunho fiel. E, diante da vinda interior de Cristo, percebemos a necessidade de abrir espaço para que Sua graça transforme nossa vida. Por isso, o Advento é um tempo que exige decisão e empenho: não basta recordar a vinda do Salvador; é preciso permitir que Ele encontre em nós uma morada preparada e vigilante.
A Palavra de Deus insiste: “Despertai, pois a salvação está mais perto do que quando abraçamos a fé” (Rm 13,11). Essa exortação ecoa de modo particular no Advento. Em um mundo marcado pela pressa e pela superficialidade, somos convidados a viver com profundidade e propósito. O espírito do Advento não se enquadra na lógica do consumo, mas na lógica da gratuidade divina. Ele convoca cada fiel a rever práticas, ordenar afetos, renunciar ao pecado e crescer na santidade.
Assim, ao concluir esta reflexão, permanece o chamado da Igreja: que cada cristão faça do Advento um verdadeiro caminho de preparação interior. Que, fortalecidos pela oração, pelos sacramentos e pelas obras de misericórdia, possamos acolher com alegria o Senhor que vem — na memória do Natal, na graça cotidiana e na glória futura. E que, perseverantes, possamos repetir com confiança: “Vem, Senhor Jesus!”




Além de uma reflexão profunda e necessária deste tempo tão precioso, somos agraciados com uma oração própria do tempo litúrgico.... que Deus abençoe