O Valor da Penitência: Conversão do Coração e Cura pela Reconciliação
- escritorhoa
- há 19 horas
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INTRODUÇÃO
Em muitos ambientes contemporâneos, a palavra “penitência” soa como sinônimo de culpa doentia, castigo ou tristeza. Porém, na fé católica, penitência é antes de tudo um dom: o caminho pelo qual Deus reconduz o coração ferido à alegria da comunhão. Onde o mundo oferece anestesia para a consciência, o Evangelho oferece cura; e toda cura começa quando a verdade encontra a misericórdia.
Neste artigo, consideraremos a penitência em seus dois sentidos inseparáveis. Primeiro, como virtude e atitude permanente: a conversão interior, a metanoia, pela qual o cristão detesta o pecado, volta-se para Deus e assume um propósito concreto de mudança. Segundo, como sacramento da Reconciliação: o encontro instituído por Cristo para perdoar os pecados cometidos após o Batismo e restaurar a paz com Deus e com a Igreja.
Defenderemos uma tese simples e profundamente libertadora: a penitência tem valor salvífico, porque restitui a graça; valor medicinal, porque cura as feridas e enfraquece os vícios; valor educativo, porque forma a liberdade e purifica os afetos; valor eclesial, porque reintegra o pecador na comunhão; e valor missionário, porque faz renascer a caridade que testemunha Cristo no mundo. Se Deus é misericórdia, por que insistir em penitência? Porque a misericórdia não elimina a verdade do pecado; ela a cura, e cura exige conversão.
Para sustentar essa visão, seguiremos um percurso claro. Partiremos da Sagrada Escritura, onde o chamado à conversão ilumina a vida inteira. Em seguida, recorreremos ao Catecismo Romano e ao Concílio de Trento para firmar a doutrina. Depois, ouviremos a síntese do Catecismo da Igreja e a linguagem direta de São Pio X. Por fim, veremos como os Padres e a disciplina canônica ajudam a viver a penitência na prática.
Com essas chaves, entremos agora na escola da Palavra, para descobrir como a Bíblia descreve o retorno do homem ao Pai.

2. PENITÊNCIA: RETORNO, CURA E RENOVAÇÃO EM CRISTO
2.1. A penitência na Sagrada Escritura: metanoia e volta ao Pai
Tendo visto, na introdução, que a penitência não é um peso imposto à alma, mas um caminho de vida que une verdade e misericórdia, convém agora escutar a Sagrada Escritura, onde Deus mesmo revela o que significa “fazer penitência”. Antes de ser um conjunto de práticas, a penitência é uma conversão do coração: uma mudança real de direção, um retorno à aliança, uma volta do filho à casa do Pai.
Nos Evangelhos, o anúncio do Reino vem acompanhado de uma exigência que não admite atalhos: “Fazei penitência” (Mt 3,2) e “Convertei-vos” (Mc 1,15). Quando Jesus inicia sua pregação, repete a mesma convocação: “Convertei-vos, pois o Reino dos Céus está próximo” (Mt 4,17). Aqui, a palavra bíblica para conversão (metanoia) indica mais do que remorso: é uma transformação do interior, uma renovação da mente e do coração, pela qual o homem abandona o pecado e se volta para Deus com fé. Por isso, João Batista exige frutos: “produzi frutos dignos de penitência” (Mt 3,8). O critério bíblico é claro: a penitência autêntica não se mede por emoções, mas por uma vida que começa a ser reorganizada segundo Deus.
O Antigo Testamento já preparava esse caminho com uma linguagem forte e misericordiosa. O profeta Joel proclama em nome do Senhor: “Voltai para mim de todo o coração… rasgai o vosso coração, e não as vossas vestes” (Jl 2,12–13). A imagem é decisiva: Deus não rejeita sinais exteriores, mas denuncia a falsa piedade que encobre um coração intacto. A penitência verdadeira começa no íntimo: é o coração que se deixa “rasgar”, isto é, quebrar na humildade. O Salmo 50(51), grande oração penitencial, confirma isso quando reconhece que o sacrifício agradável a Deus é “um espírito contrito” e que Deus não despreza “um coração contrito e humilhado” (Sl 50[51]). A Escritura, portanto, não romantiza o pecado nem banaliza a culpa; ela ensina a colocá-los diante de Deus, sem máscaras, como matéria de cura.
Essa cura aparece com especial beleza na parábola do filho pródigo (Lc 15). O caminho penitencial é descrito em passos muito humanos: o afastamento que esvazia, o despertar interior (“caindo em si”), a lembrança do Pai, a decisão de voltar, e finalmente a confissão humilde: “Pai, pequei contra o céu e contra ti” (Lc 15,18). Porém, a parábola revela ainda mais: antes que o filho organize um discurso perfeito, o Pai já corre ao encontro, abraça e restaura a dignidade. A penitência, assim, não é uma humilhação estéril; é o retorno que encontra um Deus que antecipa com misericórdia.
São Paulo dá uma chave preciosa ao distinguir a tristeza que salva da tristeza que destrói: “a tristeza segundo Deus produz penitência para a salvação” (2Cor 7,10). Existe uma dor que fecha a alma no desespero e existe uma dor que abre a alma para a esperança. Por isso, a Escritura insiste na verdade: “Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos… Se confessarmos os nossos pecados, Ele é fiel e justo para nos perdoar” (1Jo 1,8–9). O perdão supõe a luz; a misericórdia supõe a confissão.
E aqui se dá a passagem decisiva para o próximo tema: o Novo Testamento mostra que esse perdão não fica apenas no plano interior e invisível. Cristo Ressuscitado, soprando o Espírito, confia à Igreja um ministério real: “A quem perdoardes os pecados, serão perdoados” (Jo 20,22–23). E São Tiago recomenda: “Confessai os vossos pecados uns aos outros” (Tg 5,16), unindo confissão e oração como remédio. Assim, a Bíblia conduz naturalmente do chamado à conversão à forma concreta pela qual Deus quis curar e reconciliar. Com esse fundamento bíblico, passamos agora a aprofundar a penitência interior — contrição, propósito e retorno do coração — para então compreender, com plena clareza, por que a Igreja fala do sacramento como casa segura da misericórdia.
2.2. Penitência interior: contrição, propósito e a verdade que liberta
Depois de contemplarmos, na Escritura, a penitência como metanoia — retorno do coração e volta do filho à casa do Pai — é necessário descer ao “centro” desse caminho: a penitência interior. Aqui está o ponto decisivo: antes de qualquer gesto externo, antes mesmo de qualquer palavra dita, a penitência é um ato da alma que se coloca diante de Deus na verdade. Sem esse movimento interior, as práticas penitenciais podem virar costume, formalidade ou até teatro religioso. Com ele, mesmo uma simples súplica, feita com sinceridade, torna-se início de uma vida nova.
A tradição catequética da Igreja, especialmente o Catecismo Romano ligado ao Concílio de Trento, insiste que a penitência, em seu sentido mais profundo, é voltar-se para Deus de coração, detestando o pecado cometido e abraçando um firme propósito de emenda. Isso significa que a penitência interior não é mera tristeza, nem um autojulgamento estéril: é uma decisão real de abandonar o pecado porque ele ofende a Deus e fere a nossa própria alma, e de reordenar a vida segundo o Evangelho. Em outras palavras, é a verdade do amor: reconheço o mal, não para ficar preso nele, mas para deixar-me conduzir ao Bem.
Esse ponto merece precisão, porque muitos confundem contrição com desespero, e propósito com perfeccionismo. Contrição é uma dor santa: é sentir, com lucidez, que o pecado foi infidelidade, ruptura, ingratidão; é olhar para Deus e dizer, como o salmo penitencial, que Ele ama um coração contrito. Mas essa dor é teologal, porque não termina em si mesma: ela se apoia na misericórdia divina e, por isso, traz esperança. O desespero, ao contrário, fecha as portas: transforma o pecado em sentença final e esquece que Deus é maior do que o nosso coração. A contrição verdadeira é humilde, mas não é derrotada; ela chora, mas caminha.
O propósito de emenda, por sua vez, não é prometer impecabilidade. É comprometer-se, com seriedade, a evitar o pecado e as ocasiões que nos conduzem a ele, usando meios concretos: vigiar, rezar, pedir ajuda, ajustar rotinas, cortar vínculos nocivos, reparar injustiças. O propósito é “firme” não porque se julga infalível, mas porque se apoia na graça e na prudência. Quem caiu muitas vezes pode — e deve — recomeçar muitas vezes; a firmeza não está em “nunca mais cair”, mas em não fazer as pazes com o pecado, em não chamar de normal aquilo que nos destrói.
O Catecismo da Igreja Católica retoma essa mesma sabedoria ao explicar que a conversão interior é obra de Deus em nós, que toca o coração e se expressa em escolhas concretas. A penitência interior não é um estado sentimental, mas um caminho de cura que atinge a mente, a vontade e os afetos. Por isso, ela inclui a decisão de reconciliar-se, de pedir perdão, de abandonar vícios, de retomar a oração, de ordenar a vida. Quando a conversão é real, ela começa a aparecer: na linguagem, na mansidão, no domínio de si, na caridade para com o próximo, no abandono de rancores.
Aqui também se purifica a experiência da vergonha. Muitos temem a penitência porque temem “ser expostos”. Mas a vergonha, quando iluminada pela fé, pode tornar-se humildade: ela nos lembra que não somos autossuficientes e nos conduz a Deus. A penitência interior, portanto, não é uma humilhação imposta; é a libertação de quem para de se justificar e aprende a dizer a verdade: “pequei”. Esse ato, tão simples e tão difícil, é o ponto em que a alma deixa de negociar com o mal e se abre à medicina do céu.
Por fim, é preciso notar: a penitência interior, por ser essencial, não pode permanecer vaga. O coração convertido procura um lugar onde a misericórdia não seja apenas desejada, mas recebida com certeza; onde o perdão não seja apenas esperança subjetiva, mas dom objetivo de Cristo. É exatamente aqui que a lógica do Evangelho nos conduz ao próximo passo: se a conversão é o retorno do filho, o Pai quis também uma porta aberta na Igreja, um encontro sacramental no qual Cristo, Médico das almas, aplica a sua graça com autoridade e paz. É para esse “lugar seguro” da reconciliação que agora nos voltamos.
2.3. O sacramento da Penitência: Cristo Médico, a Igreja como casa de reconciliação
Se a penitência interior é o coração que volta para Deus na verdade — com contrição e propósito firme — permanece ainda uma pergunta decisiva: onde esse retorno encontra, de modo seguro e objetivo, o perdão e a paz que Cristo prometeu? Deus pode tocar a alma no secreto, sem dúvida; mas o mesmo Deus, em sua sabedoria pastoral, quis que a misericórdia chegasse até nós também por um sinal visível, inserido na comunhão da Igreja. Por isso, a conversão interior, para ser plena, tende naturalmente ao sacramento da Penitência, onde o pecador encontra não apenas esperança de perdão, mas a certeza do perdão concedido por Cristo.
O fundamento desse sacramento é cristológico e explícito. No dia da Ressurreição, Jesus se põe no meio dos discípulos, dá-lhes a paz e sopra sobre eles: “Recebei o Espírito Santo”. Em seguida, entrega uma autoridade que nenhuma criatura poderia atribuir-se por si mesma: “A quem perdoardes os pecados, serão perdoados; a quem os retiverdes, serão retidos” (Jo 20,22–23). Não se trata de uma metáfora. Cristo, que tem poder divino de perdoar, decide associar sua Igreja a esse ministério, para que o perdão alcance o homem por uma via concreta, humana, sacramental. Assim como Ele curava por gestos e palavras, Ele continua a curar por meio dos sinais que instituiu, confiando-os aos Apóstolos e a seus sucessores.
A Tradição católica, especialmente expressa pelo Concílio de Trento, enxerga nesse dom um remédio de grande misericórdia: depois do Batismo, se alguém cai em pecado grave, Deus não o abandona ao desespero. A Penitência é chamada de “segunda tábua depois do naufrágio”: se o Batismo é o grande nascimento para a vida nova, a Confissão é a tábua providencial pela qual o naufragado é resgatado. Aqui aparece o valor salvífico do sacramento: ele não é um acessório da vida cristã, mas um meio ordinário pelo qual Cristo restaura a graça perdida e reconcilia o pecador com o Pai.
Para compreender sua beleza, convém olhar para sua estrutura, que é simples e profundamente humana. A Igreja sempre ensinou que o sacramento envolve, de modo integrado, atos do penitente e o ato de Cristo na Igreja.
Contrição: é a dor do pecado diante de Deus, unida ao propósito de não pecar mais. Sem contrição, não há retorno; sem propósito, não há seriedade. A contrição verdadeira não precisa ser acompanhada de emoções intensas, mas precisa ser real: é a vontade que se volta para Deus e rejeita o pecado como inimigo da amizade divina.
Confissão: é a acusação humilde dos pecados diante do ministro de Cristo. Aqui muitos recuam por vergonha; mas é justamente esse passo que educa a alma na verdade e na humildade. Confessar não é “se expor” a um homem: é colocar-se diante de Deus, na Igreja, e permitir que a graça toque o ponto concreto da queda. A confissão rompe a autoilusão, corta as justificativas e devolve ao pecado o seu nome verdadeiro, para que ele possa ser curado.
Absolvição: é o centro do sacramento, o momento em que Cristo, por meio do sacerdote, perdoa os pecados e devolve a paz. Não é o sacerdote “dando opinião”; é o Senhor agindo sacramentalmente: uma sentença de misericórdia que liberta, restaura e reconcilia. Por isso, o sacramento não é apenas psicológico; ele é sobrenatural: comunica graça, cura e reintegra.
Satisfação (penitência): é a obra penitencial recebida do confessor e acolhida pelo penitente. Ela não “compra” o perdão; ela expressa a seriedade do retorno, coopera com a cura das feridas e educa a alma para amar de modo ordenado. Voltaremos a isso com profundidade na próxima seção, porque aqui se abre um ponto essencial para entender o valor da penitência cristã.
O sacramento tem ainda um aspecto frequentemente esquecido: ele é eclesial. O pecado não é apenas uma falha íntima; ele fere a comunhão, enfraquece o testemunho, desfigura a caridade. Por isso, a reconciliação não é apenas “entre mim e Deus”: é também um retorno à casa, como no filho pródigo. O confessor não é um espectador; ele representa a Igreja que acolhe, orienta, corrige e cura. Por essa razão, a Confissão bem vivida forma a consciência, fortalece a luta espiritual e constrói maturidade cristã.
Daí se compreende por que a Igreja recomenda — e tantos santos viveram — a confissão frequente, mesmo quando não há pecado mortal. Não se trata de escrúpulo, mas de medicina: quem confessa regularmente aprende a reconhecer raízes, combater hábitos, crescer em virtudes e receber direção segura. A Confissão frequente não diminui a confiança na misericórdia; ao contrário, aumenta-a, porque ensina a esperar em Deus com realismo e humildade.
Assim, chegamos ao limiar do próximo passo. Se o sacramento nos devolve a graça e a paz, ele também nos mostra que o pecado deixa marcas: desordena afetos, cria inclinações, pede reparação e cura. É por isso que, ao lado da absolvição, a Igreja sempre manteve a satisfação, isto é, a penitência concreta que reordena a vida e participa, em Cristo, da reparação do mal. É para compreender esse aspecto — tão mal-entendido hoje, e tão libertador quando bem vivido — que passamos agora ao sentido das obras penitenciais e de sua profunda lógica de amor.
2.4. Satisfação e obras penitenciais: reparar, curar e educar o amor
Depois de contemplarmos o sacramento da Penitência como o encontro objetivo com o perdão de Cristo — com contrição, confissão e absolvição — surge naturalmente uma questão: se Deus já perdoou, por que ainda “fazer penitência”? É aqui que muitos se confundem, como se a penitência fosse um “preço” pago pelo perdão. A fé católica, porém, é muito mais bela e mais realista: o perdão restaura a amizade com Deus, mas o pecado deixa desordens e feridas na alma e no tecido da vida. A satisfação, portanto, não compra a misericórdia; ela colabora com a cura e exprime, com atos concretos, a seriedade do retorno.
A tradição, consolidada no Concílio de Trento, ensina que a penitência inclui também a satisfação, especialmente ligada às consequências do pecado e ao remédio contra recaídas. O pecado não é um erro abstrato: ele cria hábitos, debilita a vontade, obscurece a inteligência, fere relações, provoca injustiças. Quando Deus perdoa, Ele nos devolve a graça; e, ao mesmo tempo, nos convida a caminhar na reparação do que foi quebrado. Por isso a Igreja, com sabedoria maternal, impõe uma penitência sacramental — geralmente simples — não como punição vingativa, mas como medicina: um primeiro passo concreto para que a conversão se torne vida.
O Catecismo de São Pio X exprime isso com clareza catequética: a satisfação é a reparação oferecida à justiça divina por meio das obras prescritas pelo confessor, e tem também um efeito educativo: ajuda a alma a não voltar ao pecado, fortalecendo-a contra as tentações. Essa pedagogia é profundamente evangélica: quem ama de verdade não se contenta em dizer “perdão”; deseja reparar, na medida do possível, e reorganizar a vida. A penitência, assim, torna-se linguagem do amor ferido que quer ser restaurado.
A forma clássica da satisfação cristã se organiza em três colunas antigas e sempre atuais: oração, jejum e esmola. A oração reconduz a alma a Deus: reabre a intimidade, cura a dispersão interior, e põe o coração novamente sob o senhorio de Cristo. O jejum — entendido como renúncia ordenada — educa o corpo e os apetites, lembrando que a liberdade não é seguir impulsos, mas governá-los pela graça. A esmola, por fim, rompe o egoísmo e repara socialmente o pecado: quem foi curado por misericórdia aprende a tornar-se misericordioso, convertendo bens, tempo e atenção em serviço ao próximo.
Mas há um ponto decisivo: as obras penitenciais só têm sentido cristão quando são vividas em união com a Cruz de Cristo. Não se trata de autossuficiência moral, como se o homem pudesse “equilibrar contas” diante de Deus. Trata-se de participação: Cristo é o Redentor; nós, como membros do seu Corpo, somos chamados a unir pequenas reparações à sua oferta perfeita, deixando que Ele transforme nossas renúncias em caridade. É por isso que, muitas vezes, a penitência mais autêntica não é a mais vistosa, mas a mais fiel: uma restituição feita com justiça, um pedido de perdão humilde, um hábito concreto abandonado, uma obra de misericórdia perseverante, uma palavra corrigida, um tempo devolvido à família, um vício enfrentado com disciplina e oração.
Aqui também se exige prudência. Penitências voluntárias são recomendáveis, mas devem ser humildes, constantes e discretas, evitando exageros que alimentem vaidade, escrúpulo ou imprudência. A regra segura é esta: penitência que aumenta a caridade, a paz e a obediência é boa; penitência que gera orgulho, inquietação e ruptura é suspeita. Por isso, a Igreja sempre aconselhou que a vida penitencial seja orientada por um confessor ou diretor espiritual, sobretudo quando se trata de práticas mais rigorosas.
Assim, compreendemos que a satisfação é parte do grande valor da penitência: ela repara, cura e educa o amor. E, justamente porque essa vida penitencial não é um ato isolado, mas um caminho sustentado pela comunidade e pela tradição, somos conduzidos agora a olhar como a Igreja, desde os Padres até sua disciplina e prática espiritual, organiza a penitência como um verdadeiro estilo de conversão no cotidiano dos fiéis.
2.5. Penitência na vida da Igreja: Padres, disciplina canônica e prática espiritual
Depois de compreendermos que a satisfação não “compra” o perdão, mas colabora com a cura e educa o amor, torna-se evidente que a penitência cristã não pode ser reduzida a um ato isolado, ocasional ou meramente privado. Ela é um modo de viver sustentado pela Igreja: iluminado pela interpretação dos Santos Padres, guardado por uma disciplina que protege a alma e encarnado em práticas simples que tornam a conversão possível no cotidiano.
A leitura patrística da parábola do filho pródigo (Lc 15) é um espelho precioso desse realismo espiritual. Os Padres costumam destacar três movimentos. Primeiro, a misericórdia que antecede: o Pai vê o filho de longe e corre ao encontro, mostrando que a graça não é prêmio do esforço humano, mas iniciativa amorosa de Deus. Segundo, a humildade que cura: a confissão “pequei” não é humilhação vazia, mas a porta pela qual a alma se reabre à verdade e à comunhão. Terceiro, a restauração da dignidade: a veste, o anel e o banquete simbolizam que o perdão não é mera tolerância; é reintegração, filiação restaurada, alegria legítima. Essa visão dos Padres impede dois extremos: o rigor que fecha a porta ao penitente e o laxismo que banaliza o pecado. Em ambos, perde-se o Evangelho.
A disciplina da Igreja, por sua vez, traduz essa mesma sabedoria em normas pastorais que não são burocracia, mas remédio e proteção. O Direito Canônico recorda o núcleo do sacramento da Reconciliação (cân. 959), estabelece a obrigação mínima anual de confessar pecados graves (cân. 989) e reafirma tempos e dias penitenciais (cân. 1249–1251), para que a vida cristã não se dissolva na improvisação. Essas determinações não visam “controlar” consciências, mas garantir que ninguém fique sem o caminho ordinário da misericórdia e sem a pedagogia comunitária da conversão.
Na prática, essa vida penitencial se torna concreta por alguns meios simples e muito eficazes. Um exame de consciência regular (ainda que breve), feito à luz dos mandamentos e das bem-aventuranças, ajuda a nomear o que precisa ser curado. A busca de um confessor estável, quando possível, favorece continuidade e discernimento: a Confissão deixa de ser apenas “apagar faltas” e torna-se escola de virtudes. A direção espiritual, para quem pode, fortalece o propósito e evita tanto a negligência quanto o escrúpulo. E a integração com a liturgia — sobretudo as sextas-feiras e a Quaresma — faz a penitência respirar com a Igreja, não apenas com o esforço individual.
Assim, a penitência revela plenamente o seu valor: ela é retorno ao Pai, cura em Cristo e caminho comunitário de santificação. Com essa visão — bíblica, sacramental e eclesial — colhemos seus frutos e contemplamos, na penitência, uma das formas mais claras da misericórdia de Deus na vida dos fiéis.
CONCLUSÃO
Depois de percorrermos a Escritura, a Tradição catequética e a prática da Igreja, torna-se claro que a penitência não é uma sombra sobre a vida cristã, mas uma das suas luzes. Ela nasce do encontro entre a santidade de Deus e a pobreza do homem: quando reconhecemos o pecado sem desculpas, abrimos espaço para a misericórdia que recria.
Vimos que a penitência possui um valor salvífico, porque Cristo, no sacramento da Reconciliação, devolve a graça a quem caiu após o Batismo e reconduz o filho à casa do Pai. Possui valor medicinal, pois a confissão humilde e a satisfação curam feridas, enfraquecem vícios e treinam o coração na liberdade. Possui valor educativo, porque transforma remorso em propósito, e propósito em passos concretos: oração, jejum, esmola, restituição, reconciliação. Possui valor eclesial, pois o pecado fere a comunhão e o perdão reintegra na vida da Igreja. E possui valor missionário, porque um coração reconciliado volta a amar e, amando, testemunha.
Diante disso, a resposta prática é simples. Se você está longe, dê o primeiro passo: volte ao Pai, faça um exame de consciência sereno e procure a Confissão. Se você já caminha, não trate o sacramento como emergência rara, mas como medicina regular. E, em qualquer estado, abrace pequenas penitências voluntárias, discretas e constantes, unidas à Cruz de Cristo, para reparar, agradecer e crescer.
Deus não quer a nossa tristeza; quer a nossa santidade. A penitência, bem vivida, não diminui a alegria: purifica-a. Que ninguém tema o confessionário: ali a verdade não condena, liberta; e a misericórdia não relativiza, fortalece. Entreguemos ao Senhor nossas quedas e recomeços, e peçamos a graça da contrição verdadeira, da coragem de confessar e da perseverança na emenda, para que a misericórdia se torne vida em nós.
ORAÇÃO DE ENCERRAMENTO
Senhor Jesus, Cordeiro que tira o pecado do mundo, toca meu coração. Concede-me contrição verdadeira, para que eu deteste o mal cometido, confesse com sinceridade e abrace o propósito de emenda. Leva-me ao Pai com humildade, confiança e esperança firme; cura minhas lembranças, fortalece minha vontade e faz-me recomeçar hoje.
Espírito Santo, ilumina minha consciência para reconhecer as minhas faltas sem desculpas. Dá-me coragem de buscar o sacramento da Reconciliação e abrir a alma ao ministro da Igreja. Que a absolvição me devolva a paz, e a penitência imposta cure minhas feridas e eduque meu amor para servir e reparar.
Pai de misericórdia, aceita meus pequenos sacrifícios: oração fiel, jejum discreto e esmola generosa. Une-os à Cruz de Cristo, para que eu participe da reparação e cresça na caridade. Guarda-me na comunhão da Igreja, e, por Maria, conduz-me à santidade perseverante. Hoje e sempre, em minhas quedas, sustenta-me com a Tua graça. Amém.
REFERÊNCIAS
Aquinas, Thomas. Catena aurea: Commentary on the Four Gospels, Collected Out of the Works of the Fathers. Traduzido por John Henry Newman. 4 vols. Oxford: J. H. Parker, 1841–1845.
Catholic Church. Catechism of the Catholic Church. 2nd ed. Città del Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 1997.
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Denzinger, Heinrich, e Adolf Schönmetzer, eds. Enchiridion symbolorum, definitionum et declarationum de rebus fidei et morum. 31st ed. Freiburg im Breisgau: Herder, 1957.
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Society of Biblical Literature. The Greek New Testament: SBL Edition (SBLGNT). Edited by Michael W. Holmes. Atlanta: SBL Press, 2010.




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