São Francisco de Assis: a vida moldada pelo Evangelho
Atualizado: há 3 dias
INTRODUÇÃO
No fim da vida, Francisco de Assis deixou aos irmãos a memória do caminho pelo qual Deus o havia conduzido. Ao ditar seu Testamento, começou recordando os leprosos: aproximar-se deles lhe parecera amargo, até que o Senhor o levou ao seu encontro e lhe ensinou a usar de misericórdia. Dessa experiência nasceu uma transformação que alcançaria sua maneira de trabalhar, de conviver e de rezar. O santo reconhecia a iniciativa divina na origem de tudo o que recebera.
Nascido em Assis, em 1181 ou 1182, Francisco cresceu numa família ligada ao comércio de tecidos. Conheceu o conforto, participou dos divertimentos de sua juventude e desejou a distinção oferecida pelos feitos militares. A cidade em que vivia também estava atravessada por disputas políticas e diferenças sociais. Sua conversão amadureceu nesse ambiente, entre acontecimentos que abalaram suas expectativas e encontros que lhe abriram outra compreensão da vida.
Jesus Cristo tornou-se o centro dessa mudança. A pobreza do Senhor, sua entrega na cruz e sua presença na Eucaristia deram sentido às escolhas de Francisco. A partir delas, formou-se uma fraternidade que procurava viver o Evangelho sob a autoridade da Igreja. O cuidado com os pobres, a pregação da penitência e o louvor ao Criador pertencem a esse mesmo caminho, no qual a fé tomou forma em atitudes reconhecíveis.
Clara de Assis participou desse nascimento espiritual. Ao acolher sua vocação, Francisco viu o seguimento de Cristo florescer também numa comunidade de mulheres consagradas. A relação entre os dois santos permite reconhecer a fecundidade de um amor que se desenvolveu em formas próprias de vida. São Boaventura recolheu relatos de companheiros que conheceram o santo. Para conhecer Francisco, seus escritos e os testemunhos antigos oferecem uma orientação segura: acompanhar como a graça o conduziu e como ele respondeu, até entregar a Deus a vida inteira.

O CAMINHO EVANGÉLICO DE FRANCISCO
Assis e o aprendizado da conversão
Pietro Bernardone, pai de Francisco, era um comerciante próspero. Seu filho cresceu familiarizado com tecidos, dinheiro e relações comerciais, mas também com os ideais de cavalaria que atraíam os jovens de seu tempo. Em 1202, participou da guerra entre Assis e Perúsia. A derrota trouxe o cativeiro, que durou cerca de um ano, seguido por enfermidade e convalescença. As primeiras biografias situam nesses anos o início de uma mudança que exigiria tempo para amadurecer.
São Boaventura narra que Francisco ainda procurou a carreira militar, mas retornou a Assis após uma experiência vivida em Espoleto. Aos poucos, passou a buscar a oração e a servir pessoas necessitadas. A sucessão desses acontecimentos impede tratar sua conversão como uma decisão isolada. A graça encontrava um homem com desejos e hábitos concretos, conduzindo-o por escolhas que modificavam sua relação com o mundo (Legenda maior, I).
O testemunho mais pessoal sobre esse processo está no início do Testamento. Francisco declara que sentia repugnância diante dos leprosos e atribui ao Senhor sua aproximação deles. Ao exercer misericórdia, experimentou que o amargo se transformava em doçura de alma e corpo. A lembrança conserva o peso da dificuldade vencida: ele aprendeu a permanecer junto de pessoas das quais antes desejava afastar-se (Testamento, 1–3).
Boaventura transmite o episódio do beijo no leproso como expressão dessa mudança. O gesto encontra sentido no cuidado que se prolongou nos serviços prestados aos enfermos. A conversão alcançava o corpo, o tempo e a disponibilidade de Francisco. Aqueles que ocupavam as margens de sua antiga vida passaram a receber sua atenção. O Evangelho começava a corrigir a distância que o conforto e o temor haviam estabelecido.
Nesse período, a pequena igreja de São Damião tornou-se um lugar importante de oração. Segundo Boaventura, Francisco ouviu do Crucificado o chamado para reparar sua casa, que estava em ruínas. A resposta começou pela restauração do edifício. O biógrafo reconhece nesse trabalho o alcance maior de uma vocação a serviço da Igreja, adquirida por Cristo com seu sangue (Legenda maior, II,1). Francisco respondeu realizando a tarefa que tinha diante de si.
O conflito com Pietro Bernardone tornou pública a mudança. Diante do bispo de Assis, Francisco devolveu ao pai seus bens e as próprias roupas, renunciando às pretensões sobre a herança. O bispo o cobriu com seu manto. A cena expressa o despojamento escolhido e a proteção eclesial que o acolhia. Sua liberdade para seguir Cristo começava a adquirir uma forma estável, com consequências materiais e familiares.
Francisco prosseguiu reparando igrejas e cuidando dos leprosos. Nesse trabalho, reunia as pedras pedidas aos habitantes de Assis e servia com as próprias mãos, numa ocupação distante dos privilégios conhecidos em sua juventude. A oração o levava ao serviço, e o serviço aprofundava sua oração. Essa ligação constitui uma das marcas duradouras de sua vida: a escuta de Deus amadurecia no cumprimento daquilo que o amor exigia. A fé encontrava espaço nos trabalhos humildes, onde o antigo desejo de reconhecimento cedia lugar à disponibilidade para receber e realizar a vontade divina.
O Evangelho se torna forma de vida
Na Porciúncula, pequena igreja dedicada a Nossa Senhora dos Anjos, Francisco encontrou um lugar decisivo para sua vocação. Boaventura conta que, ao ouvir na Missa o Evangelho do envio dos discípulos, reconheceu o modo de vida que desejava abraçar. As instruções de Cristo sobre a missão, o desprendimento e a confiança em Deus passaram a orientar suas escolhas. A Palavra escutada na Igreja encontrava nele crescente disposição para obedecer (Mt 10,7–10; Legenda maior, III,1).
Em 1208, começaram a chegar companheiros. Bernardo de Quintavalle, Pedro Cattani e, depois, Egídio participaram dos primeiros passos da fraternidade. A presença desses homens trouxe novas responsabilidades. Era preciso aprender a viver juntos, a repartir tarefas e a procurar o sustento. No Testamento, Francisco recorda essa origem com gratidão: “O Senhor me deu irmãos” (Testamento, 14). Reconhecia neles um dom que lhe fora confiado, com a exigência de cuidar da vida comum.
Por volta de 1209, Francisco e seus companheiros foram a Roma apresentar a Inocêncio III uma breve forma de vida. A primeira regra reunia sobretudo passagens do Evangelho. A aprovação inicial, transmitida oralmente, colocou a fraternidade nascente sob o reconhecimento da Igreja. Boaventura descreve a solicitude do pontífice e o discernimento que acompanhou o pedido (Legenda maior, III,8–10). A vida evangélica pretendida por aqueles homens seria desenvolvida dentro da comunhão católica, com sua autoridade e seus sacramentos.
O nome Frades Menores expressava uma disposição concreta diante dos outros. Seus membros procuravam servir e aceitar tarefas humildes, renunciando à posição de superioridade que a riqueza ou o prestígio poderiam oferecer. A pobreza também organizava a vida compartilhada. A Regra determinaria que cuidassem dos irmãos enfermos e que cada um pudesse manifestar suas necessidades com confiança. A dependência mútua exigia uma caridade capaz de perceber a fragilidade alheia.
O trabalho ocupava lugar importante nesse caminho. Francisco recorda que trabalhava com as próprias mãos e pede aos irmãos que aprendam uma ocupação honesta. Quando o sustento obtido fosse insuficiente, poderiam recorrer às esmolas (Testamento, 20–22). A confiança na Providência convivia com o esforço diário. Viver sem acumular bens implicava aceitar a ajuda recebida e oferecer, por sua vez, o serviço possível, sem transformar a pobreza em motivo de vaidade.
Em 1212, na noite do Domingo de Ramos, Clara chegou à Porciúncula para consagrar-se a Deus. Francisco acolheu sua decisão e lhe deu o hábito penitencial. Após estadias provisórias em comunidades religiosas, ela se estabeleceu em São Damião com suas companheiras. Sua vocação receberia expressão própria na vida contemplativa e na organização de uma comunidade de irmãs, à qual dedicaria décadas de cuidado e orientação.
Clara conservou em sua Regra a promessa de Francisco de ter pelas irmãs uma solicitude especial, pessoalmente e por meio de seus irmãos (Regra de Clara, VI,3–5). Esse compromisso mostra a ligação entre as comunidades. A missão dos frades e a oração das irmãs nasciam do mesmo seguimento de Cristo. A amizade espiritual entre os santos favorecia uma resposta livre e perseverante à graça, que frutificava em modos distintos de servir à Igreja.
A Eucaristia e a comunhão com a Igreja
O crescimento da fraternidade exigiu que sua forma de vida fosse explicitada. Em 1221, a chamada Regra não bulada reuniu orientações impregnadas de referências bíblicas. Em 29 de novembro de 1223, Honório III confirmou a Regra definitiva pela bula Solet annuere. Seu início estabelece a observância do santo Evangelho, vivida em obediência, sem propriedade e em castidade. Francisco promete reverência ao papa e à Igreja Romana, vinculando a profissão religiosa à comunhão eclesial.
Essa fidelidade tinha raízes em sua vida de oração. No Testamento, o santo manifesta confiança no ministério dos sacerdotes por causa da ordenação recebida. Sua reverência se dirigia ao serviço pelo qual o Corpo e o Sangue de Cristo eram oferecidos aos fiéis. Francisco procurava honrar esse dom mesmo diante das limitações pessoais de quem o administrava. O fundamento de sua atitude era a ação de Cristo em sua Igreja (Testamento, 6–11).
A primeira das Admoestações ajuda a compreender essa fé. Francisco aproxima a humildade da Encarnação da presença do Senhor sobre o altar. Assim como os discípulos precisaram reconhecer o Filho de Deus na humanidade de Jesus, os fiéis são chamados a crer em sua presença no Sacramento. O santo contempla a condescendência divina que se oferece à fé e pede uma resposta de adoração (Admoestações, I,16–22).
A Igreja professa que, depois da consagração, Jesus Cristo está verdadeira, real e substancialmente presente na Eucaristia, conforme a formulação do Concílio de Trento (sessão XIII, capítulo I). Essa fé permite compreender o cuidado de Francisco com o culto. Para ele, a proximidade de Deus alcançava a vida por um dom recebido, diante do qual o homem podia ajoelhar-se, agradecer e aprender a entregar-se.
Seu amor à pobreza convivia com o desejo de que os mistérios eucarísticos fossem honrados e conservados em lugares dignos. O Testamento registra também o cuidado com os nomes e as palavras do Senhor encontrados por escrito (Testamento, 11–13). Recomendava honrar os teólogos e todos aqueles que ministram a Palavra divina. A reverência se manifestava em gestos materiais. O mesmo homem que aceitava roupas remendadas queria proteger aquilo que servia ao culto e evitar o abandono dos sinais da Palavra divina.
No Natal de 1223, em Greccio, essa devoção ganhou expressão duradoura na memória cristã. Francisco preparou uma manjedoura com feno e a presença de um boi e um jumento. Reuniram-se os irmãos e os habitantes da região para a celebração. Boaventura relata que o santo, diácono, proclamou o Evangelho e pregou sobre o nascimento de Cristo na pobreza (Legenda maior, X,7). A Missa ocupava o centro daquele encontro.
Greccio tornava sensível a humildade do Senhor que assumiu nossa carne. A manjedoura ajudava os presentes a contemplar o mistério celebrado, enquanto a Palavra e a Eucaristia os conduziam à comunhão com Cristo. Na vida de Francisco, a Encarnação e o altar iluminavam o despojamento cotidiano (cf. 2Cor 8,9). Aquele que se aproximava dos homens por amor ensinava seus discípulos a servir. Assim, a reforma da vida cristã começava pela fé acolhida e vivida na Igreja.
Pregar o Evangelho e viver como irmão
Francisco começou a pregar a penitência a partir da mudança que Deus realizava em sua própria vida. Os primeiros testemunhos descrevem suas exortações à conversão e a saudação de paz com que se dirigia às pessoas. Seu anúncio buscava reconciliar o homem com Deus e orientar suas relações pelo Evangelho. A simplicidade de sua palavra correspondia ao modo de viver que os ouvintes podiam reconhecer em seus gestos.
A Regra de 1223 recomenda aos pregadores palavras ponderadas, voltadas à edificação do povo, e pede brevidade na exposição (IX,3–4). A mesma Regra determina que os irmãos, ao percorrerem o mundo, sejam mansos e pacíficos, evitando disputas e julgamentos dos outros (III,10–11). A missão exigia atenção tanto ao conteúdo anunciado quanto à maneira de encontrar as pessoas. A humildade preservava a pregação do desejo de vencer ou de exibir superioridade.
Em 1219, durante a Quinta Cruzada, Francisco viajou ao Oriente e encontrou o sultão al-Malik al-Kamil, no contexto dos combates em torno de Damieta, no Egito. Boaventura narra sua entrada no campo muçulmano e a apresentação da fé cristã ao governante (Legenda maior, IX,7–8). O encontro envolve uma iniciativa missionária assumida em situação perigosa. O relato preserva a coragem do santo e a acolhida que recebeu do sultão.
A orientação escrita por Francisco para os irmãos enviados entre muçulmanos e outros povos permite compreender sua disposição. Na Regra não bulada, prevê que vivam sem contendas, reconhecendo-se cristãos, e que anunciem a Palavra quando julgarem ser essa a vontade do Senhor (XVI,5–7). A presença humilde e a proclamação da fé fazem parte da mesma missão. O discernimento procura o bem dos interlocutores e exige disponibilidade para suportar dificuldades.
Essa caridade precisava ser aprendida também dentro da fraternidade. Na Carta a um ministro, Francisco pede que nenhum irmão, por maior que tenha sido seu pecado, se afaste sem encontrar misericórdia quando a procurar. Se não a pedir, o ministro deve oferecer-lhe essa possibilidade. Mesmo diante de novas quedas, deverá continuar a amá-lo para conduzi-lo ao Senhor (Carta a um ministro, 9–11). A responsabilidade pelo outro sobrevivia à decepção.
A carta trata também da correção e do encaminhamento do irmão, preservando sua dignidade. Francisco orienta que evitem humilhá-lo e divulgar sua falta. Os sacerdotes da fraternidade ofereciam também o auxílio da confissão. A misericórdia trabalha para que o pecador possa voltar a Deus. Esse cuidado requer paciência e domínio da própria irritação, sobretudo de quem recebeu autoridade. A paz pregada fora da comunidade precisava ganhar consistência no trato diário com os que mais exigiam perdão e compreensão.
O horizonte de sua fraternidade alcançava a criação. Boaventura descreve a ternura de Francisco pelos animais e sua disposição de reconhecer nas criaturas sinais da bondade divina (Legenda maior, VIII). Ao falar de irmãos e irmãs, o santo exprimia a condição compartilhada de criaturas recebidas do mesmo Criador. Essa familiaridade sustentava a gratidão e o cuidado. A alegria diante do que Deus fizera encontraria sua expressão mais conhecida nos versos compostos durante os últimos anos de sua vida.
Alverne, o Cântico e os últimos anos
Francisco reservava períodos de retiro para a oração, que sustentava seu serviço aos homens. Em 1224, recolheu-se ao Monte Alverne para uma quaresma em honra de São Miguel Arcanjo. Boaventura situa nesse retiro a experiência dos estigmas. Sua narrativa descreve uma visão de Cristo crucificado sob a figura de um serafim e o aparecimento das marcas da Paixão nas mãos, nos pés e no lado do santo (Legenda maior, XIII,1–3).
O significado espiritual do acontecimento é desenvolvido pelo próprio biógrafo. O amor de Francisco por Cristo havia orientado sua conversão e suas escolhas; agora, essa conformidade recebia uma expressão corporal extraordinária. Boaventura registra sua reserva diante do dom recebido e os testemunhos de quem pôde observar as chagas. A atenção ao Crucificado permite compreender o episódio dentro da vida inteira do santo, marcada pela oração e pela entrega aos irmãos.
As enfermidades se agravaram nos anos seguintes. Francisco sofria particularmente dos olhos e tinha o corpo enfraquecido. Em 1225, permaneceu algum tempo junto a São Damião, onde Clara e suas irmãs viviam. Nesse contexto de sofrimento tomou forma o Cântico do Irmão Sol, também chamado Cântico das Criaturas. A proximidade da comunidade das irmãs reaparece, assim, num momento em que o santo precisava receber cuidado e apoio.
O Cântico dirige o louvor ao Altíssimo e reconhece sua bondade no sol, na lua e nos elementos que sustentam a vida. A água e a terra recebem atenção por seus benefícios. O olhar agradecido de Francisco acolhe o mundo como criação e remete cada dom ao Senhor. Composto quando a enfermidade limitava sua visão, o poema conserva a alegria de quem aprendera a perceber a ação divina também na fragilidade.
Seus versos incluem aqueles que perdoam por amor de Deus e suportam enfermidades e tribulações. Incluem a morte corporal, recebida no horizonte do encontro com o Senhor. Francisco conserva a seriedade da vida moral ao advertir sobre morrer em pecado mortal e proclamar bem-aventurados os que são encontrados na vontade divina. O louvor une a beleza da criação à necessidade de conversão e à esperança da vida eterna (Cântico do Irmão Sol, 10–14).
Quando a morte se aproximou, Francisco pediu para ser levado à Porciúncula. Boaventura relata que exortou os irmãos à caridade, à pobreza e à fidelidade à Igreja, e pediu que lhe lessem o Evangelho de João. A passagem escolhida começava com a referência à Páscoa e ao amor de Jesus pelos seus. A Palavra que orientara sua forma de vida acompanhava também sua partida (Legenda maior, XIV,5).
Francisco morreu ao anoitecer de 3 de outubro de 1226. O caminho iniciado entre os leprosos chegava ao termo depois de anos de serviço, oração e sofrimento. O papa Gregório IX o canonizou em Assis em 16 de julho de 1228. Sua fraternidade continuaria a desenvolver-se, e a vida de Clara conservaria em São Damião a fidelidade ao seguimento de Cristo pobre. Na Igreja, o testemunho de ambos permaneceria como convite a receber o Evangelho e permitir que ele transformasse a existência.
CONCLUSÃO
A vida de Francisco permite reconhecer quanto pode mudar quando alguém acolhe a graça e responde ao chamado de Deus. Sua história conserva a dificuldade dos primeiros passos, a necessidade de discernimento e o aprendizado da convivência. Ele recebeu pessoas e responsabilidades que ampliaram sua entrega. A santidade amadureceu nesse caminho, onde o amor a Cristo alcançou o cuidado com os enfermos, o trabalho e a vida compartilhada.
Para quem vive em família e exerce uma profissão, esse testemunho pode iluminar o uso dos bens, a atenção aos necessitados e a maneira de cumprir os próprios deveres. O desprendimento ganha forma ao ordenar os recursos com justiça e generosidade. Há ocasiões em que servir exige renunciar a uma comodidade; em outras, exige aceitar ajuda e reconhecer limites. A humildade permite realizar ambas as coisas diante de Deus.
O mesmo aprendizado alcança as relações. A misericórdia recomendada por Francisco aos irmãos convida a acompanhar quem precisa recomeçar, preservando sua dignidade e ajudando-o a buscar o bem. A fé eucarística sustenta essa disponibilidade, pois nela o cristão recebe o Senhor que se entrega por amor. A oração torna possível voltar a ele quando o esforço cotidiano, as contrariedades e as próprias faltas enfraquecem a caridade.
Também o louvor pode adquirir espaço na vida comum. Receber com gratidão o alimento, a amizade e os bens da criação educa o coração para reconhecer sua dependência do Criador. O exemplo de Francisco acompanha especialmente os momentos em que a saúde e as forças diminuem. Sua confiança ensina a permanecer junto de Cristo e a entregar-lhe aquilo que já não podemos conduzir sozinhos.
O Evangelho continua a chamar cada pessoa no lugar em que vive. Escutá-lo com fidelidade, dentro da Igreja, permite que a vida seja progressivamente moldada pelo amor que Francisco recebeu e procurou transmitir.
ORAÇÃO DE ENCERRAMENTO
Senhor Jesus Cristo, que conduzistes Francisco pelo caminho da conversão, visitai nosso coração e ensinai-nos a responder à vossa graça. Libertai-nos dos apegos que dificultam o amor e dai-nos coragem para cumprir vossa vontade. Que a escuta do Evangelho transforme nossas escolhas e nos aproxime de vós em cada dia.
Ensinai-nos a servir com humildade na família, no trabalho e junto aos necessitados. Dai-nos paciência diante das fraquezas alheias e disposição para pedir perdão por nossas faltas. Tornai-nos atentos aos enfermos e generosos com os bens recebidos. Que nossa caridade seja sustentada pela oração e pela comunhão com vosso Corpo.
Pela intercessão de São Francisco, conservai-nos fiéis à vossa Igreja e fortalecei nossa esperança nas provações. Ajudai-nos a receber com gratidão as alegrias e a confiar em vós quando enfraquecermos. Conduzi-nos até o fim na vossa amizade, para que louvemos eternamente o Pai, a vós e ao Espírito Santo. Amém.
REFERÊNCIAS
BOAVENTURA, São. Vida de São Francisco (Legenda maior). Passagens dos capítulos I–III, VIII–X e XIII–XV. Consultada na tradução inglesa de E. Gurney Salter (1904), reproduzida na base sobre São Francisco fornecida para esta elaboração.
FRANCISCO DE ASSIS, São. Testamentum — Testamento, especialmente nn. 1–3, 6–14 e 20–22. Texto latino.
FRANCISCO DE ASSIS, São. Regula bullata — Regra bulada, especialmente capítulos I, III, V, VI e IX. Texto latino.
FRANCISCO DE ASSIS, São. Regula non bullata — Regra não bulada, capítulo XVI, nn. 5–7. Texto latino.
FRANCISCO DE ASSIS, São. Admonitiones — Admoestações, I, nn. 16–22. Texto latino.
FRANCISCO DE ASSIS, São. Epistola ad ministrum — Carta a um ministro, especialmente nn. 9–11 e 15–19. Texto latino.
FRANCISCO DE ASSIS, São. Canticum Fratris Solis — Cântico do Irmão Sol. Texto original em vernáculo umbro, especialmente nn. 3–14.
CLARA DE ASSIS, Santa. Regula Sanctae Clarae — Regra de Santa Clara, VI, nn. 3–5. Texto latino.
CONCÍLIO DE TRENTO. Decreto sobre o Santíssimo Sacramento da Eucaristia, sessão XIII, capítulo I.
ORDEM DOS FRADES MENORES. Saint Francis. Cronologia biográfica.




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